Você vai mesmo continuar seguindo o seu coração?

Embora o conselho de "seguir o coração" seja adotado por muitas pessoas, ele é devastador. Entenda o porquê

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Ninguém seguiria um GPS que tivesse um perfil ou uma indução emocional – e não tecnológica –, tampouco que oscilasse entre o certo e o duvidoso. Embora essa modalidade de sistema de navegação não exista – afinal, não seria confiável para obter a direção apropriada –, muitas pessoas agem como se a utilizassem em sua vida pessoal quando dão ouvidos à expressão: “siga o seu coração”. Este e outros conselhos propagados por aí, como “faça o que seu coração diz”, “ouça a voz do seu coração” ou “no coração ninguém manda”, fazem com que quem os seguem atribuam a este órgão vital, que é uma fonte inesgotável de sentimentos, o poder de decisão que não cabe a ele.

Surgem, assim, para elas, uma espécie de bússola e, mais ainda, um “líder” nada confiável.

Não é à toa que a Palavra de Deus diz que o coração é enganador: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9). Vale lembrar que desse mesmo coração, imaginado pela figura conceitual de cor avermelhada e curvas fofas, procedem “(…) maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias.” (Mateus 15.19).

A verdade é que ninguém mente para nós mais do que nosso próprio coração. Além disso, a mesma voz do “coração guiador” tem enorme probabilidade de deixar qualquer um na mão diante dos problemas e, dessa forma, fazer com que as emoções afloradas revelem com a mesma intensidade uma pessoa espiritualmente fraca e emocionalmente vulnerável. Afinal, como seria possível uma pessoa tirar forças ou encontrar a direção apropriada em algo tão superficial como o coração? Não faz nenhum sentido e, como está escrito em Provérbios 28.26, aquele que confia “em seu próprio coração é insensato.”

RAIO X
Há duas características do coração que precisam ser ressaltadas: o fato dele ser um órgão indispensável à existência humana e a questão dele constituir o centro da vontade humana e estar atrelado às emoções que a alma sente.

Para o neurocientista Igor Duarte, (foto abaixo) de São Paulo, alguns personagens da história afirmavam que o coração era a sede da memória e das emoções. “Daí surgiu o termo ‘saber de cor’ que significa ‘saber de coração’.” Contudo ele explica que depois foi percebida a diferença entre a atuação do coração e a do cérebro. “Hoje sabemos que a memória, o raciocínio e a tomada de decisões ocorrem no cérebro e que o coração é uma bomba hidráulica. Metaforicamente, o cérebro é a razão e o coração é a emoção. O cérebro é comumente associado às decisões assertivas, enquanto o coração é associado às decisões desastrosas.”

Igor, que também é voluntário do Grupo da Saúde Universal, observa que é um risco deixar o coração liderar. Ele alerta que a descoberta de ter sido enganado pelo coração pode ocorrer tarde demais e orienta o que se deve fazer para evitar isso: “às vezes tomamos decisões sem a devida atenção e agimos no impulso e no desejo de status ou de possuir algo. Para decisões assertivas, o ideal é enxergar com os olhos da razão e nisso consiste duvidar até mesmo da emoção. O coração não pode ter a palavra final, pois ele sempre vê o lado bom e deixa de perceber os riscos básicos”.

CORAÇÃO BANDIDO
A consultora de seguros Islaine Melo Botelho, (foto abaixo) de 39 anos, considera que desde menina “era uma pessoa romântica”. Ela frequentava a Universal, mas, aos 16 anos, se afastou da Presença de Deus. Quando isso aconteceu, ela apostou todas as fichas em seu coração – pelo menos enquanto aguentou. “Entrei em um relacionamento longo e extremamente problemático. Apesar de estar afastada de Deus, eu sabia que aquela relação não tinha futuro. Ele me traía muito e eu não queria aquilo para mim. Ele até me pediu em casamento, mas eu não quis porque ele era controlador. Isso ocorreu entre meus 17 e 22 anos. Quando aceitei casar, ele engravidou uma moça, disse que iria se casar com ela, mas que nós poderíamos continuar namorando sem problemas.”

Islaine conta que o fato de ouvir os sentimentos a confundia: “era um sentimento que eu achava burro. Eu estava extremamente apaixonada por ele, mas meu lado racional me dizia para não me casar e que esse sentimento não me levaria a lugar nenhum.” Então, ela raciocinou e não se casou.

Sofreu e aprendeu
Ser enganado traiçoeiramente pelo coração, no entanto, pode acontecer novamente. Por isso, é preciso estar atento e vigiar constantemente as emoções. Ao retornar para a Fé, Islaine achou que o fato de estar na Igreja a isentaria de se preocupar com esse tipo de problema, mas não foi o que ocorreu. “Sem ter aprendido nada sobre a vida amorosa, entrei em outro relacionamento que me causou dores. Infelizmente, a chance de conhecer outro rapaz apareceu rapidamente e eu, ferida e querendo mostrar que era capaz de dar a volta por cima, aceitei, mesmo tendo certeza de que não deveria aceitar.”

Ela lembra que aquele relacionamento não condizia com sua Fé e prejudicou sua vida espiritual. “Foi a pior decisão que tomei na vida amorosa. Depois que terminei com ele, tive certeza que não me casaria mais.” Em seguida, Islaine pensou em mudar o foco: “comecei a me dedicar à vida profissional e a outras áreas. Fiz uma previdência privada pensando na velhice, já que não imaginava que alguém cuidaria de mim nem que teria um companheiro”.

Ela, que evitava pensar no assunto e recorrer ao Autor da Fé e do Amor para curar feridas e recomeçar, depois reconheceu que essa era a única forma de transformar sua história. Então, ela passou a focar somente em Deus e, dessa forma, recebeu as bênçãos que desejava.

Islaine é casada há três anos com Reinaldo Botelho e diz que sua vida amorosa foi restaurada. Isso não ocorreu porque ela foi guiada pelo coração, mas porque a Fé inteligente a levou à escolha correta. “Foram quase cinco anos desde que tomei a decisão de que deixaria de seguir meu coração na busca de um companheiro e que deixaria o Espírito do Amor me guiar. Assim nos conhecemos e casamos depois de um ano”, finaliza.

CORAÇÃO ROXO
O coração do empresário Rafael Santos das Neves, (foto abaixo) de 43 anos, era roxo por causa do seu time de futebol, o Corinthians. Ele é casado há 22 anos com a nutricionista Kelli Cristina Nunes das Neves, de 42 anos, e ela conta que o time era a prioridade na vida dele. “Nosso relacionamento e nossa família sempre ficavam para depois. Se tivesse um jogo no domingo à tarde e um almoço marcado com a família, ele preferia assistir ao jogo no estádio, no bar ou na casa de amigos.”

Essa paixão de Rafael era antiga e seus problemas em decorrência dela também. Kelli lembra de um fato marcante que aconteceu logo depois do casamento: “quando nos casamos, optamos por uma recepção simples e viajamos para um resort em Fortaleza (CE) por uma semana. No dia que saímos de lá, colocamos as malas no carro e, pouco depois, chegou o ônibus do Corinthians. Ele me perguntou se teria problema se eu embarcasse sozinha no avião e ele ficasse lá e ele ficou”.

Se o coração de Rafael falava mais alto, o de Kelli também não era diferente: “eu chorava muito e tentava trazê-lo para perto de mim, embora o fanatismo dele o puxasse para longe. Eu acabava agindo no impulso e na emoção, o que machucava a mim e, às vezes, às pessoas ao meu redor, como meus filhos. Depois de brigar e me humilhar muito, resolvi abrir mão do meu casamento”, diz. Eles se separaram.

Rafael, contudo, envolvido pelos sentimentos, não considerava que passava dos limites: “eu não media esforços para fazer o que meu coração pedia. Em 2008, fiz uma promessa de que acompanharia todos os jogos do time e compareci a 38. Na final da Copa Libertadores da América em 2012, não consegui comprar ingresso e um colega conseguiu que eu ajudasse a montar o mosaico da torcida antes do jogo. Ajudei e depois me escondi dentro do banheiro até que os portões se abrissem e eu pudesse entrar”.

Ele diz que foi nessa ocasião que sua ficha caiu: “quando o juiz apitou o final do jogo, me deu um vazio, uma tristeza. Eu tinha acompanhado o time, mas não o crescimento dos meus filhos. Tive que perceber que tinha perdido aquele tempo para enxergar a realidade”.

Aprendizado
Rafael procurou ajuda em terapias e psicólogos. Há sete anos, ao entrar em uma livraria, ele viu o livro Casamento Blindado, de Renato e Cristiane Cardoso, o comprou e assim conheceu a Universal. Com a proximidade com Deus, ele aprendeu que o uso da razão leva a decisões acertadas. “Frequentando as reuniões, entendi que quando agimos com base na emoção pagamos um preço alto. Desde então, meus pensamentos e minhas ações mudaram. Aprendi a colocar as coisas nos seus devidos lugares e a dar prioridade a Deus, à minha esposa e à minha família. Me batizei nas águas e recebi o Espírito Santo. Hoje tenho paz e posso dizer que somos uma família moldada pelas mãos dEle”, conclui.

Preso às vontades
O empresário Matias Barbosa de Oliveira, (foto abaixo) de 46 anos, pertence a uma família que vivia em condições precárias em Palmeiras dos Índios, no interior de Alagoas. “Meus pais trabalhavam muito para que nossa família tivesse o melhor, mas passávamos necessidade. Éramos nove irmãos. Cheguei a pegar ração de vaca e misturá-la com açúcar para saciar a fome.”

Em busca de uma vida melhor, aos 17 anos, ele se mudou para São Paulo, mas sua realidade era a mesma: “continuei passando fome e cheguei a morar na rua”. Foi então que ele recebeu um convite de sua irmã para conhecer a Universal. Ele frequentava as reuniões, mas permaneceu mais de 20 anos refém das próprias vontades. “Eu ia à Igreja, mas voltava a fazer as coisas erradas e a mentir. Eu amava o pecado”, revela.

Fé não é sentimento
Há os que têm coragem de se dedicar a seguir o coração, mas não têm coragem de assumir a Fé que transforma histórias. Eles estão ludibriados porque “esquentam a poltrona” na Igreja e conformados com uma fé emocional, guiada pelos cinco sentidos. Essa postura é uma velha conhecida de muitos que se dizem cristãos. Contudo, quando se alia a razão à Fé que pensa, pondera e questiona – a chamada Fé racional –, o espaço antes dominado pelo coração impulsivo some. Afinal, “(…) a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam (…)”. (Hebreus 11.1) e não um sentimento.

Dessa forma, quando a pessoa não é guiada por Deus, certamente é guiada pelo coração, como aconteceu com Matias. “Ao dar ouvidos ao coração, entrei em um relacionamento e negócios errados e tive um sócio que não deveria”, diz. Procurando um culpado pelo seu fracasso, ele trocou de Igreja, mas não adiantou. “Depois, achei que o problema fosse o País e fui para o México, mas meu fracasso continuou. Voltei ao Brasil e a ficha caiu: o culpado era eu mesmo.”

DIREÇÃO CERTA
Matias ficou cinco anos afastado da Presença de Deus. “Depois que voltei para a Igreja, ainda fiquei mais um tempo longe do Senhor Jesus.” Ele conta que sua fé ainda era sentimental. “Guiado pelo coração, durante a busca pelo Espírito Santo, eu achava que, se eu não chorasse, não tinha sentido a Presença dEle”, conta.

Na época, Matias não compreendia que aquela situação nunca seria um termômetro confiável para medir o nível de Fé ou do relacionamento com Deus. Aquele mesmo coração sentimental despertou outras sensações: “quando a direção do Espírito Santo chamavam a minha atenção, o orgulho falava mais alto. O orgulho é um câncer espiritual”.

Depois de viver muitos anos na mesma situação, Matias cansou de ser quem ele era: “me batizei nas águas, recebi o Espírito Santo e depois tudo começou a mudar na minha vida. Eu não estava mais sendo guiado pelo coração, mas por Deus. Hoje vivo pela Fé.”

Ao encontrar a direção certa, Matias mudou sua condição interior e a exterior. Hoje ele é feliz ao lado da esposa, Júlia Patrícia Jimenez, de 40 anos. “Estudei só até a terceira série, mas Deus me deu uma ideia para fazer a diferença. Minha empresa hoje é avaliada em mais de R$ 5 milhões, temos carro e moramos em um condomínio fechado”, relata.

NOVINHO EM FOLHA
Todos temos coração e, consequentemente, sentimentos. A diferença é ser ou não comandado por eles. Embora o coração corruptível não seja consertado por conta da sua natureza pecaminosa, ele pode ser substituído. Daí a necessidade de se entregar a Deus, pois Ele nos dá um coração novo (Ezequiel 36.26) e um Espírito como o dEle.

Quando a direção é assumida por Deus, enquanto houver sensibilidade e submissão à Sua Voz, haverá aprendizado – e certamente os cuidados dEle não se comparam às trapaças do coração. Esse coração “transplantado” e compatível com Deus passa a sentir o mesmo sentimento dEle, materializado no amor pelas almas. Para que você o obtenha, é preciso desejá-lo e, esvaziado de si e vigilante, manter o coração limpo.

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Colaborador

Flavia Francellino / Fotos: Getty Images, arquivo pessoal, Demetrio Koch e cedida