O que seu filho lê na escola?
Livros com mensagens inadequadas podem afetar o desenvolvimento das crianças
Todos conhecem os benefícios da leitura para uma criança. Mas, infelizmente, nem sempre os livros trazem conteúdos que contribuem para o seu desenvolvimento. Nas últimas semanas, por exemplo, um livro para crianças de 4 a 9 anos causou revolta entre pais e educadores nas redes sociais. Trata-se de A Máquina de Brincar, escrita por Paulo Bentancur, que já teria sido usado como material paradidático em escolas do País.
Ele é composto por 25 poemas divididos em duas partes: uma intitulada “Para ler no claro” e outra, “Para ler no escuro”. Na primeira, são feitos questionamentos sobre a existência de Deus, comparando-O a uma “criança pequenininha com medo de descer do céu”. Em um trecho consta: “Quem já viu a sua cara, quem já falou no ouvido desse Pai tão escondido? Eu ainda não”.
Já na segunda, o diabo é mencionado como “grande amigo”, quando se lê: “Ó diabo, meu grande amigo, vem, vem brincar comigo. A tua testa é coroada por duas guampas afiadas”. Outro verso diz: “Ó diabo, meu grande amigo (…) Todos os filmes de terror tu escreveste com amor”.
À Folha Universal, o Ministério da Educação (MEC) informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que “a obra A Máquina de Brincar não foi adquirida em nenhuma edição dos Programas do Livro do MEC/FNDE”.
Apesar disso, em anos anteriores, o livro teria sido distribuído em algumas escolas de ensino fundamental. Em 2014, por exemplo, uma mãe viu o material indicado à sua filha, publicou fotos dele em sua rede social e criticou a obra. Sua indignação teve 76 mil compartilhamentos e mais de 22 mil curtidas.
Luciara Barbaresco (foto ao lado), mãe de João Pedro, de 3 anos, também ficou indignada com o livro que ainda pode chegar às mãos de seu filho. “Sabemos claramente a veracidade do caminho do bem e do mal. Um livro que brinca com o nome de Deus não é adequado”, comenta.
Ela destaca que, se for comprovado que o livro está em alguma escola, o ideal seria retirá-lo de circulação, já que não há nele cunho pedagógico. “As crianças podem crescer com medo, isoladas e rebeldes, achando que a maldade é algo natural. Não quero chegar em casa e me deparar com meu filho dizendo que aprendeu na escola que o diabo é o seu melhor amigo e que Deus não existe”, desabafa.
Longe das crianças
Por causa dessa preocupação, no início de março, o vereador Rogério Cruz (PRB) apresentou na Câmara dos Vereadores de Goiânia (GO) uma nota de repúdio ao livro A Máquina de Brincar e um requerimento ao MEC assinado por 35 vereadores.
Ele afirma que o conteúdo aterroriza as crianças. “Metade do livro tem páginas brancas com letras e desenhos coloridos e fala de coisas boas. A outra metade traz poemas impressos em papel pintado de preto, com letras em vermelho-sangue, onde fala de bruxas, fantasmas, castelos em ruínas, seres esquisitos e faz um verdadeiro culto a satanás e, ao mesmo tempo, debocha de Deus”, compara.
Apesar de o livro não estar sendo distribuído nas escolas de Goiânia, mães e professores ficaram preocupados. O vereador ressalta que essa apreensão procede já que, em anos anteriores, algumas escolas adotaram uma cartilha editada pelo MEC que apresentava feitiçaria às crianças. “Ela contava a história de um bebê que matava sua família com uma faca. Continha um diadema com chifres, um chapéu de bruxa com peruca e unhas de mentira e cálice de caveira, os quais a professora deveria usar ao ler as histórias de terror”, diz.
Na mesma semana, o vereador Sidney Oliveira (PRB), de Vitória da Conquista (BA), também apresentou uma moção de repúdio ao MEC. Felizmente, de acordo com ele, a publicação não será disponibilizada na rede de ensino da cidade. “O secretário municipal de Educação, Marcelo Melo, me garantiu que não iria permitir a distribuição desse livro. Ele disse que o município não vai autorizar a entrada dele e, caso tenha sido feita alguma solicitação para isso, ela será cancelada”, enfatiza.
Desenvolvimento prejudicado
É importante lembrar que é assegurado a crianças e adolescentes o direito ao seu desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Por isso, deve-se observar, antes de disponibilizar livros desse tipo, as crenças e os valores seguidos pela criança e sua família.
Além disso, é na infância que os pequenos começam a formular a própria opinião sobre princípios morais e caráter. Sendo assim, a literatura a ser-lhes oferecida deve se basear em mensagens que transmitam lições de fé, amor, honestidade, perdão, amizade e solidariedade. “Temos que ensinar para nossas crianças uma cultura que traz palavras para um mundo melhor. O que queremos para elas é uma cultura construtiva e não de ilusão”, destaca a pedagoga Lorena Souza Beze.
De acordo com ela, livros como A Máquina de Brincar afetam o progresso da criança. “Podem produzir medo, ansiedade, insônia, fobia e traumas mentais, pois trazem palavras negativas”, avisa.
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