O sofrimento silencioso da juventude
Como lidar com a realidade das novas gerações, que são marcadas pelo isolamento social?
O avanço da tecnologia trouxe uma conectividade instantânea, mas também gerou um entrave: adolescentes hiperconectados estão se sentindo profundamente sozinhos em seus quartos. De acordo com a Fiocruz, as taxas de autolesão entre jovens de 10 a 24 anos aumentaram 29% ao ano no Brasil entre 2011 e 2022. Pressionados por cobranças por desempenho constante na era digital, muitos enfrentam dores emocionais graves sem amparo.
Um estudo recente das Universidades Federais de São Paulo e de Sergipe, publicado na Revista da Escola de Enfermagem da USP, analisou relatos de 12 adolescentes. Os depoimentos revelaram um padrão: tentativas de suicídio na adolescência expõem a falta de escuta, suporte e pertencimento, ligando-se diretamente a ciclos de violência e negligência emocional que começam na infância e pioram na escola com isolamento e bullying.
Valorize o diálogo sem julgamento
Diante do crescimento de casos de ansiedade, solidão e automutilação, percebe-se que as dores mais intensas avançam pela ausência de diálogo em casa, nos colégios e nos círculos sociais.
Em entrevista à Folha Universal, a psicóloga e doutora em Psicanálise Carolina Nassau Ribeiro, autora do livro Suicídio na Adolescência: Uma Abordagem Psicanalítica (Editora Juruá), ressalta que o sofrimento não é invisível por falta de aviso dos jovens, mas, sim, por falta de abertura dos adultos para acolhê-los. “O adolescente quase sempre avisa. O problema não é falta de aviso, é falta de escuta”, diz ela.
Segundo Carolina, que atuou no setor público com jovens em vulnerabilidade e no Hospital João XXIII, referência no atendimento a tentativas de autoextermínio, a intervenção eficaz começa antes que o pior aconteça. “Criar esse espaço não é ter a conversa perfeita, é estar disponível antes de precisar, suportar o silêncio sem preencher e não saltar para o conselho ou a bronca na primeira frase. Num mundo que não tolera espera, dar ao filho o tempo de ser ouvido já é a intervenção”, explica. Quando a comunicação é baseada na repressão, o isolamento ganha força.
“Quando a gente escuta só para corrigir, o filho aprende a não falar”, alerta.
Avalie a qualidade dos laços familiares
Muitas famílias acreditam que a estrutura doméstica determina a estabilidade do jovem, mas a realidade aponta para a qualidade dos vínculos diários. “O que protege ou desprotege um adolescente não é o formato da família, é a qualidade do laço”, pontua a psicóloga.
A falta de troca afetiva real é o maior risco. “Atendo jovens que moram com os pais e conversam com eles por WhatsApp dentro da mesma casa. É essa pobreza de troca afetiva que é perigosa, e ela acontece em qualquer arranjo. Fortalecer o vínculo é garantir pelo menos um adulto de referência com quem o jovem possa falar sem ser julgado.”
Conheça a criança ou o adolescente
A busca por sinais explícitos de problemas pode afastar os pais da verdadeira percepção sobre os filhos. Carolina Nassau orienta a deixar de lado as fórmulas prontas. “Prefiro tirar o peso da ideia de lista de sinais, porque vira checklist que não resolve o principal problema das famílias atuais, que é entender como funciona cada um de seus filhos. O sentimento de invisibilidade dos jovens é muito preocupante nessa faixa etária. Por isso o sinal mais importante quase nunca é dramático: é a criança que muda e ninguém repara, a que para de pedir e de incomodar. A pergunta não é ‘que sinal procurar’, é ‘estou disponível o suficiente para perceber o meu filho e localizar quando algo muda?'”, ensina.
Como a sociedade pode ajudar
As escolas e as redes de apoio têm papel fundamental no combate ao sofrimento da juventude. “É importante que a escola tenha um profissional de referência a quem o jovem consiga se dirigir e buscar ajuda. Na prática, ajuda levar a sério qualquer manifestação de sofrimento, sem ironia e sem o mito de que ‘quem fala não faz'”, alerta Carolina. “Acolher não é cumprir protocolo para se livrar do caso, é sustentar uma escuta calma quando o aluno abre uma brecha e, quando for o caso, fazer os encaminhamentos e intervir junto aos pais.” O apoio comunitário, unindo amigos e a família ampliada, é um poderoso fator de proteção.
A psicóloga enfatiza que o manejo de uma crise exige união e serenidade: “Ninguém deveria sustentar um caso de risco sozinho. E a pressa pode ser fatal: diante de um jovem em crise, a resposta vai na contramão da pressa, é possibilitar, por meio de uma escuta cuidadosa, que o jovem encontre outras possibilidades que não a extinção da própria vida”, conclui.
Quer desabafar? Busque o Projeto Help
Como resposta urgente à realidade de solidão e sofrimento mental que atinge a juventude, o Projeto Help desenvolve um trabalho de apoio emocional e prevenção ao suicídio com o lema “Não te julgo, te ajudo”. Sabendo que muitos jovens escondem suas dores por medo do julgamento, a iniciativa oferece escuta ativa, livre de preconceitos, e cria canais de diálogo acessíveis para quem se sente invisível. O objetivo é romper o silêncio e mostrar aos adolescentes que eles não estão sozinhos e que há caminhos para superar o sofrimento. Para saber mais, acesse o perfil oficial no Instagram @help.fju.
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