O mito da mulher perfeita e o custo invisível da eterna insatisfação
Vivemos em uma época em que liberdade, autonomia e empoderamento feminino estão entre os assuntos mais comentados. Por outro lado, nunca houve tanta pressão para que as mulheres correspondam a um ideal impossível de ser alcançado: a perfeição.
Um sem-fim de cuidados voltados a uma beleza impecável – do alto da cabeça à planta dos pés – se soma às cobranças por sucesso profissional, equilíbrio emocional, vida financeira exemplar e, claro, demonstrações constantes de felicidade. Tudo isso forma um conjunto de exigências silenciosas, por mais que se diga o contrário.
Esse ideal inatingível não nasce da realidade, mas da comparação. Ele é fabricado diariamente por um sistema que se alimenta da insatisfação e que encontra nas redes sociais um terreno fértil para prosperar. Quando a comparação se torna o principal critério de valor, nenhuma conquista parece suficiente, nenhum corpo é adequado e ninguém alcança o nível esperado, até porque essa régua nunca para de subir.
Ao longo de mais de 15 anos atuando como educadora financeira, observei um padrão recorrente: decisões econômicas equivocadas raramente nascem da ignorância, mas de emoções mal administradas. Gastos excessivos, endividamento e frustração financeira estão frequentemente ligados à tentativa de sustentar uma imagem irreal, a atender expectativas externas – muitas vezes de pessoas sem qualquer relevância – ou preencher vazios emocionais.
Foi justamente dessa constatação que surgiu Economia Emocional (Ed. United Press), meu sexto livro. Nele, parto de uma reflexão simples, porém incômoda: a mulher perfeita não existe, mas o custo de tentar alcançar esse alvo impossível é real – e muito alto. Ele se manifesta na saúde emocional, nos relacionamentos, na espiritualidade e, inevitavelmente, nas finanças.
Dados recentes ajudam a ilustrar o quanto essa equação é desequilibrada. Uma pesquisa realizada pelo Todas Group em parceria com a Nexus ouviu mulheres em cargos de liderança para identificar do que precisaram abrir mão para crescer profissionalmente.
Segundo o levantamento, 71% afirmaram ter sacrificado o autocuidado, 52% admitiram negligenciar a saúde mental, 50% reduziram drasticamente o tempo com a família, 33% renunciaram à vida social e ao lazer, 24% adiaram ou desistiram da maternidade, 14% abriram mão de relacionamentos afetivos e outros 14% têm colocado a estabilidade financeira em risco. Os números confirmam que a conta de viver como se não trabalhasse fora e trabalhar fora como se não tivesse vida própria simplesmente não fecha.
Entender como esse sistema se instala e cria uma espécie de roda dos ratos é simples: mulheres insatisfeitas consomem muito mais. Já aquelas que estão bem consigo mesmas não lotam shopping centers, salões de beleza nem clínicas de estética.
Um ciclo vicioso que se retroalimenta
A insatisfação constante é o motor desse ciclo de consumo que opera em alta velocidade. Para que ele continue girando, os padrões precisam mudar o tempo todo. Assim, quando muitas mulheres já gastaram o que tinham – e o que não tinham – para tentar se adequar, os padrões se alteram e a sensação de inadequação permanece.
Isso não significa rejeitar os avanços da estética, abandonar o autocuidado ou abrir mão de qualquer ambição. O problema começa quando a vida passa a ser tratada como vitrine e não como propósito. Nesse contexto, as redes sociais desempenham um papel central. Elas não são o problema em si, mas é inegável o número de mulheres que se esquecem de que o que se publica ali não passa de recortes cuidadosamente selecionados de uma vida que, na maioria das vezes, não corresponde à realidade.
Romper com esse ciclo exige maturidade emocional e escolhas conscientes. É preciso lembrar que a prosperidade verdadeira não nasce da aparência, mas da coerência entre valores, decisões e possibilidades reais. Enquanto a busca for por aprovação externa, o preço será sempre alto demais.
A mulher perfeita é um mito moderno. E mitos, por mais sedutores que sejam, nunca constroem vidas equilibradas.
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