Terminei o culto e recebi a notícia: nosso filho havia morrido
É possível permanecer firme quando aquilo em que você acredita é colocado à prova? O Bispo Honorilton Gonçalves e sua esposa, Rosana, revelam como viram a fé que professam ser provada como nunca antes
“Era domingo, 24 de outubro de 1999. Eu havia acabado de realizar a reunião das 10h na Universal da Lapa, em São Paulo, quando um pastor se aproximou e me deu a notícia: nosso filho havia morrido.”
Após perderem o filho de 13 anos, o Bispo Honorilton Gonçalves, responsável pelo trabalho evangelístico da Universal no Rio de Janeiro, e sua esposa, Rosana, aprenderam, sustentados pelo Espírito Santo e pela Palavra de Deus, a olhar para essa perda pela perspectiva da fé.
Quem era o nosso filho

Rosana: O Jonatas era nosso segundo filho. Sempre foi um menino tranquilo, de boa convivência. Nas mudanças e nas viagens missionárias, tinha disposição e alegria de se adaptar, mesmo que, por causa disso, não pudesse manter os amigos por muito tempo. Nunca foi contra o que os pais faziam, que era servir a Deus. Era carinhoso, gostava de ficar perto de nós e de nos encher de beijos.
Bispo Gonçalves: Ele e a irmã estavam sempre juntos, bem unidos. Ele era uma criança ativa, feliz e que nos acompanhava no caminho da fé.
Quando a luta começou

Rosana: Em 1º de janeiro de 1998, após a Vigília da Virada, vimos que Jonatas estava com os olhos amarelados. Os exames confirmaram hepatite autoimune. O tratamento seguiu por todo o ano e também em 1999. Os médicos diziam que ele poderia morrer, mas permanecíamos na fé, fazendo votos a Deus e levando-o às correntes de cura. Ainda assim, ele foi perdendo as forças. Isso despertava medo, mas eu continuava crendo.
A última reunião
Rosana: Mesmo debilitado, ele seguia com suas atividades. No sábado, 23 de outubro de 1999, participou de uma reunião na Catedral da Universal, na João Dias, voltada aos filhos de pastores que desejavam se entregar a Deus. Ao subir ao Altar, caiu. Na reunião, entregou o que o afastava das coisas de Deus. Depois, voltou para casa, passou mal e desmaiou. Nós o levamos ao hospital, onde passamos a noite. O Bispo Macedo foi até lá e orou por ele.
Bispo Gonçalves: O estado de saúde dele era grave, e sabíamos que ele poderia falecer a qualquer momento. Enquanto a Rosana permaneceu no hospital, eu fui com nossa filha mais velha à Igreja para realizar a reunião de domingo pela manhã.
A notícia depois da reunião
Rosana: Era por volta das 11h da manhã de domingo. Eu estava na sala de espera do hospital, ouvindo a transmissão da reunião que o Bispo Macedo fazia na João Dias, quando o médico me chamou e disse que meu filho tinha acabado de falecer. Foi um susto. Era uma notícia que eu jamais gostaria de receber. A gente fica anestesiada, sem querer acreditar que aquilo aconteceu. Sozinha, eu precisava comunicar aquilo e liguei para a igreja. O Gonçalves ainda estava na reunião. Um pastor atendeu, dei a notícia e pedi que o avisasse.
Bispo Gonçalves: Quando a reunião terminou, recebi a notícia. Depois, liguei para a Rosana e fui ao hospital, encontrá-la. Ela precisava de força, e eu tinha que ser mais forte para que ela pudesse receber meu apoio. Era uma dor muito profunda, difícil de entender naquele momento. Mas, pela nossa fé no Senhor Jesus, sabíamos que não estávamos sozinhos.
Amparados pela fé

Rosana: O Bispo Macedo nos acompanhou no hospital e nos primeiros dias após a perda. Ele falava da fé e da salvação do nosso filho, e aquilo nos confortava.
Bispo Gonçalves: Em casa, as pessoas tentavam nos consolar, mas aumentavam a nossa dor. O Bispo nos trouxe de volta à fé.
Rosana: Às vezes, eu estava calma, mas voltava a chorar quando alguém chegava para me consolar. Quando percebeu isso, o Bispo me disse: “Minha filha, vamos fazer desse limão uma limonada?”, e falou sobre ajudar outras pessoas. Naquele mesmo domingo da morte, nos convidou para uma reunião no Rio de Janeiro, de onde retornamos no dia seguinte para o velório e o sepultamento. Ele queria nos tirar daquele ambiente. Voltamos ao Rio após o sepultamento e ficamos até a vigília, em 29 de outubro. Em 2 de novembro, fomos à rádio com o Bispo. Ainda assimilávamos a perda, mas falávamos publicamente sobre ela.
Bispo Gonçalves: Em um culto, ele me passou o microfone. Não lembro exatamente do que falei, mas até hoje encontramos pessoas que dizem ter sido ajudadas por aquilo que compartilhamos ali e, depois, na vigília do Maracanã.
A fé não impediu o choro

Rosana: As primeiras semanas não foram fáceis. Não foi como se tivéssemos esquecido e tudo tivesse passado. Eu chorava, muitas vezes sozinha e, às vezes, na frente das pessoas. Era uma luta diária contra os sentimentos e os pensamentos. Em muitos momentos, não tinha palavras para orar e só conseguia dizer: “Meu Deus”. Sabíamos que teríamos que aprender a viver com aquilo. Então, a cada dia, nos apegávamos mais à Palavra de Deus e nela encontrávamos força para continuar.
Bispo Gonçalves: Continuei com as minhas atividades pastorais, e, quando surgiam os questionamentos, lembrávamos do que estava escrito na Palavra e da salvação do nosso filho. Sentíamos sua falta, e ver a Aline sem o irmão também nos fazia lembrar dessa ausência. Continuamos na mesma casa, aprendendo a conviver com a falta de tudo o que vivíamos juntos.
O Espírito Santo, nosso Consolador

Rosana: Lembro-me de uma senhora que me disse que eu era muito forte. Eu tinha perdido o Jonatas cerca de um mês antes. Ela havia perdido a filha quatro anos antes, mantinha o quarto dela intacto e dizia que tinha morrido junto com ela. Tinha formação e trabalho, mas não conseguia seguir em frente. Falei sobre a força que eu também estava recebendo naquele momento, que vinha do Espírito Santo. Disse que ela poderia buscar essa mesma força e entregar tudo a Ele. Deus foi colocando pessoas no nosso caminho e, assim, entendemos que os momentos difíceis sempre têm um propósito. Ali, em meio à dor, Deus nos usou para que pudéssemos ajudar outras pessoas.
Sem o Espírito Santo, não teríamos suportado. Teríamos afundado, desistido ou seguido outro caminho. Ele é a nossa fortaleza. Foi Ele quem colocou dentro de nós a certeza de que nosso filho está salvo e o conforto de que um dia estaremos no mesmo lugar em que ele está.
Bispo Gonçalves: Sempre ensinamos as pessoas a confiar em Deus, mas naquele momento chegou a nossa vez de demonstrar essa confiança diante de uma dor tão profunda. A nossa fé estava sendo colocada à prova: nós realmente críamos no que pregávamos? Foi quando compreendemos, na prática, o que significa permanecer firme. Nós escolhemos nos apoiar na Palavra de Deus e nas promessas que nos sustentavam a cada dia.
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Rosana: Aquela dor nos uniu ainda mais, inclusive no casamento, para servirmos a Deus, e compreendermos melhor as pessoas que passam pela mesma situação. A cura que esperávamos do nosso filho não aconteceu, mas considero um milagre permanecermos firmes, servindo a Deus. Hoje, falamos dele com alegria, pela certeza que temos de que ele está com o nosso Pai.
A quem está vivendo o luto, eu digo: entregue a Deus a sua dor e os seus sentimentos. Creio que Ele nos ouve e nos dá força quando O invocamos. Depois da morte do meu filho, aprendi a olhar para o Alto como nunca antes, buscando em Deus o socorro para seguir em frente e continuar servindo ao Senhor Jesus até o fim.
As palavras que nos sustentaram
Rosana: Isaías 43 me marcou muito, porque eu me lembrava das águas, do fogo e da promessa de que Deus estaria comigo. Pensava que passaria por tudo aquilo sem afundar, porque Ele me sustentava. Até hoje lembro dessa palavra quando converso com quem sofre:
“Mas agora, assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu. Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti” (Isaías 43:1-2).Bispo Gonçalves: Sempre me lembro do que Deus falou com Josué depois da morte de Moisés, para que se levantasse e conduzisse o povo. Aquilo me lembra de que temos uma missão e precisamos seguir em frente: “E sucedeu depois da morte de Moisés, servo do Senhor, que o Senhor falou a Josué, filho de Num, servo de Moisés, dizendo: Moisés, meu servo, é morto; levanta-te, pois, agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel. Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado, como eu disse a Moisés” (Josué 1:1-3).
Para quem perdeu um filho

“Você que perdeu um filho e não consegue se recuperar da perda; esqueceu de viver e se entregou ao luto e à tristeza, tem todo o meu respeito e compreensão. Poucas dores são tão difíceis quanto a de um pai ou de uma mãe que precisa enterrar um filho.
Porém, chegará um momento em que você terá de pensar. Enquanto chora, sofre e se arrasta em cinzas, você está desperdiçando o que seu filho ou filha mais amava e perdeu: a vida.
A melhor forma de você lidar com essa dor é decidir não desperdiçar o que seu filho perdeu. Viva uma vida que honre a memória dele.”
Bispo Renato Cardoso
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