Você se compara com os outros?
Veja quais os limites saudáveis dessa prática
Que o aprendizado humano ocorre por imitação e que nós nos espelhamos nos outros é fato. Por isso, é quase inevitável que as pessoas acabem se comparando umas com as outras. Os pais, por exemplo, usam esse artifício com os filhos para instigá-los a aprender e evoluir. Na vida adulta, as comparações também acontecem: vemos modelos de vida, de trabalho, de valores e de estética com os quais, muitas vezes, nos identificamos e tentamos segui-los. Contudo até que ponto agir dessa forma é saudável e que consequências podem ocorrer se essa prática estiver equivocada?
Para o psicanalista Gregor Osipoff, de 51 anos, a comparação é uma questão cultural humana. “Trata-se de um hábito muito saudável.
Nós nos comparamos para viver em sociedade, nos comparamos com a cultura anterior, com outras culturas e com os nossos pais.
Quando você se compara com alguém que você encontra, que acha que é importante, é positivo, porque é uma referência que você tem dentro do seu universo. A comparação nos ajuda a entender o quanto nós precisamos nos desenvolver para chegar naquele lugar”, avalia.
Contudo, entre pais e filhos, ela pode ser usada de maneira errada: “quando os pais dizem constantemente coisas como ‘fulano faz isso, você não faz’, isso vai fazendo com que a criança também perca a vontade de querer mostrar a eles e para a sociedade o quanto ela está se desenvolvendo. Muitas vezes, ela se fecha e não quer desenvolver mais nada porque entende que não é tão boa. Isso não deixa de ser quase um bullying familiar. É uma forma de educação antiga que já não usamos mais porque os efeitos realísticos não são positivos para o desenvolvimento da criança”, analisa.
Para ele, muitos adultos também esquecem que foram crianças e fazem comparações muito duras por acharem que isso é um tipo de motivação. “Quando a comparação é muito distante da própria realidade, a frustração pode surgir. Isso acontece muito hoje nas redes sociais porque as pessoas só mostram o seu melhor. Contudo é um recorte da vida, algo que foi produzido, mas a vida é muito mais do que esse recorte. Nós vivemos 24 horas por dia e, às vezes, uma imagem justifica o imaginário de quem vê, mas não é a realidade, é uma ilusão”, dispara.
Para Gregor, outro problema é quando queremos ser o outro ou quando os pais querem que os filhos sejam outras pessoas ou que realizem sonhos que são deles. “Somos seres que vivemos de comparação e referência para que nós nos envolvamos até na questão religiosa, emocional e outras mais. Então, assistimos a filmes e nos baseamos, nos comparamos e pensamos ‘e se fôssemos nós que estivéssemos lá?’ Tudo isso faz parte, mas o problema é quando se usa essa comparação pensando em ser o outro. Aí é uma distorção da vida real e não tem como dar certo”, opina.
Segundo Gregor, as comparações têm que inspirar, em vez de destruir a autoestima. “Elas são ligadas ao dia a dia, são formas de comparação que são usadas para mostrar não o lugar que você deve chegar, mas onde você está e como você é. Podem ser comparações estéticas, emocionais, sociais, de conquista, de dinheiro. Quando usamos exemplos de inspiração, colocando pessoas como referências, temos a noção da situação e da forma que estamos naquele momento”, explica.
Ele aconselha que as pessoas busquem entender aonde querem chegar. “Entenda que há um processo para chegar nesse lugar, que isso depende do seu esforço e que ninguém é igual a ninguém. Trabalhe o seu emocional para não passar suas frustrações para as crianças. Podemos nos comparar com alguém, mas a vida dela, às vezes, tem outras nuances que não temos na nossa. É preciso flexibilizar um pouco mais essa comparação. Se esforce, lute pelo que você quer e perceba que, muitas vezes, você pode mudar até essa comparação e entender que cada um tem o seu caminho”, conclui.
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