Violência Doméstica: como romper o ciclo?

Metade dos brasileiros conhece uma mulher que já foi agredida pelo parceiro ou ex, mas só uma em cada cinco vítimas denuncia a agressão

Uma conversa com a voz alterada, dias depois um empurrão e, mais adiante, um tapa. É seguindo uma tendência de crescimento como essa que a violência doméstica acontece dentro dos lares. As situações de desrespeito começam de forma sutil e terminam com agressões ou até mesmo a morte. É triste encarar os índices brasileiros, mas é preciso ter consciência de que viver em um ambiente hostil não é normal, apesar de muito comum, de acordo com os dados.

Uma pesquisa feita em outubro pelo Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec) em conjunto com o Instituto Patrícia Galvão e o Instituto Beja revelou que 50% das pessoas entrevistadas relataram conhecer uma mulher que viveu ou vive em situação de agressão praticada pelo atual ou antigo parceiro. Entre as 800 mulheres entrevistas, 36% confirmaram ter vivenciado na pele algum tipo de violência.

Diferentemente do que muitos pensam, a agressão física não é o único ato considerado violação dos direitos humanos. Estão previstos na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial.

A agressão física é toda a ação que coloca em risco a integridade ou saúde do corpo da mulher, como bater, atirar objetos, sacudir, sufocar ou mesmo torturar. Já a violência psicológica não é visível, mas causa dano emocional e tende a diminuir a autoestima, como ameaças, humilhação, manipulação, chantagem e vigilância constante. Com relação à violência sexual, muitos pensam que se resume ao estupro, mas a categoria inclui o impedimento de usar algum método contraceptivo ou a realização forçada de um aborto, além do ato de obrigar a mulher a praticar atos sexuais que causem a ela desconforto ou repulsa.

Já a violência moral é caracterizada por conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. Por fim, na violência patrimonial, o agressor controla o dinheiro da vítima, deixa de pagar a pensão, destrói documentos pessoais ou ainda pratica estelionato.

Impactos em toda a família
Traumas psicólogicos e, por vezes, sequelas físicas são os resquícios de um relacionamento abusivo. Além dos problemas causados à mulher, a psicóloga Joana D’Arc Sakai destaca que os filhos também sofrem com a situação e quando chegam à fase adulta podem replicar o que viram.

“O ambiente familiar é o primeiro contato que a criança tem com o mundo, ou seja, a consciência de mundo e de sociedade vem desse primeiro contato. Se, nessa dinâmica familiar, marido e mulher se relacionam de um modo agressivo, todos ficam envolvidos no sentido do trauma psicológico”, explica.

Entre as consequências visíveis dessa situação ela cita “concentração alterada, dificuldade de aprendizado e até mesmo falta de foco, pois tudo remete à condição de dor e sofrimento”.

Dependência emocional
Apesar dos sinais de um relacionamento abusivo serem claros e causarem inúmeros danos, a grande maioria das vítimas não consegue sair dessa situação. Ainda de acordo com o estudo do Ipec, das mulheres entrevistadas que sofreram algum tipo de violência doméstica, apenas 55% tomaram uma atitude com relação às agressões e terminaram o relacionamento. Contudo, apenas uma em cada cinco formalizou uma denúncia aos órgãos de segurança ou compartilhou a situação com amigos ou familiares.

“Quase sempre a mulher está se sentindo tão culpada e envergonhada pelo que está passando que não denuncia”, diz a psicóloga. Esse silêncio e as contínuas chances que são dadas ao agressor com a promessa de que ele vai mudar são os principais erros que, a longo prazo, acabam colocando em risco a vida da mulher.

Segundo a psicóloga, muitas vítimas, fragilizadas internamente, tornam-se dependentes do agressor, tanto financeira como emocionalmente. “Sem uma rede de apoio, cheia do sentimento de culpa e com a crença de que os filhos sofreriam mais com a ausência do pai, a mulher mantém o relacionamento. Isso vai se tornando uma teia sufocante, difícil de ser desfeita”, diz Joana D’Arc.

Outra justificativa que muitas vítimas usam para manter o relacionamento mesmo em meio às instabilidades é que o companheiro não é agressivo sempre ou que a convivência nem todo dia é marcada por brigas e agressões. Contudo, essa é justamente uma das características de um relacionamento abusivo.

Segundo a psicóloga norte-americana Lenore Walker, o ciclo de um relacionamento abusivo tem três fases que se repetem: aumento da tensão, ato de violência e arrependimento.

Rompendo o silêncio
Joana D’Arc esclarece que para sair de um relacionamento desse tipo é preciso ter uma rede de apoio, ou seja, ter amigos e familiares próximos para encontrar abrigo inicial. Contudo, sair de casa não é suficiente e a denúncia é essencial para que o agressor seja responsabilizado ou até mesmo se mantenha distante da vítima: “com o advento da Lei Maria da Penha tudo isso se tornou relativamente facilitado, pois as medidas protetivas ajudam muito para fazer com que o afastamento físico aconteça”. Por isso, se você sofre violência ou conhece alguma vítima, tome uma atitude: denuncie o agressor e ajude a romper esse ciclo.

Denuncie

Ligue 180: o número recebe queixas e oferece informações sobre a rede de atendimento, direitos e acolhimento à mulher. Ele está ligado ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Funciona 24 horas por dia e a ligação é gratuita e confidencial.

Busque a polícia: diante de uma situação de violência é possível registrar um boletim de ocorrência em uma delegacia de polícia, preferencialmente nas Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (DEAM).

Disque 190: em caso de emergência, o 190 aciona a Polícia Militar instantaneamente. O telefone é gratuito e funciona 24 horas por dia.

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Autor

Cinthia Cardoso / Foto: Getty Images