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Notícias | 20 de maio de 2018 - 03:05


Vídeos para crianças na Internet podem esconder publicidade

Presença dos pequenos no mundo digital atrai empresas interessadas em divulgar produtos de forma camuflada. Veja como controlar os apelos ao consumismo

Assistir a vídeos na internet faz parte do dia a dia de milhões de crianças brasileiras. Desenhos animados, paródias, pegadinhas, vídeos sobre jogos e canais de divulgação de brinquedos estão entre os preferidos dos pequenos. Cerca de metade dos 100 canais brasileiros com mais visualizações no YouTube são produzidos para crianças de 0 a 12 anos, segundo o ESPM Media Lab. Hoje, oito em cada dez crianças e adolescentes com idades entre 9 e 17 anos usam Internet no Brasil, o que corresponde a 24,3 milhões de usuários, segundo pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).

Com a presença cada vez maior de crianças na Internet, muitas empresas estão aproveitando o mundo online para divulgar produtos e estimular o consumismo de maneira camuflada. O alerta é da advogada Livia Cattaruzzi, do Programa Criança e Consumo, do Instituto Alana. “O aumento da audiência dos canais voltados para crianças chamou a atenção do mercado. Assim, as empresas fazem publicidade velada e abusiva, convencendo as crianças a desejar e a consumir os produtos divulgados nos vídeos”.

A advogada destaca que essa é uma forma das organizações burlarem as leis brasileiras. “A publicidade direcionada à criança no Brasil é proibida devido a uma interpretação sistemática entre a Constituição, o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Resolução 163 de 2014 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente”, avalia.

Livia lembra que a publicidade infantil explora a fragilidade das crianças para tentar vender produtos. “As crianças não conseguem diferenciar publicidade de conteúdo até os 12 anos de idade por estarem em fase de desenvolvimento físico e psíquico. Elas confiam nesses vídeos”, alerta.

Youtubers e publicidade

Em fevereiro deste ano, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) puniu o vídeo de dois irmãos youtubers porque o conteúdo não deixava claro que era um anúncio publicitário. No vídeo, eles divulgavam um número de telefone para os seguidores ligarem e participarem de um sorteio. Já em novembro de 2017, o Conar determinou a alteração de uma série de vídeos de uma jovem youtuber que continha desafios ao público e divulgava bonecas sem deixar claro o patrocínio feito por uma grande marca.

“Os youtubers têm sido usados como intermediários. As marcas enxergam esses youtubers como facilitadores da publicidade direcionada a crianças devido à proximidade que eles criam com as crianças expectadoras. Acaba sendo mais efetivo usar um canal de YouTube em vez de um comercial na TV”, acrescenta a advogada.

Segundo ela, outros problemas identificados pelo Instituto Alana no uso de plataformas de vídeos são a exposição de crianças a conteúdos impróprios para a faixa etária e a publicidade direcionada a adultos que pode aparecer entre os vídeos infantis, incluindo até a divulgação de bebidas alcoólicas.

O que fazer?

Em meio aos apelos oferecidos na Internet, como evitar os possíveis riscos aos pequenos? Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o caminho inclui bom senso, informação adequada e muito diálogo. Os pais devem controlar o acesso às tecnologias digitais de acordo com a idade dos filhos, evitando o uso de telas até os dois anos de idade. Eles ainda precisam equilibrar os períodos que a criança passa na Internet com atividades esportivas, brincadeiras, exercícios ao ar livre ou em contato direto com a natureza.

O especialista em comportamento digital Thiago Valadares explica que os pais precisam observar também o próprio comportamento nas redes. “Muitos pais não estão preparados para orientar os filhos nesse mundo conectado e cheio de ferramentas. É importante debater quais seriam as boas práticas para o uso da Internet e os limites”, diz, acrescentando que não adianta o adulto passar várias horas no celular e proibir as crianças de acessar a Internet. Dar bons exemplos é fundamental.


  • Por Rê Campbell/ Foto: Fotolia  



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