O lado sombrio do clique: quando a crueldade vira entretenimento

A morte do cachorro Orelha revela uma face horrível da internet que atinge crianças e adolescentes

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O cenário era a Praia Brava, em Florianópolis (SC), um reduto de águas claras e de tranquilidade. No início de janeiro, porém, o contraste foi brutal. Orelha, um cão comunitário dócil e cuidado por moradores locais, foi encontrado agonizando. O diagnóstico pós-morte revelou uma sucessão de agressões que não deixam dúvidas: houve tortura. O que choca não é apenas a brutalidade do ato, mas quem segura a ferramenta da maldade. A investigação policial aponta para a participação de adolescentes e o caso de Orelha abriu a tampa de um bueiro digital que a sociedade brasileira ainda não conhece bem.

Não se trata de um incidente isolado de “rebeldia”. O caso Orelha é um exemplo de uma tendência sombria chamada “zoosadismo”, que é a prática de maus-tratos contra animais com o intuito de obter entretenimento. Nas frestas da internet, em comunidades fechadas e fóruns sombrios abertos a qualquer um, a violência contra animais não é um crime a ser escondido, mas um troféu a ser exibido. Crianças e jovens estão filmando, editando e compartilhando o sofrimento de animais em troca de likes, status e pertencimento a grupos que fazem da psicopatia um esporte de espectador.

A raiz do problema

Para entender o que leva um jovem a trocar a empatia pelo clique da violência, é preciso olhar para o que acontece dentro de casa e nas telas. Para o Pastor Walber Barboza, responsável nacional pelo Força Teen Universal (FTU), grupo que é voltado a adolescentes, o começo dessa crise pode ser percebido nos fundamentos familiares: “A grande preocupação das famílias deveria ser o trabalho de construir nos filhos uma consciência de valores. A família precisa construir uma mentalidade de respeito. Então está faltando muito a base na nossa sociedade”.

Ele aponta que, quando uma pessoa se identifica com o mal que está na internet, ela está se conectando com o que ela já tem dentro de si mesma. “Os pais têm autoridade sobre o filho para ensinar o que é certo e o que é errado. A índole depende dos valores em que essa pessoa cresceu. Isso vai se refletir na adolescência”, observa.

O que acontece na internet

Nessa nova economia da atenção gerada pelas redes sociais, o choque é a moeda mais valiosa porque “prende” o espectador à tela. O conselheiro tutelar Lucas Fernando Bertolassi explica que o jovem, nos dias de hoje, vive sob uma pressão invisível imposta por essa realidade.

Ele atua na ponta desse processo com os mais diversos casos legais e administrativos envolvendo crianças e adolescentes e, portanto, conhece essa realidade de perto. Um conselheiro tutelar é um agente público municipal responsável, basicamente, por trabalhar com denúncias de
maus-tratos contra essa faixa etária, acionar serviços do Estado relacionados com o tema e acompanhar a situação dos atendidos.

“O mundo virtual em que a criança ou o adolescente mergulha de cabeça é um perigo gigante. Eles criam, ali, uma realidade paralela onde são aceitos, onde são bem-vindos. Então, pouco a pouco, eles terão como referência o que está na internet. E, com isso, o que é falado ali se torna ‘lei’. Disso, surgem esses ‘desafios’”, avalia Lucas.

Como consequência, os valores que deveriam vir por meio da família desde a primeira idade, como apontou o Pastor Walber, acabam sendo buscados fora dela e em “si mesmo”, como complementa Lucas.

A violência contra animais se espalha na internet por meio de vídeos de maus-tratos publicados em fóruns que são acessados por jovens

O que notar

Em meados de 2017, o chamado Desafio da Baleia Azul, que propunha uma lista de tarefas sinistras para adolescentes e jovens pela internet, começou na Rússia e logo chegou ao Brasil. Lucas relembra que, na época, era professor e pôde presenciar como aquilo reverberou entre os jovens. Por isso, ele destaca que é importante que os pais compreendam o cenário em que as crianças e os adolescentes estão inseridos. Talvez aquele jovem quietinho com o celular na mão no quarto de casa esteja acessando um submundo e a família não sabe. “A lacuna que os pais, os avós, os tios não se preocupam em preencher, o adulto que é má influência se preocupa com cada detalhe para ir atrás dos jovens, no jeito de se comunicar e com o que oferecer a ele”, alerta Lucas. Desse modo, a tecnologia amplifica o problema ao criar uma bolha de isolamento.

O que fazer

A solução para frear casos como o do cão Orelha na sociedade é um retorno a algo essencial: a família. O Pastor Walber reforça que o adolescente precisa ser sincero: “Meu conselho para o adolescente é que ele tenha um bom relacionamento com os pais, um relacionamento transparente. Converse. E, quando ele for tentado ou alguém lhe propor algo que seja errado, que ele leve isso aos pais. Não esconda”. Segundo ele, isso evita muitas consequências ruins.

Ele complementa, ainda, que é possível encontrar na Bíblia o caminho para a construção desses valores positivos que vão permear a vida do jovem. No fim das contas, a crueldade digital só perde força quando o mundo real volta a oferecer referências sólidas.

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