O jogo que está roubando muito mais do que dinheiro
Por trás da promessa de lucro fácil, as bets têm levado milhões de brasileiros ao endividamento, à dependência, ao sofrimento emocional e até ao suicídio
Muitos de nós, na infância, vimos nossos avós ou até mesmo nossos pais fazerem uma “fezinha” na loteria. Os jogos tradicionais, porém, ganharam um concorrente muito mais moderno, acessível e presente no dia a dia: as bets. Disponíveis a poucos cliques, elas conquistaram milhões de brasileiros, especialmente do público masculino.
Promessa de dinheiro fácil
O Brasil vive uma verdadeira febre das apostas esportivas. O que para muitos começou como uma distração, um palpite no time do coração, rapidamente se transformou em um fenômeno social preocupante. Seduzidas pela promessa de dinheiro fácil e pela adrenalina das apostas, milhões de pessoas mergulham diariamente nesse universo sem perceber que estão entrando em uma armadilha.
Um vício que supera o do crack
O resultado é que muitos se tornaram reféns dessa prática. Segundo Hermano Tavares, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e criador do Programa Ambulatorial do Transtorno do Jogo (PRO-AMJO), o transtorno do jogo já é a terceira dependência mais frequente no Brasil, superando o vício em cocaína e crack. Segundo o especialista, o avanço das bets impulsionou significativamente esse tipo de dependência no país.
O que são as bets?
A palavra bet, de origem inglesa, significa “aposta” e é usada para designar as plataformas de apostas esportivas online. O acesso é feito, principalmente, por aplicativos e sites. No Brasil, essas empresas operam no modelo de cota fixa, em que o valor do prêmio é definido no momento em que a aposta é realizada.
Mas o universo das bets vai muito além dos palpites em partidas de futebol. As plataformas oferecem diversas modalidades de jogos que transformam o celular em uma espécie de cassino disponível 24 horas por dia. É como ter uma máquina caça-níquel na palma da mão.
Esse tipo de negócio também se tornou onipresente na publicidade. As bets aparecem em anúncios na internet, nas redes sociais, na televisão, no rádio, em outdoors e, principalmente, nas transmissões esportivas. O volume de publicidade durante eventos esportivos, inclusive, tem despertado a preocupação das autoridades.
Vale a pena arriscar?
Foi acreditando no ditado “quem não arrisca não petisca” que milhões de brasileiros entraram no universo das apostas online. Para muitos, o que começou como uma tentativa de ganhar uma renda extra terminou em dívidas, sofrimento emocional e destruição familiar.
Os números mostram a dimensão do problema:
- Segundo o Banco Central, os brasileiros movimentaram cerca de R$ 90 bilhões em apostas apenas no primeiro trimestre de 2025
- Pesquisa do DataSenado (2024) revelou que 42% dos apostadores têm dívidas em atraso há mais de 30 dias
- O Ministério da Saúde registrou crescimento de 140% nos atendimentos do SUS relacionados à dependência em jogos nos últimos 5 anos
- Dados do PRO-AMJO mostram que 80% dos jogadores que procuram tratamento apresentam intenção suicida
A armadilha
O chamado “jogo do tigrinho” e as bets dão a falsa impressão de que estão sob controle. Muitos entram nesse universo acreditando que vão complementar a renda, mas acabam comprometendo o orçamento da família e acumulando dívidas cada vez maiores.
A ilusão do ganho fácil
No início, algumas pessoas realmente conseguem ganhar dinheiro. Essa sensação de sucesso alimenta a confiança e desperta a vontade de apostar novamente.
O que começou com uma aposta de R$ 20 logo se transforma em valores cada vez maiores. Quando as perdas acontecem, surge a esperança de recuperar o dinheiro na próxima rodada. Depois na seguinte. E depois em outra.
Dias, meses e até anos podem passar nessa tentativa de “virar o jogo”. Mas basta uma simples pergunta: se esse método realmente enriquecesse alguém, por que tantos apostadores continuam endividados?
Quando o cérebro aprende a apostar
As plataformas de apostas exploram um mecanismo conhecido pela psicologia: a recompensa intermitente. Como os ganhos acontecem de forma imprevisível, o cérebro passa a buscar constantemente a sensação de prazer causada por uma eventual vitória.
É o mesmo princípio usado no adestramento de animais. Um cachorro aprende a obedecer porque, algumas vezes, recebe um petisco como recompensa. Em outras, basta o dono fingir que tem algo na mão para que ele repita o comportamento, mesmo sem receber nada.
Com as apostas acontece algo semelhante. As poucas vitórias fazem o jogador acreditar que vale a pena continuar, mesmo quando as perdas já superam, e muito, qualquer ganho obtido.
O verdadeiro prejuízo
Basta uma rápida busca nas redes sociais para encontrar relatos de famílias destruídas pelas apostas online. Quando uma única pessoa desenvolve dependência, todos acabam sofrendo as consequências. Por trás das promessas de lucro fácil existem histórias de pessoas que perderam economias, patrimônio, emprego e relacionamentos. Muitas recorreram a empréstimos, agiotas e, em casos extremos, tiraram a própria vida diante do desespero causado pelas dívidas.
Além do prejuízo financeiro, as apostas podem levar a pessoa a concentrar sua esperança na sorte e no dinheiro, desviando seu coração daquilo que realmente tem valor. Foi o que aconteceu com Isaac Matos, de 31 anos. Conheça sua história ao lado.
A Bíblia adverte:
“Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1 Timóteo 6:10).
Você controla as apostas ou elas controlam você?
☐ Passa boa parte do dia pensando em apostas, estratégias ou palpites.
☐ Precisa apostar valores cada vez maiores ou com mais frequência para sentir satisfação.
☐ Depois de perder dinheiro, aposta novamente na tentativa de recuperar o prejuízo.
☐ Esconde o tempo e o dinheiro gastos com apostas, apaga o histórico do celular ou mente para familiares.
☐ Acumula dívidas, estoura o limite do cartão ou recorre a empréstimos para continuar apostando.
☐ As apostas já prejudicam seu trabalho, os estudos, a vida familiar ou os relacionamentos.É possível recomeçar
Se você marcou um ou mais desses sinais, é importante reconhecer que o problema existe. Quanto mais cedo isso acontecer, maiores são as chances de romper esse ciclo. Não se engane achando que tem esse hábito sob controle.
Embora a Bíblia não proíba explicitamente as apostas, ela alerta contra tudo aquilo que passa a dominar a vida de uma pessoa. Confiar na sorte em vez de confiar em Deus pode afastar o coração da verdadeira fonte de segurança e esperança.
O apóstolo Paulo ensina: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” (1 Coríntios 6:12).
Achei que controlava o jogo, mas era ele que me controlava

O que começou com apostas de baixo valor evoluiu para um vício que levou o autônomo Isaac Matos, de 31 anos, a acumular dívidas e colocar sua família em sofrimento
O que parecia diversão virou dependência

No início, eu apostava sem comprometer o orçamento da família. Porém, aos poucos, o jogo se tornou um vício. Passei a destinar todo o meu salário às apostas. Apesar de alguns ganhos, as perdas foram muito maiores. Sempre que perdia, tentava recuperar o prejuízo apostando mais, mas acabava perdendo tudo novamente.
Comecei a usar o salário da minha esposa para apostar. Quando as plataformas deixaram de aceitar depósitos de terceiros, cadastrei o CPF dela sem que ela soubesse para continuar jogando. Ela se desesperava ao ver que o dinheiro das despesas da casa havia sumido da conta.
Quando as apostas roubaram o lugar da família
Para pagar as dívidas com agiotas, a quem recorria para alimentar o vício, provoquei minha demissão. Recebi cerca de R$ 10 mil de rescisão, mas perdi todo o dinheiro em menos de uma semana nas apostas. Depois, já trabalhando por conta própria, cheguei a destinar até 80% dos meus ganhos aos jogos. Enquanto isso, em casa, faltava até o básico.
O fundo do poço
Depois de cada perda, vinha o remorso. Eu pedia perdão à minha esposa, prometia parar, mas logo voltava a apostar. Achava que iria quebrar as bancas, quando, na verdade, era eu quem estava sendo destruído. O fundo do poço foi quando minha filha pediu um lanche e eu não tinha nada para oferecer. Foi aí que percebi o quanto aquele vício estava destruindo a minha família.
A decisão que mudou a minha vida
Pouco tempo depois, minha esposa participou de uma reunião do Godllywood Autoajuda e voltou diferente. Em vez de me acusar por ter perdido mais dinheiro nas apostas, ela cuidou de mim. Aquela atitude me fez refletir e perceber que eu não podia continuar causando sofrimento à minha família.
Decidi participar da Vigília da Virada. Fui em busca da ajuda de Deus para vencer aquele vício. Naquela noite, reconheci meus erros, me arrependi e me batizei nas águas. Saí decidido a abandonar o passado.
Transformação completa
Passei a buscar o Espírito Santo e, cerca de uma semana depois, enquanto orava sozinho em casa, pedi a Deus que nunca mais me deixasse voltar àquele vício. Naquele instante, recebi uma paz e uma alegria que jamais esquecerei. Hoje, sou livre do vício que quase destruiu a minha família. Vivo para Deus, que nada me deixa faltar.
Mude de direção
Muitos começaram apostando por curiosidade ou diversão e acabaram perdendo dinheiro, relacionamentos, paz e até o sentido da vida. Mas nenhuma história precisa terminar assim.
Independentemente de você já estar preso às apostas ou apenas começando a trilhar esse caminho, ainda há tempo de mudar de direção. Deus pode libertá-lo de qualquer vício, restaurar sua vida e lhe dar uma esperança que nenhuma aposta jamais poderá oferecer. E, acima de tudo, conceder a maior vitória de todas: a salvação eterna.
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