Inteligência artificial ameaça 31,3 milhões de empregos e o Brasil discute trabalhar menos

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Um relatório baseado em dados da PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que 31,3 milhões de empregos podem ser impactados pela inteligência artificial (IA) no Brasil até o fim do ano.

Segundo a Agência de Notícias do IBGE, o uso de IA em empresas brasileiras aumentou significativamente entre 2022 e 2024. O percentual de indústrias usando IA mais do que dobrou, passando de 16,9% para 41,9% nesse período.

Isso mostra que a tecnologia vem sendo incorporada rapidamente nos últimos anos e causando mudanças significativas no mercado de trabalho.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alerta que quase 40% dos empregos brasileiros podem ser afetados pela IA generativa, com maior risco de impacto no emprego feminino. A lógica empresarial é objetiva: se um algoritmo realiza a tarefa com mais rapidez e menor custo, a substituição tende a ocorrer.

Internet das Coisas a passos largos no Brasil

“Estava de boa em casa quando vi alguém mexendo no [meu] registro da água. Fui lá fora e questionei: ‘O que você está fazendo? Vai cortar?’ Ele [funcionário da Sabesp] respondeu: ‘Não, estou trocando o relógio.’ Começamos a conversar e soube que estão colocando relógio com chip da Vivo e que agora não precisa mais de leiturista, porque a leitura vai ser remota, via internet. Muitas pessoas vão ser demitidas e o pior é que elas nem têm ideia.”

O relato é de um morador da cidade de São Paulo que teve o hidrômetro inteligente colocado em sua residência. O novo equipamento conta com um chip eSIM com tecnologia IoT (internet of things) – internet das coisas em português – e já está sendo instalado em diversas regiões da capital paulista e do município de São José dos Campos.

Essa tecnologia tende a eliminar funções manuais e repetitivas. Por outro lado, cria demanda por profissionais qualificados em funções digitais e de gestão de dados.

Este é apenas um exemplo da implantação massiva da internet das coisas, a qual poderá elevar o número de desempregados no País caso não haja requalificação profissional compatível.

Brasil na contramão

Enquanto em países desenvolvidos o debate central gira em torno de produtividade, competitividade e requalificação da população para o novo cenário, o País segue na contramão ao priorizar a discussão sobre a redução da jornada de trabalho sem grandes preocupações com a falta de qualificação do trabalhador brasileiro. Ou seja, enquanto países cuja população já produz muito mais do que os brasileiros intensificam os investimentos em tecnologia e capacitação para implementar e dominar a inteligência artificial, no Brasil o que se discute é trabalhar menos e folgar mais.

A narrativa sobre o fim da jornada 6×1 é baseada em mais qualidade de vida, mas os fatos apontam para outra direção: maior risco de desemprego estrutural.

Diante da maior transformação produtiva desde a Revolução Industrial, com foco em fazer mais em menos tempo e a menor custo, a pergunta que fica é: qual será o futuro de um país que aumenta o custo das empresas enquanto propõe que se trabalhe menos?

No Brasil o debate é sobre fazer menos gastando mais.

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Colaborador

Patricia Lages / Arte sobre fotos: getty images