Geração "nem-nem": Brasil tem aumento de jovens que nem trabalham nem estudam
Além da pandemia, falta de recursos e acomodação são fatores que podem ter influenciado este crescimento
Trabalhar e se tornar dono do próprio nariz já foi o sonho dos jovens brasileiros. Hoje, infelizmente, muitos deles se contentam em viver dependentes dos pais e, assim, o fato de se mudar da casa deles tem se tornado uma realidade cada vez mais distante.
Atualmente, no Brasil, mais de 12 milhões de jovens com idade entre 18 e 29 anos fazem parte da geração conhecida como “nem-nem”, ou seja, nem trabalham nem estudam. Os dados fazem parte de uma pesquisa realizada pela consultoria IDados e apontam para um panorama preocupante, já que o número corresponde a 30% dos jovens dessa faixa etária no País, considerada uma das mais produtivas.
Essa tendência passou a ser mais evidente a partir de 2012, quando o número de jovens considerados “nem-nem” passou a crescer no País. A pergunta é: o que tem acontecido com essa geração que incentiva sua manutenção nesse estado improdutivo?
A especialista em educação e diretora do método PertenSer, Telma Abreu, aponta para duas realidades distintas e extremas que colaboram para o crescimento desse índice: “por um lado, vemos uma parcela de baixa renda com dificuldade muito maior de tudo e vemos isso principalmente em mulheres que são mães jovens e focam nas obrigações familiares”. Sem apoio, muitas delas acabam deixando os estudos e ficam desmotivadas. “Nós não temos políticas públicas eficientes que invistam em garantir uma educação de qualidade para esse grupo”, completa.
Mas, por outro lado, há aqueles jovens que se acomodam na casa dos pais e buscam usufruir do conforto e da segurança oferecidos por eles pelo maior tempo possível. “Eles justificam sua atitude com a falta de oportunidade de mudar, porque as coisas estão mais caras, como o aluguel, e as poucas oportunidades de emprego, mas isso é viciante e cria uma zona de conforto da qual é cada vez mais difícil sair”, diz Telma.
A família e a geração Z
A geração Z – aquela formada pelos nascidos entre 1997 e 2015 – cresceu em um mundo em que a maioria dos pais estava fora de casa trabalhando para garantir uma vida melhor para os filhos e com uma intensa carga horária. Segundo Telma, para compensar essa ausência, os pais tendem a acolher demais os jovens, inclusive os que já são adultos. “Dessa forma, esse grupo se torna cada vez mais dependente, menos tolerante às frustrações, se acomoda e tem medo de crescer”, afirma.
Consequentemente, os jovens que são dominados pelo temor do desconhecido e dos desafios são mais propensos a desistir quando se sentem pressionados, explica a jornalista e escritora Patricia Lages: “ao não saber lidar com uma nota baixa, com a rejeição de um colega, com os desafios comuns que os estudos trazem, eles preferem abandoná-los e, mais tarde, fazem o mesmo com o trabalho, que é ainda mais desafiador”.
Segundo Patricia, os integrantes da geração Z apresentam mais dificuldade de desenvolver sua inteligência emocional e de manter relações duradouras e interações sociais. “Eles preferem estar sozinhos e lidar com a tecnologia, pois ela responde aos seus comandos imediatamente, da forma como eles se habituaram a ser respondidos.”
Quais são os Impactos disso no Brasil?
Sem estudos, sem trabalho e muitas vezes sem buscar novas oportunidades, os jovens vivem situações que impactam no desenvolvimento deles a curto prazo. No entanto isso também pode influenciar na sociedade brasileira, afinal são 12,3 milhões de pessoas em idade produtiva que estão inativas.
“Todo país é sustentado pelo que a população produz. Logo, pessoas dependentes e que não produzem nada são um peso para qualquer país. Somando-se a falta de iniciativa dos nem-nem à sua crença de que a sociedade lhes deve muita coisa, não chegaremos a um resultado positivo para o futuro”, esclarece Patricia.
O que fazer para mudar esse comportamento?
O primeiro passo é ser sincero consigo mesmo e identificar se existe comodismo ou realmente falta de oportunidade. A receita para resolver o primeiro caso é simples: “é preciso mudar essa mentalidade vitimista para que essa geração seja, de fato, autossuficiente e possa desfrutar do produto de seu próprio esforço”, recomenda Patricia.
Já se o caso for de falta de apoio educacional e dificuldades financeiras ao longo da trajetória acadêmica, Telma dá uma dica: “primeiramente, é preciso acreditar que é possível chegar mais longe e voltar a pesquisar e entender a dinâmica do mercado. É importante identificar seus pontos fortes e principais habilidades, já que muitas empresas dão valor a elas, e, sempre que possível, buscar cursos gratuitos e palestras interessantes. Mesmo que sejam on-line, elas estimulam bons relacionamentos”.
Quem também pode ajudar a romper esse ciclo são os pais e para isso é preciso que tenham uma conversa franca e mostrem a necessidade de que cada um construa sua independência. “Vale incentivar os filhos a tornar o tempo deles mais produtivo, a buscar novos conhecimentos e a se atualizar. É importante escutá-los, conhecer seus desejos e provocá-los a pensar nos impactos positivos de sua realização e, principalmente, encorajá-los a conhecer o mercado, a pesquisar as profissões e apoiar suas escolhas para que eles possam se sentir motivados a gerar movimento na vida deles”, finaliza Telma.
English
Espanhol
Italiano
Haiti
Francês
Russo