Como atender a demanda do público da terceira idade?
Para conquistar esse grupo cada vez maior e mais exigente, é preciso investir em capacitação
A população brasileira está envelhecendo. Segundo dados divulgados no ano passado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), 37,7 milhões de brasileiros têm 60 anos ou mais. O levantamento também revelou que 18,5% desse grupo ainda trabalha e 75% contribuem para a renda da casa onde moram. Pode-se dizer sem medo de errar que os idosos correspondem a uma parcela ativa da população que consome e espera que a sociedade entenda e supra suas necessidades.
Nesse cenário, o público da terceira idade se transformou em um nicho significativo para a economia brasileira. Se especializar para oferecer um serviço ou produto para os mais maduros tende a ser lucrativo. Um levantamento realizado pelo Instituto Locomotiva mostrou que a população com mais de 50 anos já movimenta cerca de R$ 1,6 trilhão na economia brasileira. É a chamada economia da longevidade.
As intenções de compra desse público, ainda segundo o estudo, variam de itens pessoais ao lazer: 29% pretendem adquirir móveis, 15% viagens nacionais e 12% TVs de plasma ou Led ou geladeiras. Notebooks (9%) e tablets (6%) também aparecem na lista.
Diante desse quadro, é possível perceber que existe público interessado nos mais diversos produtos. Quando o assunto são serviços, o cenário também é diversificado. Para Lúcia Helena Cordeiro, especialista em empreendedorismo e comportamento organizacional, os que devem crescer ainda mais nos próximos anos são os ligados à inclusão digital, aos ambientes que privilegiem a socialização, aos tratamentos preventivos para melhorar a imunidade e advogados especialistas na área do Estatuto do Idoso.
Vale ressaltar que nem sempre uma empresa precisa ser focada totalmente na terceira idade para oferecer serviços a esse público, mas é preciso que se prepare para fazer adaptações. “Uma academia, por exemplo, pode atender pessoas de todas as idades, mas o personal trainer precisa ser capaz de passar séries de exercícios diferentes para quem tem 18 ou mais de 60 anos. Se o profissional estiver preparado, não tem problema”, diz.
Ou seja, o sucesso do empreendimento depende da preparação dos profissionais que estão em contato direto com o público. “Há empresas que não focam no cliente, mas apenas criam um padrão”, diz. Ela exemplifica citando os atendimentos por telefone, onde há um script que é seguido, deixando de lado o diálogo que poderia solucionar um problema de forma mais eficiente e humana.
Desafios do mercado
Para alcançar sucesso com esse público, que está cada vez maior, é preciso mergulhar em sua realidade e prezar pela empatia, ou seja, se colocar no lugar dele. Só essa mudança de pensamento já vai deixar o empreendedor à frente de muitos concorrentes. “Infelizmente, os mais velhos ainda enfrentam diversos desafios no seu dia a dia, como, por exemplo, a exclusão digital, os golpes, os preconceitos, a falta de informação sobre determinado produto ou serviço e vários outros problemas”, elenca o Bispo Valter Pereira, responsável pelo grupo Calebe, projeto social mantido pela Universal focado em auxiliar os idosos.
Para ele, “o preconceito contra os idosos ainda é um mal latente nos dias de hoje, por conta de estereótipos construídos pela sociedade. Os preconceitos se vinculam à saúde, à capacidade e ao empenho, à idade e à fragilidade, entre outros”. Por isso é importante que as empresas rompam barreiras e olhem para o outro como um ser humano e não com o estigma de alguém limitado. Mais do que nunca, o grupo da “melhor idade” busca superação.
Acessibilidade
O Brasil deu um salto na digitalização de serviços nos últimos dois anos e os idosos estão antenados ao que acontece no mundo virtual. As ações de marketing para incluir esse público também no ambiente digital são fundamentais, mas devem prezar por clareza, objetividade e honestidade. Não é interessante colocar informações nas entrelinhas, na tentativa de enganar ou que passem despercebidas. Iniciativas assim derrubam a credibilidade de um negócio.
Da mesma forma, os ambientes físicos devem estar preparados para receber um público que pode ou não ter algum tipo de limitação. “Os idosos geralmente apresentam dificuldades de locomoção ou problemas na visão e, por isso, é importante trabalhar com acessibilidade. Para facilitar a visita do idoso a uma empresa, é importante reduzir os obstáculos, como degraus, e construir rampas, sinalizar melhor os ambientes e instalar corrimãos, alças de apoio e pisos antiderrapantes”, relata o Bispo Valter Pereira.
Crescimento dos 60+
O mercado voltado ao público da terceira idade é amplo e tende a crescer ainda mais nos próximos anos. Diferentemente de algumas décadas atrás, a idade avançada hoje não é sinônimo de limitação, mas de oportunidade de deixar os padrões de lado e encarar novos desafios.
Lúcia Helena faz algumas observações importantes: “a palavra ‘aposentar’ deriva de ir para os aposentos e hoje ninguém quer ir para os aposentos. É o contrário: a pessoa quer sair dos aposentos, deixar os escritórios convencionais e empreender ou buscar aquilo que facilite sua vida, voltar a estudar, dar aulas, palestras, se movimentar. É preciso acabar com o preconceito e o estigma em relação à idade. Todas as faixas etárias têm potencial para agregar algo a um negócio”, finaliza.
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