As redes sociais mais ajudam ou mais atrapalham as crianças?

Estudos revelam que elas têm um peso no desenvolvimento e no comportamento delas

Há muito que se discute que o mau uso da internet potencializa ou causa problemas psicológicos e sociais aos usuários, principalmente crianças e adolescentes. Mas quando alguém de dentro de uma empresa do ramo revela que esses danos são propositais para gerar lucro, mais alertas se acendem. Afinal, as redes sociais mais ajudam ou atrapalham as crianças?

No fim de 2021, a engenheira de computação norte-americana Frances Haugen, que atuava até meses antes como gerente de produto no Facebook, revelou ao The Wall Street Journal (WSJ) e à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês), com base em milhares de documentos colhidos em seu trabalho, que o aplicativo Instagram, que pertence ao Facebook, comprovadamente causa depressão e ansiedade em adolescentes, principalmente meninas (por usarem mais as redes), enquanto a empresa nada fez para prevenir ou impedir isso, já que o que interessa a ela são os lucros.

Entre outras declarações dos documentos internos do Facebook constava que “32% das meninas adolescentes contaram que quando se sentiam mal com seus corpos, o Instagram fazia com que se sentissem pior”, que a empresa piora “os problemas de imagem corporal em uma em cada três adolescentes” e que “adolescentes culpam o Instagram pelo aumento da taxa de ansiedade
e depressão”.

Mais riscos mentais
Um estudo da Universidade de San Diego (USD) revelou que há efeitos nocivos das redes sociais nos sentimentos dos jovens sobre sua aparência e que “as plataformas de mídia social podem aumentar o risco de transtornos alimentares e outros problemas de saúde mental, como depressão e baixa autoestima”, segundo sua autora, a psicóloga Jean Twenge, que realiza estudos com jovens desde a década de 1970.

Jean Twenge revelou que triplicaram as internações por automutilação entre meninas de 10 a 14 anos entre 2009 e 2015 e que a depressão aumentou em 60% em adolescentes de ambos os sexos, de 12 anos a 19 anos, entre 2009 e 2017. Não por acaso, as redes sociais se tornaram mais populares entre crianças e adolescentes entre 2009 e 2010.

Segundo pesquisa do Comitê Gestor da Internet do Brasil (CGI.br), 82% das crianças e adolescentes brasileiros entre 7 anos e 9 anos (cerca de 22 milhões) utilizam as redes sociais. Nos Estados Unidos a proporção é de 90% dos adolescentes entre 13 anos e 17 anos com perfis nas redes.

Uma reportagem na revista The Atlantic, também dos Estados Unidos, falando do estudo da USD, mostrou que traficantes de drogas e pessoas, além de pedófilos, usam métodos para burlar os algoritmos de segurança da rede social para atrair mais vítimas, sem que o Facebook combata isso de fato. Mas tanto essa pesquisa quanto outra realizada pela Real Sociedade de Saúde Pública, no Reino Unido, esclareceram que as redes sociais podem trazer benefícios se usadas com limites, supervisão e de forma positiva.

Limites realistas
Jean Twenge diz em seu estudo que “se uma criança está obcecada com seu dispositivo eletrônico e não se interessa por mais nada, não consegue respeitar limites. Se isso interfere nos estudos, no sono e nos relacionamentos, os pais e responsáveis têm um problema”. Segundo ela, crianças e adolescentes que possam estar passando por depressão e ansiedade podem estar tentando aliviar os sintomas na tela, o que leva os pais a não saberem do problema e não procurarem tratamento a tempo.

Por isso, a psicóloga da USD aconselha limites realistas de conteúdo e de tempo para o uso de redes – a boa e velha supervisão dos pais. E, mais importante, que os adultos deem o exemplo.

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Redação / Foto: getty images