Arenas virtuais: um risco iminente
Com o avanço da tecnologia, os crimes relacionados a ela também avançam. Por isso, precisamos estar cientes dos riscos para proteger as crianças e os adolescentes tanto no ambiente físico quanto no virtual
Quando estamos conectados, sempre esperamos o melhor tanto em relação ao conteúdo que recebemos como de quem está do outro lado. Apesar de sabermos dos riscos, acreditamos que estamos protegidos atrás da tela e imunes aos males que as redes propagam. Essa é a maior utopia da internet, principalmente quando temos crianças e adolescentes navegando.
Segundo dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, 96% dos brasileiros entre 9 e 17 anos utilizam o celular várias vezes ao dia e 98% das crianças e adolescentes acessam a internet, majoritariamente em casa. Todavia apenas 44% dos pais e responsáveis conversam com as crianças e os adolescentes para saber o que elas fazem quando estão conectadas.
Os riscos
Tudo começa com uma conversa entre o criminoso e a vítima, na qual se fala de gostos em comum. Com o passar dos dias, semanas ou meses, os crimes começam a acontecer dentro de casa. A vítima cede aos pedidos do criminoso não porque quer, mas porque, em geral, é ameaçada de ter fotos e vídeos íntimos expostos. E isso ocorre em plataformas conhecidas, como Instagram, TikTok, Telegram e Discord. Os principais crimes são:
- Indução à automutilação;
- Indução ao suicídio; e
- Estupro virtual.
A delegada e coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Lisandrea Salvariego, explica que o estupro virtual não necessita de contato físico para ser tipificado como tal: “É o estupro de vulnerável cometido nos meios digitais”. Esse e os demais crimes são assistidos por dezenas e centenas de pessoas em uma espécie de arena virtual.
O que são as arenas virtuais?
Muitas plataformas de comunicação são transformadas em palco onde criminosos induzem a vítima a se machucar enquanto é vista por outras pessoas. “As arenas virtuais são os servidores, dentro do Discord, no qual essas vítimas são expostas. Somente o Discord detém essa tecnologia de compartilhamento de telas, porque foi criado para o universo gamer”, diz a delegada.
Talvez você pense “É só excluir a conta”, “É só sair da sala”, “É só desligar a câmera”, mas entenda: a vítima é um ser humano em formação que está mais conectada com o agressor do que com a própria família e com medo de ser exposta e julgada. E é justamente por isso que o diálogo em família é tão importante: para criar um ambiente em que a criança e o adolescente se sintam seguros para compartilhar quando estiverem em uma situação de vulnerabilidade.
Uma luta constante
O Noad foi criado no final de 2024 para monitorar e identificar, prevenir e agir diante de crimes no ambiente virtual. Com um trabalho integrando diferentes áreas da segurança pública, redes sociais e plataformas digitais são monitoradas 24 horas por dia: “Já salvamos 349 crianças e adolescentes que seriam vítimas de crimes online”, afirma Lisandrea.
No mundo ideal, os crimes devem ser coibidos antes de fazerem vítimas. Essa missão deve ser abraçada pela família, por meio da orientação sobre os riscos da internet, o acompanhamento do que as crianças e os adolescentes realmente fazem quando estão conectados e o acolhimento quando, infelizmente, outra vítima é descoberta. “A proteção começa na educação digital e sexual, com o monitoramento do tempo de tela e a instalação de controles parentais”, pontua a delegada. Mesmo que tenhamos instrumentos legislativos e oficiais da segurança pública trabalhando ininterruptamente, é em casa que o cuidado começa. “O papel da família é o mais importante dentro de todo esse cenário. Estamos lidando com famílias absolutamente desconectadas”, alerta a delegada.
Faça sua parte
Sente-se com as crianças e adolescentes que estão sob sua responsabilidade; converse abertamente sobre os riscos no ambiente virtual e estipule regras, como limite no tempo que passam conectados, o compartilhamento de com quem interagem e os assuntos abordados; conheça as redes sociais, plataformas e jogos que fazem parte do dia a dia dos menores de idade e entenda se elas são adequadas. Se descobrir algum crime, acolha a vítima e denuncie imediatamente pelo telefone 181 ou pelo e-mail núcleo.noad@sp.gov.br.
Não é brincadeira
A TIC Kids Online Brasil 2025 aponta que 65% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos já utilizaram IA generativa (inteligência artificial que cria conteúdo original, como textos, imagens e vídeos). A IA é uma ferramenta que auxilia no aprendizado e que pode ser apenas uma brincadeira, mas ela também pode ser usada por criminosos para alterar imagens inocentes e utilizá-las para chantagear as vítimas.
ECA Digital
O Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (Lei no 15.211/2025), o ECA Digital, estabelece diretrizes para que o ambiente digital se torne mais seguro para crianças e adolescentes. Como exemplo estão as novas regras para plataformas digitais, como a verificação de idade, vinculação da conta de menores de 16 anos a um responsável legal e a publicação de relatórios periódicos sobre denúncias.
Mas, apesar de o instrumento legislativo representar um avanço significativo na proteção dos menores de idade, o sucesso depende da cooperação entre o governo, as plataformas digitais e as famílias, que devem estar conscientes dos riscos, das medidas de proteção e dos recursos disponíveis quando os crimes fazem novas vítimas.
A lei foi publicada em setembro de 2025 e entrará em vigor, oficialmente, em março deste ano. Então, se conscientize sobre as mudanças, assuma a responsabilidade de conversar com as crianças e os adolescentes, e esteja atento ao que acontece no ambiente virtual.
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