A fronteira mais difícil não separava países, mas sua alma

Mille Hildebrandt deixou o Brasil para recomeçar na Alemanha, mas descobriu que a travessia mais difícil acontecia dentro de si

Imagem de capa - A fronteira mais difícil não separava países, mas sua alma

Os pensamentos influenciam diretamente a vida. Eles podem motivar alguém a avançar e recomeçar, mas também criar barreiras que alimentam medos e distorcem a forma de enxergar a si mesmo, o mundo e as pessoas ao redor.

Foi assim com Mille Hildebrandt, brasileira de 29 anos que nasceu em Natal (RN) e vive na Alemanha. Marcada por uma infância conturbada, ela via vultos, ouvia vozes e sofreu abusos de pessoas próximas. Essas experiências a fizeram crescer com vergonha, mágoa e uma visão negativa de si mesma. “Eu queria ser qualquer pessoa, menos eu mesma, porque quem eu era lembrava a menina que foi abusada e que não sabia lidar com aquela dor”, revela.

Fugindo de si mesma

Na adolescência, Mille passou a se interessar por ocultismo, astrologia, cartas e jogos espirituais. “Eu tentava me entender, mas procurava respostas nos lugares errados”, conta.

Aos 14 anos, surgiu a chance de estudar na Alemanha, o que, para ela, parecia uma oportunidade de recomeço. No novo país, ela mergulhou nos estudos e tentou parecer forte, mas, por dentro, os conflitos continuavam.

Em 2014, aos 17 anos, Mille chegou à Universal, depois que sua avó assistiu à programação da Igreja na Record Europa. “No primeiro dia, minha avó foi curada de uma sinusite crônica, e eu me senti bem ali. Então decidi continuar frequentando”, recorda.

Ela se batizou nas águas e, por dez anos, frequentou reuniões, evangelizou e acreditou ter recebido o Espírito Santo. Contudo, em seu interior, continuava sendo a mesma pessoa, e sua vida não mudava.

Refém dos pensamentos

A verdade é que a raiz do problema estava em seus pensamentos. “Eu não acreditava que Deus tinha me escolhido porque, no fundo, eu mesma me rejeitava. Eu culpava Deus por ter permitido os abusos que sofri. Por isso, tinha mágoa d’Ele, de mim e das pessoas”, revela.

Mille acreditava que seu valor diante de Deus estava no que fazia, como se tivesse que “ganhar” a aceitação d’Ele. “Eu cresci me sentindo valorizada apenas pelo que fazia. Então pensei que com Deus seria assim também.”

Ela desenvolveu padrões rígidos de comportamento, tinha medo de errar e dificuldade para confiar nas pessoas. Sob pressão, sofria sangramentos intensos pelo nariz. Após enfrentar problemas no trabalho, buscou ajuda médica e recebeu o diagnóstico de autismo Asperger e TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade).

Confrontando os pensamentos

Em meio a tudo isso, os ataques espirituais continuavam, e ela passou a sofrer abusos dos próprios espíritos enquanto dormia. “Eu tinha inveja das pessoas que chegavam à igreja e tinham suas vidas transformadas. Achava que Deus as amava mais do que a mim”, confessa.

Foi então que nasceu dentro dela uma revolta. Determinada, Mille passou a confrontar pensamentos, mágoas e sentimentos; e decidiu parar de tentar impressionar a Deus com obras e se render de fato a Ele.

A cura da alma

Na Fogueira Santa do fim de 2024, ela se lançou no Altar em busca do Espírito Santo. Batizou-se nas águas novamente e, em fevereiro de 2025, enquanto orava em casa, recebeu o Espírito Santo. Naquele momento, teve a certeza de que o sofrimento havia acabado e de que não estaria mais sozinha.

“No Espírito Santo encontro tudo de que preciso. Hoje não fico paralisada quando as coisas não saem como planejei, porque sei que tudo coopera para o meu bem. Minha parte é confiar n’Ele”, conclui.

Saiba mais

Leia as demais matérias dessa e de outras edições da Folha Universal, clicando aqui. Confira também os seus conteúdos no perfil @folhauniversal no Instagram.

Folha Universal, informações para a vida!

imagem do author
Colaborador

Núbia Onara / Fotos: Cedidas