A infraestrutura do Brasil e a política


Por Eduardo Prestes / Fotos: Demetrio Koch e Danilo Verpa / Arte: Edi Edson

Eu notei a falta de muitas mercadorias no supermercado e o preço era elevado dos poucos que estavam disponíveis. As frutas e legumes estavam em falta e eram caros. Também foi difícil encontrar leite. Mesmo depois do fim da greve, os preços não voltaram ao que eram. Ana Carolina Dalbeto, de 36 anos, dona de casa

As imagens do Brasil parado, diante da greve dos caminhoneiros, ainda estão presentes na mente de grande parte da população. A paralisação que durou 10 dias, entre 21 e 30 de maio passado, teve reflexos no abastecimento de vários produtos. Nos postos de gasolina, as cenas mais comuns eram filas quilométricas de carros esperando por combustível.

O desabastecimento também rondou os supermercados. Produtos como leite e hortifrutigranjeiros simplesmente não chegavam e, quando surgiam nas prateleiras, os consumidores reclamavam dos altos preços cobrados.

Farmácias e postos de saúde também não ficaram ilesos. Houve falta de remédios e, na área de infraestrutura de transportes, o Brasil revelou uma dependência gigantesca do modelo rodoviário. Uma das muitas pautas em que o eleitor deverá cobrar resultados dos futuros governantes.

Para Ilana Ferreira, economista da Confederação Nacional da Indústria, o Brasil investe muito pouco em infraestrutura, segmento essencial para o desenvolvimento socioeconômico do País, formado por serviços de transporte, energia, telecomunicações e saneamento. “Apenas 2% do nosso PIB (Produto Interno Bruto) é investido nessa área. É muito pouco se comparado com países como Rússia e África do Sul, que investem cerca de 4%. De acordo com uma análise do Banco Mundial, apenas para a manutenção do sistema como um todo seria preciso investir 5% do PIB, o equivalente a cerca R$ 328 bilhões ao ano. Mas, a cada ano, ficamos com um saldo negativo de R$ 192 bilhões”, revela.

Qualidade
Para Ilana, é preciso levar em consideração a dimensão geográfica do Brasil quando se fala dos investimentos em infraestrutura, mas, para ela, dois setores são mais preocupantes. “O de transporte, que recebe 0,6% dos investimentos, só para manutenção, quando deveria ser de no mínimo 1,2%; e o de saneamento, que deveria chegar a 62%. Estamos muito atrasados em termos de manutenção e extensão, mas, além da necessidade de investimento, precisamos de mais qualidade nos projetos e na execução deles. O que se observou nos últimos anos foi uma preocupação com grandes obras, mas não com a qualidade delas”, analisa.

Ficamos cinco dias sem combustível. Todo dia alguém procurava e não tinha como fornecer porque todos os caminhões estavam parados. Além da falta de combustível, houve a falta de compreensão dos clientes, que queriam até nos bater na hora que o combustível acabava. Deixamos de abastecer uns 300 carros por dia.
Fernando Vicente, de 50 anos, gerente de posto de gasolina

Lição errada
Já para a jornalista especializada em economia Fátima Turci também é preciso levar em consideração o contexto histórico. “Desde a época do Império, passando pelo governo dos militares, até recentemente, no período democrático, houve pouco investimento nesse setor. Com o presidente Juscelino Kubitschek, o investimento foi atrelado ao modal rodoviário, o que foi totalmente errôneo pela extensão territorial do Brasil. Isso já faz 62 anos e vemos as consequências hoje. De lá para cá, nada foi feito direito. Aqui, mais de 60% das cargas são transportadas via caminhões.”

Na opinião de Fátima, nenhum país no mundo fez a mesma opção que o Brasil, o que explica a nossa dependência do setor rodoviário. “Em outros países temos hidrovias. No Brasil, ignorou-se totalmente isso e a quantidade e a extensão de rios que se interligam e poderiam ser usados. Outro modal ignorado foi a ferrovia. Eu viajo pelo interior e dá vontade de chorar, pois existem lugares onde os trilhos simplesmente foram cobertos de asfalto. Mataram a estrada de ferro, um tipo de modal mundialmente reconhecido por transportar passageiros e cargas”, reflete.

Sistema inseguro
Para o cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) Ricardo Caldas, a greve dos caminhoneiros também evidenciou que as empresas se sentem inseguras em trocar de modal. “Na dúvida, elas continuam com o que existe. Quando não há o interesse do setor público em concluir as obras de infraestrutura, a solução é fazer a concessão via parceria público-privada. É preciso ter um plano estratégico e logístico. Talvez São Paulo seja o Estado que tenha mais condições de mudar esse panorama, por ser um polo consumidor e produtor. Se São Paulo der o pontapé inicial, acredito que outros Estados podem segui-lo”, avalia.

Planejamento
Ilana observa que há necessidade de um planejamento de longo prazo, com clareza e priorização de ações. “A estrutura não pode ser enxergada como desembolso para obras. É preciso dar ênfase na eficácia do investimento. Construir uma ferrovia sem que haja um porto que leve cargas às usinas, sem linhas de transmissão ou programas habitacionais que não envolvam estrutura de saneamento quando chegam para atendimento da população será desperdício de recursos.”

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