Que tipo de saúde você quer para o Brasil?


Por Eduardo Prestes / Fotos: Demetrio Koch e Cedidas

Cada vez que falamos em saúde pública no Brasil as imagens que vêm à nossa mente lembram a situação de caos. Longas filas de espera, falta de médicos e remédios, morosidade e burocracia que atingem diretamente a maioria da população. Embora nos últimos anos o serviço tenha avançado no atendimento a um número maior de pessoas, para ficar de acordo com o que determina a Constituição de 1988, em seu artigo 196, que a saúde é direito de todos, parece que um longo caminho ainda tem de ser percorrido para que essa norma seja cumprida amplamente.

Panorama
A reportagem da Folha Universal conversou com especialistas da área de saúde e também com quem utiliza o Sistema Único de Saúde (SUS) para saber como anda a situação na área.

Para José Alexandre Buso Weiller, de 33 anos, presidente da Associação Paulista de Saúde Pública, entidade que pesquisa e promove debates sobre o tema, ainda há muito a fazer. “Trabalho há dez anos na gestão pública em saúde e, apesar da ampliação do acesso ocorrida nos últimos 15 anos, considerando a reorganização e ampliação das redes de saúde financiadas principalmente pelos municípios brasileiros, da crescente e bem avaliada cobertura vacinal no Brasil (Programa Nacional de Imunizações), da grande rede de transplantes de órgãos, entre outras questões, o quadro geral de qualidade do cuidado prestado à população brasileira ainda é muito deficiente.”

Realidade
Na tentativa de desafogar o SUS foi aberta a possibilidade de que instituições privadas pudessem suplementar o sistema público de saúde quando há insuficiência no acesso aos serviços. Segundo dados do Ministério da Saúde, incluídos no Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil (CNES), há 1,5 leito ofertado pelo SUS para cada mil habitantes. “E, quando adicionamos os leitos privados da saúde suplementar, esse número sobe para 2,1 leitos para cada mil habitantes. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que os países devem dispor de pelo menos três leitos para cada mil habitantes. Como consequência, nossas unidades de pronto atendimento e pronto-socorro se mantêm superlotadas, há demora no processo de internação e de continuidade do tratamento hospitalar”, avalia.

Mesmos problemas de sempre
A técnica de farmácia Sary Sakaguchi, de 24 anos (foto a esq.), acredita que quem depende do SUS sempre encontra algum problema. “Eu ligo antes para pegar a relação dos hospitais próximos e, às vezes, não tem médico ou está muito lotado. Em fevereiro, passei em consulta com ginecologista e o retorno só foi marcado para seis meses depois. Eu fiz exames que tinham validade de três meses e nem valem mais. Se eu tivesse algum problema que fosse urgente, ele poderia se tornar grave”, relata.

Mais adversidades

A dona de casa Silvana Santos Cardoso, de 36 anos (foto abaixo), moradora de São Vicente, no litoral paulista, usa o transporte público de saúde para trazer seu filho, Thiago Santos Cardoso, para ser tratado pelo SUS em São Paulo. “O transporte não passou na rua onde eu moro. Até apresentei para o hospital uma justificativa da prefeitura, informando que o carro havia quebrado, mas não foi aceita. Perdi a consulta e meu filho só será atendido em fevereiro do ano que vem. Perguntei se tinha alguma fila de espera, no caso de desistência de alguém, mas fui informada pela atendente que não existe”, conta.

Morosidade 

Silvana explica que Thiago tem baixa visão. “Essa consulta poderia mostrar se a lente que ele está usando é adequada ou se ele precisa de outra. Quanto mais tempo demora, ele só piora, pois o problema dele é degenerativo. O pior de tudo é a falta de informação. As pessoas falam que ele tem baixa visão, mas até hoje não sei dizer o que ele tem exatamente”, frisa.

“Só de ambulância”
O motorista paulista Clóvis José dos Santos, de 41 anos (foto abaixo), descobriu há sete meses que seus rins não estavam funcionando mais. Desde então, ele faz hemodiálise três vezes por semana em um hospital que atende pelo SUS. Clóvis conta que foi difícil conseguir uma vaga no hospital onde faz o tratamento. “Eles não queriam me transferir para cá. Tive que procurar outro hospital na Lapa, porque aqui só entra quem é trazido de ambulância. O médico nem queria que eu viesse, pois achava que eu não resistiria”, revela.

Dificuldades
Clóvis ainda está tentando conseguir o benefício do INSS, pois está sem trabalhar. Mesmo diante das dificuldades para se tratar e sobreviver, ele acredita que as eleições de outubro podem modificar o atual panorama da saúde. “Acredito que os políticos podem mudar isso, dependendo da escolha de cada um de nós e da votação. Se escolher bem e votar no candidato certo, que tiver propostas boas, isso pode mudar”, avalia.

Doença múltipla
A advogada Beatriz Aranda, de 26 anos (foto abaixo), descobriu, em 2014, que tinha esclerose múltipla, uma doença neurológica crônica em que as células de defesa do organismo atacam o sistema nervoso central e provocam lesões cerebrais e medulares. “Acordei e estava com todo o lado direito do meu corpo paralisado. Aos poucos, aquela sensação foi passando, mas fiquei preocupada e falei com minha mãe, que é enfermeira. Ela logo pensou que poderia ser um problema neurológico e fui para o hospital. Fui internada e fiz uma série de exames. Quando estava internada, ouvia os médicos e enfermeiros cogitarem o que poderia ser e já fui investigando na internet. Recebi o diagnóstico depois de 15 dias”, lembra.

Burocracia irreversível?
Beatriz conta que criou com uma amiga um blog na internet para partilhar informações sobre a doença. “Não é fácil lidar com ela. Uma das fases mais desgastantes foi conseguir o medicamento na farmácia de alto custo. Você tem que preencher vários papéis para que o SUS libere o medicamento. Entre idas e vindas, demorou três meses para conseguir o remédio. Com a burocracia, ficamos com a impressão de não há um passo a passo para você conseguir a medicação. Isso dificulta a vida de quem precisa do remédio. Eu recebo de três e quatro ampolas de betainterferona 1A por mês, mas já tive problemas com a falta do medicamento e fiquei muito preocupada. Se parar de tomá-lo, podem ocorrer lesões irreversíveis que são causadas pela doença.”

Judicialização
Algumas pessoas que não conseguem o atendimento de saúde estabelecido pela Constituição acabam apelando para ações judiciais. Para José Alexandre, a judicialização afeta tanto municípios quanto Estados. “Há necessidade dessas ações quando existe impossibilidade de acesso da população aos serviços de saúde que deveriam estar disponíveis.

Os efeitos, que podem ser catastróficos, se situam na particularidade dos casos (medicamentos, próteses, órteses, etc.) e impactam uma coletividade que demanda serviços ou atendimentos similares, ou seja, ocorre numa situação de subfinanciamento. Quando o gestor cumpre ordens judiciais pode estar, ao mesmo tempo, desfinanciando outras ações e serviços de saúde”, observa.

Rede privada
Muitos falam que uma das saídas é buscar atendimento particular, mas em um país como o nosso, em que a população tem diversas carências, talvez não seja a melhor alternativa. Para o médico ortopedista Julian Rodrigues Machado, de 43 anos (foto a esq.), que trabalha no Instituto Hospital de Base, em Brasília, e atende pacientes do SUS há mais de 20 anos, esse sistema não tem como atender a grande maioria das pessoas da forma que a Constituição determina.

“Talvez a criação de um programa similar ao ObamaCare, criado nos Estados Unidos, fosse uma solução. Acredito que, para enfrentar as enfermidades crônicas, o melhor modelo seja juntar esforços públicos e privados com o objetivo de mudar o comportamento da população rumo a uma vida mais saudável”, afirma.

Mudanças?
Para o ortopedista, não há falta de médicos no Brasil. “Eles têm que ser mais bem distribuídos e com salários condizentes com as suas responsabilidades, além de existir um plano de carreira. Em relação aos medicamentos, as listas de remédios, que muitas vezes são regionalizadas, deveriam ser padronizadas nacionalmente. Acredito ainda que as eleições e a democracia na qual vivemos ainda são uma forma de trazer essas mudanças. O voto é a arma do cidadão. Se você se abstiver de votar, estará abrindo mão de seu direito e não conseguirá reivindicar as mudanças que são necessárias”, avalia.

Perspectivas
Para o especialista em saúde pública José Alexandre sempre há solução para problemas criados por nós e nossos representantes com alguns encaminhamentos possíveis para a manutenção e expansão do SUS. Ele cita “ampliação do gasto público social, contrária à visão das políticas de austeridade. Fazer uma auditoria da dívida pública, que nunca foi aprovada pelos Poderes Legislativo e Executivo federais, para reduzir os valores pagos com os juros da dívida pública, e fazer uma reforma tributária para que os mais ricos paguem mais e usar parte desses recursos para a saúde”, sugere.

Mobilização social
Para José Alexandre, a eleição é uma das formas de nos mobilizarmos socialmente. “É a partir da escolha de candidatos que podemos promover mudanças em nossa realidade. Sugiro que cada pessoa analise os planos de governo propostos pelos seus candidatos e veja se os direitos sociais e o SUS estão sendo defendidos e contam com propostas de expansão. Ressalto que as eleições são uma das formas de atuarmos socialmente e defendo que todos se mobilizem em associações, grupos, coletivos e não esperem apenas que nossos governantes mudem nossa vida para melhor”, conclui.

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