Vício em games atormenta a cada dia mais pessoas

Que cuidados você toma para não ficar dependente dos jogos eletrônicos?


Por Eduardo Prestes / Fotos: Marcelo Alves, Divulgação e Fotolia / Arte: Edi Edson

Já há algum tempo o mercado de games vem crescendo absurdamente em todo o mundo. O cinema e a indústria fonográfica que antes eram os carros-chefes nas vendas de entretenimento ficaram para trás. Só para que você tenha uma ideia, até o final deste ano, o segmento de jogos deve movimentar cerca R$ 641 bilhões na economia mundial.

De acordo com a DigiCapital, empresa suíça que conecta parceiros financeiros com talentos de desenvolvimento de software, a maior parte desse valor virá de jogos para dispositivos móveis, como smartphones e tablets, que devem representar cerca de R$ 226 bilhões ou 35% do total. Nesses dois dispositivos, a projeção para 2022 é de faturamento de R$ 358 bilhões. É tanto dinheiro que poucos imaginam.

Mais números
Não é por acaso que o número de desenvolvedores de jogos também está crescendo no Brasil. Segundo dados do 2º Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais, divulgados recentemente pelo Ministério da Cultura, o número de estúdios que desenvolvem games subiu de 142 para 375 na última meia década. Nos dois últimos anos, a produção chegou a 1.718 jogos, sendo que 43% deles foram feitos para dispositivos móveis, 24% para computadores, 10% para plataformas de realidade virtual e realidade virtual aumentada e apenas 5% para consoles de videogame. Houve também aumento de consumidores e com ele um efeito colateral que não pode ser ignorado: cresceu a quantidade de pessoas que está ficando viciada em jogos virtuais.

Questão de saúde
Elas ultrapassaram a linha tênue que separa o entretenimento do vício e estão em um caminho que pode não ter volta. Há casos em que essa dependência pode levar à morte (veja histórias nos quadros abaixo e ao lado). A questão é tão séria que no último mês de junho a Organização Mundial de Saúde (OMS) incluiu a obsessão por videogames como um dos problemas de saúde mental na 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID). A OMS descreve a compulsão por jogos eletrônicos como um “padrão de comportamento persistente ou recorrente”, podendo se tornar tão intenso que “toma a preferência sobre outros interesses da vida”. De acordo com a OMS, a classificação pode ajudar governos, pais e autoridades a identificar os casos de vício.

Encantamento
Para Paulo Silvino, de 36 anos (foto a dir.), doutor em sociologia e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), é preciso considerar alguns efeitos que o vício em games pode ocasionar. “Existe um certo encantamento pelos jogos que, lamentavelmente, parece contribuir para a deterioração das relações sociais e que limita a socialização e a sociabilidade. A meu ver isso também caracteriza um vício e traz transtornos tanto para a vida social como para a sociedade. As pessoas se isolam e acabam não atendendo aos compromissos que deveriam ter com a vida real. E nós precisamos ter convivência. É por meio dela que as crianças adquirem as noções de autoridade para a adolescência e para a vida adulta”, afirma.

Paralelo
Silvino explica que muitas práticas que temos em nosso cotidiano são aprendidas na infância. “Se elas são apresentadas para nós e não são estabelecidos os limites, isso vai se refletir lá na frente. Isso vale para quem vê o pai fumando ou bebendo, por exemplo. Meu pai não fumava e eu fumo e adquiri esse hábito pela influência dos amigos. Acredito que se ele fumasse, talvez o cigarro fosse mais predominante em minha vida e eu fumaria com frequência muito maior. Fazendo um paralelo com os games, é lamentável que muitos pais e mães deixem o celular na mão das crianças sem assumir o controle do uso. Não estão mensurando as consequências desse ato futuramente”, alerta.

Lado mesquinho
Para o professor, os games contribuem para a individualização das pessoas em um processo que teve início no século 20. “Não se pode demonizar os jogos, mas, muitas vezes, eles mercantilizam o nosso lado mais mesquinho. Com o game, eu consigo e posso estimular um desejo de ser violento, por exemplo. É curioso pois, ao capitalizar o nosso lado mais obscuro, o jogo nos leva para uma espécie de fuga que limita a socialização ao máximo. Com o joy stick na mão, acabamos comandando outra vida dentro do jogo virtual. As drogas também fazem isso com as pessoas que estão em situação de rua ou na Cracolândia, por exemplo, mas os games têm uma coisa mais tacanha ainda, pois, assim como o cigarro e o álcool, são aceitos pela sociedade”, avalia.

Convite
O jovem paulista Ivair Ferreira da Silva Junior, de 18 anos (foto a esq.), é um exemplo de quem ficou viciado em games rapidamente. “Eu nem gostava de jogar. Comecei a jogar quando um amigo me convidou. Achei até meio chato, só que, quando fui dormir, aquilo não saía da minha mente. Quando minha família e eu nos mudamos para outro ponto da cidade, da zona sul para a zona norte, acabei abandonando a escola e passei a jogar muito mais. Dormia às 4 horas da manhã e acordava já na fissura pelo jogo. Cheguei a jogar 16 horas seguidas. Parecia um zumbi. Tinha vezes em que eu não dormia. No máximo, tirava um cochilo de alguns minutos. Minha mãe deixava o café da manhã ou o almoço prontos e eu só parava para comer, subia para o meu quarto e já começava a jogar de novo. Eu nem limpava ou arrumava o meu quarto. Fiquei nove meses sem cortar o cabelo e não saía mais para encontrar os amigos ou jogar bola”, conta.

Distanciamento familiar
Com o passar do tempo, Ivair foi cada vez mais se distanciando de todos. “Quando aconteciam as reuniões de família lá em casa ou aniversários, eu nem descia para falar com as pessoas. Meus parentes perguntavam por mim e minha mãe dizia que eu estava no quarto. Quando chegavam lá para me cumprimentar, eu nem dava bola e continuava jogando. Minha família fez de tudo para me ajudar, mas não teve resultado. Me lembro de um dia, uma quinta-feira, quando recebi a visita de um voluntário da Universal que eu já conhecia. Ele chegou no quarto e tentava falar comigo, mas eu não respondia. Só dei uma resposta quando ali, na minha frente, ele mandou mensagens pelo WhatsApp no meu celular”, recorda.

Fundo do poço
Ivair só começou a pensar que tinha um problema com os games quando ocorreram dois fatos que o fizeram abrir os olhos. “Eu sempre era o primeiro a cumprimentar meu pai em seu aniversário e naquele ano esqueci completamente a data. Fiquei trancado no quarto jogando. Quando meu pai veio falar comigo e disse o quanto estava decepcionado comigo, meu mundo começou a desabar. Depois disso, minha mãe também me disse que estava desistindo de mim, pois não via nenhuma reação da minha parte para sair daquela situação. Aquelas duas conversas me deixaram pensando muito sobre o assunto. Eu tinha chegado no fundo do poço”, revela.

Cura
Depois disso, o jovem resolveu aceitar o convite feito pelo voluntário da Universal que havia visitado sua casa. “Minha mãe e minhas irmãs já lutavam por mim na Igreja. Comecei a participar da reunião da cura dos vícios. Minha cura não foi imediata, tive muitas recaídas até entender o quanto eu tinha que lutar para me livrar do vício. Umas das coisas que me ajudaram também foi ouvir a música A mente de um viciado, que conta o relato de um dependente e afirma que há uma saída. Eu vi essa chance e aceitei. Voltei a estudar e estou terminando o ensino médio. Se, antes, eu não sabia me comunicar com meus familiares, agora consigo demonstrar o que sinto e dar valor a eles. Pretendo cursar engenharia elétrica e me considero uma pessoa curada”, avalia.

Tratamento
O Pastor Murilo Dorini, de 35 anos (foto a esq.), que realiza o Tratamento para a Cura dos Vícios, no Templo do Brás, na Avenida Celso Garcia, 499, em São Paulo, afirma que o vício também é um problema espiritual. “Quando uma pessoa está lá na Cracolândia, ninguém quer saber dela. É preciso entender que há uma força do mal o tempo todo a influenciando para que ela permaneça no vício. Eu mesmo já passei por essa situação. Fui viciado por praticamente dez anos.

Minha mãe lutava por mim até que eu fiz um voto com Deus. Daquele dia em diante fiquei curado. Por isso, convido a quem necessita para participar das reuniões que fazemos”, afirma.

Efeitos dos jogos
As consequências que os jogos de celular e de computador podem causar nos usuários vêm sendo objeto de pesquisa científica já há algum tempo. Um estudo recente, realizado pela Universidade Estadual da Califórnia, nos Estados Unidos, apontou que os games que instigam o vício podem ter efeito no cérebro similar ao abuso de drogas ou de álcool. A maior preocupação é que essa alteração do sistema de recompensa cerebral possa tornar as crianças mais suscetíveis a outros vícios no futuro.

Exemplo
O trabalhador autônomo Darci Mauro da Silva, de 43 anos (foto a dir.), pode ser considerado um exemplo de que isso realmente acontece. “Na década de 1980, eu tinha 13 anos e comecei a jogar em um fliperama perto de casa, depois que amigos me convidaram. Fui escondido dos meus pais e achei bacana. Era divertido, mas comecei a perder o controle.

Levantava cedo e já nem ia para a escola. Como meus pais não me davam dinheiro, comecei a furtar a bolsa da minha mãe. Foi praticamente a porta de entrada para outros vícios. Na época, não existia a restrição de fumar em lugares fechados. Eu via o pessoal mais velho fumando no fliperama e bateu a curiosidade de experimentar. Foi uma sensação bacana. Depois experimentei cheirar cola e jogar fliperama. Parecia que estava dentro da tela. Com o passar do tempo, minha vida foi correndo, veio a maconha até que cheguei na cocaína. Por causa delas, cheguei a ser preso, perdi dois casamentos, o emprego e, por fim, a dignidade. Ninguém acreditava em mim”, conta.

Orgulho
O vício dele só foi aumentando. “Meu maior problema era admitir que estava viciado. Eu era orgulhoso, mas veio a depressão e um vazio. Só não me matei porque pensei nos meus filhos. Numa madrugada, vi o programa sobre o Tratamento para a Cura dos Vícios na TV. Já tinha ouvido falar de clínicas e tratamentos que não davam certo e num primeiro momento rejeitei aquilo, pois achava que não precisava de ajuda. Mas as palavras que ouvi batiam com o que eu estava sentindo. Resolvi participar de uma reunião. Lá, entendi que o vício era um espírito que agia na minha mente e decidi seguir a disciplina do tratamento para me curar”, lembra.

Voluntário
Hoje, sempre que pode, Darci é voluntário para ajudar quem passa pelo mesmo problema que ele teve. “Vou nas ‘biqueiras’ onde antes buscava drogas e ajudo outras pessoas. Digo a elas que o vício das substâncias químicas, dos jogos e da pornografia tem cura. Assim como teve para mim, também pode ter para elas. Minha vida hoje está restaurada. Me reconciliei com a minha esposa, do segundo casamento, e minha área financeira está fluindo bem. Fui curado e recebi a certeza de que tudo na minha vida dará certo”, conclui.

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