PANDEMIA: O saldo catastrófico de terem fechado as escolas

Entidades internacionais advertem sobre prejuízos no estudo e no desenvolvimento de crianças e jovens, além de extraordinárias perdas econômicas futuras

No Brasil, a maioria dos Estados voltará a ter aulas presencialmente em 2022, o que vale para os ensinos infantil, fundamental, médio e superior tanto público como particular. Poucos Estados ainda não determinaram qual será o regime de aulas e, na maioria deles, escolas particulares estão livres para decidir o que julgam melhor, podendo, inclusive, adotar o ensino híbrido (parte presencial, parte on-line).

Desde o início da pandemia, o ensino tem sido on-line, mas nem todos os alunos tiveram acesso à internet. Em junho de 2021 (mais de um ano depois do início da pandemia), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgou uma pesquisa mostrando que 35% dos alunos ainda não tinham internet adequada para as aulas. Já 31% não tinham equipamentos eletrônicos para isso. Além disso, 35% não tinham um adulto com tempo para auxiliar nas atividades e 24% deixavam de estudar para fazer atividades domésticas.

Em resumo: as aulas on-line foram aproveitadas por poucos alunos, quase sempre de classes sociais mais altas.

Por esses e muitos outros motivos, como falta de ambiente adequado para estudar, o ensino a distância (EAD) não tem o mesmo efeito do presencial, segundo os especialistas. Uma das maiores autoridades em educação no mundo, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) afirma que as consequências negativas vão bem além dos boletins escolares: “o fechamento das escolas acarreta altos custos sociais e econômicos para as pessoas nas diferentes comunidades. Seu impacto, porém, é particularmente grave para meninos e meninas mais vulneráveis e marginalizados, assim como para suas famílias”. Segundo o órgão, as diferenças educacionais que já existiam foram agravadas pela pandemia, trazendo consequências individuais, familiares e sociais com as escolas fechadas. Acompanhe alguns dos malefícios das escolas fechadas destacados pela Unesco: Aprendizagem interrompida: quando escolas fecham, crianças e jovens ficam sem oportunidades de crescimento e desenvolvimento social. As diferenças aumentam para os menos privilegiados, com menos oportunidades educacionais além da escola.

Má nutrição: muitos alunos dependem das refeições gratuitas fornecidas nas escolas para terem alimentação e nutrição saudáveis. Sem boa alimentação, é impossível aprender algo.

Confusão e estresse para professores: em geral, eles não têm certeza de suas obrigações e de como manter vínculos com os estudantes para apoiar sua aprendizagem. As transições para plataformas de ensino a distância tendem a ser confusas e frustrantes, causando licenças ou desligamentos desses profissionais. No Brasil, apesar de os professores terem se dedicado, eles não foram preparados para o EAD nem receberam as ferramentas necessárias para fazer isso.

Pais despreparados: muitas vezes eles são solicitados a ajudar na aprendizagem das crianças em casa, mas têm dificuldades. É ainda mais difícil para pais com nível educacional e recursos limitados.

A tecnologia não dá conta: a demanda por ensino a distância dispara e sobrecarrega os portais existentes para a educação remota. A transferência da aprendizagem das salas de aula para as casas em grande escala e de forma apressada apresenta enormes desafios técnicos.

Lacunas no cuidado às crianças: na falta de outras opções, pais que trabalham deixam as crianças sozinhas e isso pode levar a comportamentos de risco, incluindo pouca atenção aos estudos ou passar o dia nas ruas, sob más influências.

Altos custos econômicos: pais são mais propensos a faltarem ao trabalho para cuidarem dos filhos, resultando em perdas salariais e de produtividade. Além do risco ao aprendizado do filho, surge o risco do desemprego na família.

Aumento de abandono escolar: ninguém pode garantir que alunos retornem e fiquem na escola quando elas são reabertas, o que piora com fechamentos prolongados e quando impactos econômicos pressionam crianças a trabalharem e gerarem renda para as famílias com problemas financeiros. De fato, pelo menos 10% dos alunos brasileiros não pretendem voltar às escolas em 2022, segundo a Unicef.

Desafios para validar a aprendizagem: a avaliação escolar, que já não é muito justa em condições normais, torna-se impossível no EAD, o que pode levar à reprovação de bons alunos ou aprovação de quem não aprendeu o suficiente.

Último recurso
Conforme declarou Mauricio Cunha, em 2021, então secretário nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, durante a pandemia o Brasil regrediu 20 anos na educação, o que impacta toda a sociedade.

A própria Unicef considera um possível novo fechamento das escolas “desastroso”, conforme publicou a diretora-executiva do órgão, Henrietta Fore, para quem “a escola deve ser o último lugar a fechar e o primeiro a abrir”. Ela acrescenta que o mundo presencia uma “sombra pandêmica” que “aniquilou décadas de progresso na educação e tornou a infância irreconhecível”, um “risco à saúde mental” dos alunos.

Para a Unicef, essa geração de crianças em idade escolar pode perder, ao todo, US$ 17 trilhões em ganhos ao longo da vida se as instituições de ensino fecharem novamente. Por isso, o órgão adverte que 2022 deve ser fortemente direcionado à educação e aos interesses dos menores para minimizar os danos do fechamento das escolas.

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Redação / Foto: getty images