Inteligência não é dom, mas uma habilidade que pode ser desenvolvida

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Diferentemente do que se acreditou durante séculos, a inteligência não é uma característica determinada desde o nascimento. Hoje, sabemos que se trata de um processo em construção constante e que inteligência se aprende em qualquer fase da vida.

A neurociência mostra que o cérebro forma novas conexões neurais e se adapta continuamente aos estímulos e ao aprendizado. Essa propriedade, conhecida como neuroplasticidade, amplia a compreensão de como aprendemos. O cérebro funciona como um músculo: depende de estímulo, interesse e prática, mas, sem uso, perde eficiência.

O cérebro jovem absorve com mais facilidade certos tipos de aprendizado, especialmente linguagem e habilidades motoras. Ainda assim, isso não coloca os adultos em desvantagem.

Com mais foco, maior disciplina e um repertório já construído, o aprendizado passa a ocorrer de outra forma, mais intencional, mais organizado e, em muitos casos, mais aprofundado.

Como o cérebro humano aprende

Quantos de nós acreditamos que assistir à aula é aprender? Segundo Pierluigi Piazzi, professor, físico e especialista em aprendizagem, essa associação é equivocada. A aula tem a função de apresentar o conteúdo e organizar o raciocínio, o que é feito por um professor, enquanto os alunos assistem de forma passiva e coletiva. Porém, esse contato inicial, por si só, não consolida o conhecimento.

O aprendizado começa depois, quando o aluno retoma o conteúdo de forma ativa e solitária. Para o professor Pier, não é possível estudar em grupo, pois é preciso que cada aluno trabalhe ativamente com as informações que recebeu, o que envolve esforço ativo, repetição, revisão e aprofundamento.

É um processo que exige método, como reler, resumir com as próprias palavras (preferencialmente escrevendo à mão) e resolver exercícios, testando sua própria compreensão. Nesse estágio, o cérebro fortalece conexões e transforma o conteúdo em conhecimento consolidado.

Nunca foi tão fácil aprender

Pela primeira vez na história, o acesso ao conhecimento deixou de ser um privilégio restrito a quem tinha dinheiro, tempo e podia se deslocar fisicamente pelo mundo. A internet transformou qualquer celular em uma porta de entrada para livros, aulas, cursos e conteúdos produzidos em diferentes partes do mundo.

Se, por um lado, a barreira de acesso deixou de existir, por outro, a questão agora é fugir da “infoxicação”, o excesso de informação. A quantidade sem precedentes de informações toma muito do nosso tempo, as fake news confundem nosso julgamento e a velocidade das notícias torna tudo mais superficial e menos profundo.

Esse cenário exige uma maior capacidade de discernimento e senso crítico. Desenvolver inteligência envolve, necessariamente, a habilidade de filtrar tudo o que chega até nós.

Mais do que nunca, precisamos pesquisar e identificar se as fontes são confiáveis, reconhecer superficialidades e deixar os partidarismos de lado. Aprender não passa por aquilo que achamos ou sentimos, mas pelo que de fato é.

Embora a tecnologia tenha avançado a passos largos, especialmente com a inteligência artificial, o ponto central permanece: inteligência se aprende ao longo da vida por meio de processos que só os seres humanos são capazes de desenvolver.

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Colaborador

Patricia Lages / Foto: songsak chalardpongpun/getty images