A permanência escolar como novo desafio

O acesso à educação não é mais o único problema. A evasão escolar ganha destaque em meio à vulnerabilidade e à quebra de vínculos familiares

Imagem de capa - A permanência escolar como novo desafio

Durante muitas décadas, o principal desafio da educação brasileira foi garantir vagas para todos. Hoje, o problema mudou: não se trata apenas de levar o estudante para a sala de aula, mas de mantê-lo lá. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativos a 2024, mostram que 8,7 milhões de jovens de 14 a 29 anos não concluíram o ensino médio, seja por abandono durante o ano letivo, seja por evasão, quando o aluno, aprovado ou reprovado, não se matricula no ano seguinte. Embora o número tenha diminuído em relação a 2023 e a 2019, a situação ainda preocupa especialistas.

A assistente social Gabriele Lima, que atuou por oito anos como conselheira tutelar, explica que a evasão tem raízes complexas e múltiplas. Segundo ela, fatores sociais, econômicos, territoriais e emocionais pesam na decisão dos jovens. Ela destaca que, entre eles, “a desorganização familiar e a quebra dos vínculos têm sido importantes condicionantes para a evasão escolar”, sobretudo quando não há envolvimento dos responsáveis com a educação dos filhos.

A soma dos fatores

A evasão escolar raramente tem uma causa única. O afastamento da escola, em geral, resulta do acúmulo de problemas, como pobreza, insegurança alimentar, trabalho infantil e trabalho precoce — o primeiro é ilegal e viola direitos da criança; o segundo, embora permitido em algumas condições, ocorre quando as atividades não são adequadas à faixa etária e podem comprometer o desenvolvimento físico, emocional ou educacional —, além de dificuldades de aprendizagem sem suporte adequado, bullying esofrimento emocional.

Em muitos casos, a violência nos territórios também impõe barreiras concretas: rotas bloqueadas por facções e controle de circulação entre bairros obrigam estudantes a abandonar a rotina escolar.

A vulnerabilidade familiar surge como elemento central. “Ambientes sem comprometimento com a educação tornam desfavorável a permanência do aluno na escola”, diz Gabriele. Na adolescência, fase em que o jovem já encontra possibilidades de trabalho informal, o risco de
evasão aumenta.

Impactos imediatos

A evasão escolar produz efeitos imediatos, como queda da autoestima, desmotivação e isolamento social. A longo prazo, as consequências se intensificam: jovens sem ensino médio enfrentam maior dificuldade de inserção no mercado formal, ganham salários mais baixos e estão mais expostos à informalidade. Para a sociedade, a evasão compromete o desenvolvimento econômico e aprofunda desigualdades.

Gabriele enfatiza ainda que a evasão escolar revela múltiplas violações de direitos. Muitos estudantes acabam assumindo responsabilidades de adultos antes do tempo, ficam sujeitos à falta de proteção social e a contextos de violência que restringem suas escolhas.

Sinais de alerta

Pais, responsáveis e escolas devem estar atentos a sinais que podem indicar situações de trabalho infantil, violência, bullying ou sofrimento emocional, fatores que aumentam o risco de evasão escolar, como:

  • Faltas frequentes ou abandono repentino das aulas;
  • Queda brusca no rendimento escolar;
  • Mudanças de comportamento;
  • Isolamento; e
  • Medo ou resistência em frequentar a escola.

Programas de permanência e apoio

Existem políticas públicas importantes que contribuem para a permanência escolar, como programas de transferência de renda, alimentação escolar, busca ativa — realizada em parceria entre a escola e o Conselho Tutelar — e acompanhamento socioassistencial.

O serviço social atua diretamente na identificação de violações de direitos, no acompanhamento das famílias, na articulação da rede de proteção e na defesa do direito à educação. Por isso, é fundamental a presença e a atuação do serviço social nas escolas.

Onde buscar ajuda

A intervenção precoce é essencial para evitar que a situação evolua para o abandono definitivo. Pais e responsáveis podem buscar orientação e apoio nos seguintes locais:

  • Escolas;

  • Unidades de saúde;

  • Serviços da rede socioassistencial do município. Por exemplo:

  • Centro de Referência de Assistência Social (Cras), que atua na prevenção de situações de risco;

  • Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), que intervém nos casos em que já houve violação de direitos; e Conselhos Tutelares.

A responsabilidade é de todos

Gabriele afirma que o enfrentamento da evasão escolar exige o envolvimento direto de famílias, escolas, poder público e rede de proteção. A participação da família é decisiva. Gabriele ressalta “que o diálogo familiar é fundamental para compreender o que crianças e adolescentes estão vivenciando, o que permite identificar dificuldades precocemente e evitar o rompimento com a escola”.

As instituições de ensino também têm papel estratégico ao oferecer acolhimento e reconhecer as realidades sociais dos estudantes. Já o poder público precisa fortalecer políticas de permanência escolar, combater o trabalho infantil, integrar ações de educação e assistência social e ampliar medidas de segurança em áreas vulneráveis.

Saiba mais

Leia as demais matérias dessa e de outras edições da Folha Universal, clicando aqui. Confira também os seus conteúdos no perfil @folhauniversal no Instagram.

Folha Universal, informações para a vida!

imagem do author
Colaborador

Núbia Onara / Foto: doomu/ getty images