“Eu vi um menino de 14 anos morrer no meu lugar”
Dependente químico e traficante, Temístocles Duarte dos Santos chegou a ser conhecido como "o Filho do Diabo"
O empresário Temístocles Duarte dos Santos, de 60 anos, nascido em Salvador (BA), cresceu em um lar totalmente desestruturado e cheio de brigas. Filho de um pai usuário de drogas e traficante, ele presenciou diversas brigas que o vício de seu pai causava e o momento mais marcante de sua infância foi assistir à prisão dele.
Duarte relata que conheceu o mundo do crime na infância e essa fase de sua vida foi marcada por idas e vindas ao presídio. Já sua adolescência foi o momento em que ele mesmo e seu irmão se envolveram com o tráfico.
Sua mãe então se mudou para São Paulo para tentar uma nova vida e tirar os filhos daquela situação, mas os problemas pioraram. Duarte foi preso e completou o aniversário de 18 anos no cárcere.
Quando foi solto, o rapaz voltou para sua cidade natal e foi preso novamente. Dessa vez, ao ser solto, ele voltou para São Paulo. Desesperada, a mãe dele buscou ajuda em diversas religiões, mas não obteve o resultado esperado. “Eu fiz um pacto com o diabo. Se ele me desse todas as drogas que eu quisesse, eu daria minha vida para ele”, conta Duarte.
“O tráfico me adotou”
Cansada de sofrer, a mãe do rapaz o colocou para fora de casa. Ele lembra como foi aquele episódio: “fiquei sem chão e sem saber o que fazer. Sem saber para onde ir, fui morar na favela e eles se compadeceram da minha situação e o tráfico me adotou”.
Evidentemente, aquela “adoção” não poderia resultar em algo bom. “Comecei a usar tanta droga – cigarro, bebida, maconha, cocaína, lança-perfume e crack – que os traficantes chegaram a falar que iam me matar porque eu estava virando um ‘noia’. Minha mãe falava que eu era um pau que nasceu torto e que morreria torto”, relata.
Tempos depois, Duarte começou a trabalhar e conheceu uma pessoa, se casou, teve dois filhos e até tentou levar uma vida melhor. Ele ficou “bem”, mas por pouco tempo. Por causa dos vícios, ele perdeu família, emprego e tudo que tinha conquistado. Sua esposa o traiu e o abandonou.
Ele conta que se sentiu no fundo de poço quando quase morreu, mas outra pessoa foi baleada em seu lugar: “eu vi um menino de 14 anos morrer no meu lugar, porque a bala era para mim e acabou o acertando. A morte dele me deu condições de escapar”.
Duarte fugiu dali sem rumo e ficou cerca de 15 dias desorientado, “andando para cima e para baixo”. Foi quando ele encontrou uma Universal em um local pelo qual ele já tinha passado várias vezes, mas nunca notara a igreja. Uma voluntária da Universal o convidou para entrar na reunião de libertação que estava acontecendo naquela hora. “Pela insistência da obreira, decidi entrar. Eu estava tão carregado e pesado que passei mal e manifestei com espíritos malignos. Uma das coisas que mais me chamaram atenção foi que aquele espírito falou que estava na minha vida por causa do ódio que eu nutria pela mãe dos meus filhos por ela ter me traído e me deixado”, revela.
Ele relata que, ao voltar a si, recebeu uma orientação do Pastor, que falou sobre o perdão. A princípio, Duarte não quis perdoar, mas o Pastor explicou a ele que era uma troca com Deus: ele precisava perdoar para então se libertar e depois receber o Espírito Santo.
Ao entender a importância do perdão, ele procurou sua ex-esposa. “Quando a vi, pedi perdão. No mundo do crime não existe perdão e pedi-lo é uma situação humilhante, mas não me senti humilhado. Eu sabia que estava fazendo o certo. Quando saí dali, uma alegria tomou conta de mim”, detalha.
Depois de pedir perdão à ex-companheira, Duarte retornou à Universal, onde foi batizado nas águas e iniciou sua caminhada na fé, em 1995. Ele passou a buscar também pelo Espírito Santo. Ele conta o que ocorreu ao recebê-Lo: “nasceu uma alegria imensa no meu interior, que nunca tinha sentido, e uma certeza que eu nunca tinha visto. Saí dali querendo falar para todas as pessoas o que eu estava sentindo”. Em um ano, Duarte se libertou, se batizou nas águas, recebeu o Espírito Santo e passou a servir a Deus como obreiro.
Ele lembra que, enquanto estava na criminalidade e nos vícios, “não tinha vontade de viver. Eu vivia em uma prisão. Para mim, a vida era me drogar. Eu não tinha prazer em nada. Lembro que, algumas vezes, eu acelerava o carro na frente de algumas carretas, como forma de brincadeira, mas, na verdade, eu queria morrer, por não aguentar aquele vazio. Meus amigos me chamavam de ‘Filho do Diabo’. Quando Deus me mostrou essa proposta de mudança de vida, eu entendi qual é o lado bom e qual é o ruim, então minha entrega foi rápida. Eu nunca tinha ouvido falar de um amor tão grande quanto o de Deus. Minha mãe, que eu achava que me amava, me colocou para fora de casa, mas Deus me aceitou do jeito que eu estava”.
Ele entendeu que somente o Espírito Santo é capaz de trazer a paz e a alegria que tanto procurava. “O Espírito Santo é minha razão de viver. Estamos aqui, mas existe um lugar melhor, Ele me ensina a viver neste mundo em que vivemos, me ensina a ser luz no meio das trevas”, afirma.
Mudança completa
Duarte conheceu uma pessoa dentro da igreja e se casou. Depois de 13 anos, ele se divorciou e perdeu tudo novamente. “Mais uma vez me vi em um deserto, mas dessa vez havia uma grande diferença: eu tinha certeza de que Deus estava comigo e que eu precisava passar por aquilo para provar a minha fé em Deus”, conta.
Durante três anos, Duarte passou por momentos difíceis, mas utilizou sua fé para vencê-los. Após isso, em 2010, conheceu a mulher que seria sua esposa. Depois de vencer seus traumas, vícios, a criminalidade e enfrentar dois divórcios, ele construiu uma família baseada nos ensinamentos de Deus. “A alegria que o Espírito Santo nos dá não tem dinheiro no mundo que pague. É algo que faz com que tenhamos paz internamente, mesmo que tudo esteja difícil lá fora. Só quem tem o Espírito Santo sabe o que é isso”, conclui.
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