Estamos nos separando, mas com amor?

Imagem de capa - Estamos nos separando, mas com amor?

“Não foi uma decisão fácil, nem impulsiva. Foram praticamente 25 anos de relacionamento e 14 anos de casados. Com altos e baixos, às vezes mais felizes, às vezes menos, mas sempre inteiros e dispostos a fazer o nosso melhor. E fizemos. Não teve briga, mágoa, traumas. A gente conseguiu enxergar que esse era o melhor caminho e vamos deixar de ser um casal do mesmo jeito que a gente foi um: com muito amor, respeito e amizade infinita. A família que a gente construiu é para sempre. E o nosso amor também (…). A gente se ama muito, somos melhores amigos e assim vamos continuar a ser. Existe uma amizade, uma intimidade, um amor de 24 anos … É uma decisão que a gente já tomou há bastante tempo. (…) Foi um processo longo, de muita conversa, e que a gente descobriu um carinho diferente. (…) A gente está ressignificando esse amor, e estamos indo bem (…)”. Essas aspas são de um casal famoso que se separou recentemente.

Publicamente assistimos, com pesar, a recentes colapsos matrimoniais. As razões que têm levado muitos a chegarem a essa decisão cabem sempre a eles, obviamente, e respeitamos, mas algo não soa bem. Assim, parece que existe um esforço para normalizar aquilo que é bastante difícil de compreender. Afinal, teria o amor licença poética para, paradoxalmente, acompanhar uma separação? “Estamos nos separando, mas com amor”, ensaiam e repetem as celebridades. Agora, como esse enlace matrimonial do amor com a separação é possível beira a incompreensão. Como se separar em nome do amor? É no amor que juramos estar junto na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nos melhores e nos piores momentos. Esse mesmo amor, que não é de temporada e não deturpa o que, como adultos, sabemos muito bem o que é.

O amor idealizado pelo Criador é “paciente e bondoso. Não é ciumento, nem presunçoso. Não é orgulhoso, nem grosseiro. Não exige que as coisas sejam à sua maneira. Não é irritável, nem rancoroso. Não se alegra com a injustiça, mas sim com a verdade. O amor nunca desiste, nunca perde a fé, sempre tem esperança e sempre se mantém firme.” (1 Coríntios 13, NVI).

Então, como entender a alegação de que o amor pode ser ressignificado, aquele amor que, um dia, impactou os dois e os levou a compartilharem uma vida? Acaso existiria amor cientificamente em mutação para uma nova forma mais evoluída? Ou estaríamos assistindo a real (e teatral) realidade que enverniza o divórcio? A última hipótese parece a certa. Se a separação não significa “que você não ama mais”, significa o quê?

Recentemente, o Brasil ultrapassou a marca de 1 milhão de divórcios extrajudiciais, ou seja, realizados por meio de cartórios, sem necessidade de um processo na Justiça: até junho de 2023, o País somava 1.025.205 processos dessa natureza. E, vamos combinar, não houve 1.025.205 amores ressignificados. Nenhum rompimento tem resquícios de amor. A gente não faz voto para viver o resto da vida com o trabalho, nem com pai e mãe, mas com a pessoa com quem nos comprometemos. Só que, com o passar do tempo, a mesma pessoa que antes causava frio na barriga (muito bom, por sinal) passa a provocar, estranhamente, parte da nossa humanidade. E isso é muito bom também! É no casamento que se tem tempo para conhecer todas as nuances que vem com o juntar das escovas de dentes, sendo esse um grande diferencial da solteirice, pois, em um matrimônio, deixamos de ser quem somos para nos tornarmos apenas um.

No entanto, em uma geração de ressentidos, de amores líquidos e voláteis que se esvaem por todos os sentidos (e por sentido nenhum), a palavra “amor” vira “a-mor” que vira “a morte” – o “ressignificar”, na verdade, é esse. Hoje, a morte que anda separando as pessoas não é física, mas a morte do “amor”: diante do divórcio, o “amor” já está morto e os envolvidos, de certa forma, o sepultam. Em suma, é preciso muita imaginação para acreditar que, diante do divórcio, esse “amor-defunto” esteja ali.

imagem do author
Colaborador

Redação / Foto: Jamie Grill/getty images