Quanto vale transmitir um crime brutal?

Cenas na internet banalizam e escancaram violência

Imagem de capa - Quanto vale transmitir um crime brutal?

Imagine a cena: a polícia cerca um supermercado depois de receber um chamado informando que um homem começou a disparar tiros no local. Você pode até pensar, ‘acho que já vi esse filme’, mas está enganado, pois, não se trata do último blockbuster que estreou nos cinemas. As cenas impactantes que você está tentando imaginar foram reais. Elas ocorreram no dia 22 de março em Boulder, no Estado do Colorado, no oeste dos Estados Unidos.

Dez pessoas foram mortas pelo atirador, entre elas o policial Eric Talley, de 51 anos, que tinha sete filhos. Ele foi o primeiro a chegar ao local e foi baleado pelo assassino que usava um fuzil semelhante a um AR-15. O atirador agiu sozinho e, durante o confronto, foi atingido na perna, levado para o hospital e depois encaminhado a um presídio. Ainda não se sabe por que o homem realizou os disparos.

Esse ataque marcou o segundo tiroteio em massa nos Estados Unidos em uma semana. Seis dias antes, oito pessoas foram baleadas em três locais diferentes: uma casa de massagem e dois spas, em dois condados do Estado americano da Geórgia. Entre os mortos estavam seis mulheres asiáticas.

Já no último dia de março, quatro pessoas foram mortas, incluindo uma criança, em um tiroteio em um edifício comercial em Orange, a 30 quilômetros do centro de Los Angeles. A polícia trocou tiros com o atirador, que foi preso. Além das mortes, duas pessoas ficaram feridas. Não se sabe o que motivou os assassinatos.

Mas, diferentemente desses episódios, o que ocorreu em Boulder trouxe uma surpresa: o crime foi transmitido ao vivo pela internet. O streamer Dean Schiller começou a gravar dentro do supermercado e a transmitir as imagens logo depois do início do ataque e continuou gravando por mais de três horas, mesmo depois que a polícia pediu que parasse.

Schiller foi criticado na internet por não ter ligado para o serviço de emergência ou tentado auxiliar as vítimas que fugiam do prédio. Na transmissão, ele também especulou sobre o que teria motivado o atirador, além de filmar rapidamente os corpos das vítimas e ainda revelar táticas policiais durante a abordagem.

Em comunicado, o YouTube afirmou que não removerá o vídeo de três horas do tiroteio que alcançou uma audiência ao vivo de cerca de 30 mil pessoas. Embora a empresa censure “conteúdo violento com a intenção de chocar ou repugnar os espectadores”, são permitidos na plataforma “vídeos com notícias ou contexto de documentário”.

Mesmo que o YouTube tente justificar a manutenção do vídeo na plataforma, algumas perguntas precisam ser feitas: quem assiste a esse tipo de registro se compraz com o sofrimento alheio? Quem filma situações assim, com morte e sofrimento, está realmente preocupado em ajudar ou está interessado apenas em promoção pessoal? O que é mais importante: o registro das imagens ou as vidas das vítimas?

A verdade é que vídeos como esse, que são visualizados por milhares de pessoas e deveriam chocar a sociedade, estão banalizando cada vez mais a violência. Quem os assiste vê apenas mais um filme, contendo mais um tiroteio, com mais mortes. E você, se interessa por esse tipo de conteúdo?

imagem do author
Autor

Eduardo Prestes / Fotos: reprodução