O caráter controverso dos "fura-filas" da vacina

Imagem de capa - O caráter controverso dos "fura-filas" da vacina

O Brasil é o País do “jeitinho”: aquela coisa absurda e lamentável de um tentando se dar bem em cima do outro, de passar por fora das regras para levar alguma vantagem, de questionar com a famosa frase “você sabe com quem está falando?” e de achar que ser desonesto é ser esperto – com um rol de seguidores aplaudindo e imitando.

Durante a pandemia do novo coronavírus que assola o mundo essa situação não está diferente. Parece até que se potencializou. Dizem que é na hora da dificuldade que o ser humano se defronta com seu verdadeiro caráter. O que dizer, então, dos tempos atuais?

Não é novidade que ainda não há vacinas contra a Covid-19 para todos. Não há doses suficientes nem mesmo para os grupos prioritários, do qual médicos e profissionais da linha de frente fazem parte. Por esse motivo, muitos estão conseguindo “furar a fila” para conseguir a imunização.

Corrupção?
Há brasileiros que ardem de raiva quando veem políticos envolvidos em falcatruas, mas alguns desses mesmos brasileiros acham que pagar propina para não levar uma multa de trânsito ou dar aquela gorjetinha para o garçom conseguir uma mesa melhor no restaurante não são atitudes corruptas. Sim, tudo isso é corrupção. Ponto. Furar a fila da vacina também é.

Em diversas regiões do País há denúncias de gente recebendo a vacina sem estar ou ser do grupo de risco. Promotores de Justiça e procuradores da República de diferentes regiões apuram denúncias desse tipo. A Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) aprovou um projeto de lei que prevê a cobrança de multa de até R$ 100 mil para quem furar a fila da vacinação no Estado.

Problema nacional
Um levantamento da Agência Brasil aponta que, em ao menos dez Estados, além do Distrito Federal, existem denúncias desse tipo. Em Manaus, capital do Amazonas, que chama a atenção do mundo inteiro pela calamidade pública causada pela pandemia – com falta de leitos, de oxigênio e de planejamento –, a vacinação chegou a ser suspensa no fim de janeiro por causa das denúncias dos fura-filas locais. A população foi prejudicada pelos “espertos” que se vacinaram sem nem mesmo preencher os requisitos de prioridade e depois mais ainda com a suspensão da imunização.

O governo manauara agiu certo com a suspensão, apesar de tudo, para apurar a corrupção, segundo a Agência Brasil. Foi refeita uma lista dos que deveriam ser vacinados, com a ordem de que ninguém fora dela recebesse o medicamento, e a vacinação foi retomada dois dias depois.

Manaus é só uma amostra do que acontece ou pode acontecer no resto do País. Na hora que ocorre uma emergência, quando se espera que a ordem social seja firme a ponto de que todos sejam atendidos e se ajudem, os sem-caráter de plantão correm na frente para tirar vantagem.

Não se justifica o erro
Quando alguém der a desculpa esfarrapada de “estou fazendo isso pela minha sobrevivência e dos meus”, não aceite passivamente, pois você fará parte da cadeia da corrupção ao aceitá-la e justificá-la. Todos nós precisamos sobreviver. Sem distinção.

Se mais pessoas usassem suas máscaras e evitassem aglomerações, o quadro seria outro. Independentemente de vacina, esses cuidados precisam continuar. Mas, infelizmente, não é o que se vê por aí.

Então, antes de se indignar com a corrupção dos outros, que tal usar a sua máscara e também fazer a sua parte? Não adianta reclamar dos outros e não olhar para as próprias atitudes erradas.

imagem do author
Autor

Nubia Almeida