A educação e seu poder de mudar as estatísticas

Estudo revela que adolescentes que encontram um ambiente escolar adequado tendem a não ser vítimas da criminalidade e ainda conseguem ter melhor qualidade de vida na fase adulta

Uma influência poderosa na vida de todo ser humano vem da educação. Tudo que é ensinado a ele molda seus pensamentos, ideologias e até suas escolhas e perspectivas de futuro. Segundo o dicionário Houaiss, a educação garante “a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano” e os dois ambientes responsáveis por isso são o familiar e o acadêmico.
Com o passar dos anos, a dinâmica familiar mudou e pais, mães e tutores precisam trabalhar fora de casa, o que fez com que as crianças fossem inseridas cada vez mais cedo no ambiente escolar. No entanto, a jornada de trabalho geralmente é de oito horas por dia, além de uma hora de almoço e do tempo de deslocamento, mas, no Brasil, a carga horária padrão nas escolas é de apenas cinco horas.

Essa diferença de horários entre os responsáveis e as crianças e adolescentes faz com que muitos deles passem boa parte de seu dia a dia sem a companhia, supervisão e orientação de um adulto. Logo, com a internet, amizades e a curiosidade, outras influências são integradas à vida desse cidadão em formação.

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Pesquisa e Ensino (Insper) avaliou os impactos que o estudo em período integral, ou seja, dez horas por dia, têm na vida de um estudante. A pesquisa analisou a situação em Pernambuco, que, desde 2004, investe nesse modelo de ensino em toda a rede.

O estudo mostrou que, além de os alunos receberem melhor base acadêmica, houve melhor desempenho em vestibulares, ampliação no número de matrículas no ensino superior, mais empregabilidade, qualidade de vida e redução da desigualdade. Outro índice também chamou a atenção: a redução de até 50% na taxa média de homicídios e óbitos entre rapazes de 15 a 19 anos – idade em que os jovens estão cursando o ensino médio.

A educadora e psicopedagoga Erica Silva destaca que os jovens dessa faixa etária têm mais chances de ficar na rua, iniciar relacionamentos e conhecer os vícios. Então, “a escola é uma instituição que acaba sendo um ambiente de proteção, no qual sempre existe alguém os acompanhando”. Dessa forma, passando mais tempo em um ambiente escolar preparado, eles tendem a não se envolver em situações arriscadas, principalmente em regiões nas quais as condições socioeconômicas não são favoráveis.

Além do tempo na escola
Com a implementação do período integral de estudo, as escolas também aderem a um currículo acadêmico diferenciado, que envolve aulas ligadas a tecnologias, artes e esportes, entre outras – e isso não ocorre só em Pernambuco, mas em todas as escolas brasileiras que adotam esse modelo de ensino. Ainda respeitando as diretrizes determinadas pelo Ministério da Educação, com o tempo restante, os estudantes ganham protagonismo e autonomia com um currículo voltado a projetos de vida e capacitação técnica. A psicopedagoga Cristiane Endo relata que “os estudantes vão aprendendo que são importantes para o mundo porque nesses projetos eles precisam pesquisar e, muitas vezes, propor uma solução para algum problema e ainda colocar em prática o aprendizado. Isso ajuda no desenvolvimento desse ser como cidadão, porque ensina que eles podem modificar a realidade”.

Ocupando o tempo com atividades que agregam, os estudantes percebem que a educação pode ser um grande aliado no presente e no futuro. Contudo ainda há um longo caminho a percorrer. A qualidade do ensino não é uma responsabilidade apenas dos profissionais e dos alunos: é necessário que existam recursos para melhorar o desempenho acadêmico em todo o País.
De acordo com o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no Programa de Avaliação de Estudante Internacional, (Pisa, do inglês Programme for International Student Assessment), a pontuação média dos estudantes brasileiros foi de 400 pontos no domínio de leitura, matemática e ciências. “Esta pontuação é inferior à média da OCDE, de 488”, informa a instituição em seu portal, o que faz com que o Brasil ocupe a penúltima posição no desempenho educacional dentre os países avaliados.

Não se esqueça disso em outubro
Toda a sociedade é impactada pela educação oferecida, logo todos devem se ater a essa questão. O estudo avaliando os impactos positivos do ensino em período integral no Brasil é animador, mas ainda é necessário que haja mais empenho de estudantes, familiares, profissionais da educação e, principalmente, dos governantes. A psicopedagoga Erica Silva destaca que esse investimento deve ser em todas as áreas da educação e destaca a estruturação: “como laboratórios, passeios e estudos com instrumentos que auxiliam a parte da tecnologia e robótica, por exemplo. São investimentos importantes porque, sem isso, a escola fica atrasada em relação às novidades que estão acontecendo no mercado de trabalho que o estudante encontrará”.

A educação é o único caminho para melhorar a sociedade em que vivemos e o ambiente acadêmico tem grande influência nisso. Então tenha isso em mente quando for votar e ao escolher quem vai governar o Brasil e propor novas leis.

É necessário avaliar bem cada candidato e quais são suas ideologias e propostas para a educação, principalmente para os cargos de senador e deputados federal e estadual – afinal, são os legisladores que determinam as diretrizes educacionais e quais serão os investimentos financeiros que serão realizados e, consequentemente, influenciarão na qualidade do ensino oferecido aos brasileiros.

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Autor

Laís Klaiber / Fotos: Getty Images