Você domina a IA ou segue seus comandos?

Saiba usar seu senso crítico para não ser um fantoche da inteligência artificial

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O uso inadequado da inteligência artificial (IA) tem aumentado. Muitos a utilizam não só para criar fake news, seja em períodos eleitorais, seja fora deles, mas também quando buscam conselhos amorosos, orientações pessoais e até previsões sobre o futuro com gurus que, na verdade, são IAs. Em agosto do ano passado, ganhou destaque o caso de um ex-executivo norte-americano com histórico de transtornos mentais que matou a mãe, de 83 anos, e, em seguida, tirou a própria vida depois que o ChatGPT aparentemente validou a crença paranoica dele de que ela o espionava por meio de uma impressora.

Solidão global

Para Elaine Coimbra, fundadora e CEO da Foster, agência digital especializada em inteligência artificial do grupo WPP, e vice-presidente de marketing da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria), o cérebro humano não foi desenvolvido para interagir com máquinas como se elas fossem outros seres humanos. “A crescente solidão global, exacerbada pelo ambiente digital e pela pandemia, leva as pessoas a procurarem na IA um ‘parceiro’, muitas vezes, preferindo-a a um terapeuta humano que os confrontaria com seus problemas”, analisa.

Perda de conexão

Ela afirma, entretanto, que a fluidez verbal da IA induz as pessoas a acreditarem que estão interagindo com um ser humano: “Especialmente com personagens e influenciadores virtuais, que exploram a tendência do cérebro humano de confiar em rostos e vozes, mas o uso contínuo dela pode aprofundar o isolamento e a perda de conexões humanas reais. Além disso, compartilhar informações íntimas com a IA é um risco significativo à privacidade, já que os dados podem ser utilizados para treinamento e, em plataformas menos seguras, de forma indevida por terceiros”.

Confirme a veracidade das fontes

Ao receber informações duvidosas, confirme-as em sites confiáveis de checagem de fatos e em fontes especializadas e não apenas se vieram de IA.

Sem juízo

Elaine explica que a capacidade da IA de sempre agradar, estar disponível e reduzir conflitos pode gerar dependência emocional. “Ela reforça a perspectiva do usuário e evita o confronto ou a reflexão crítica. Mas a IA jamais vai ser um [Isaac] Newton ou um [Albert] Einstein, porque ela não questiona. Ela é uma máquina que analisa milhões de dados rapidamente e os entrega para que você, com seu pensamento crítico, decida e formule questões. As IAs não têm juízo moral ou compreensão real de conceitos complexos como ‘abuso’ ou ‘perdão’. Elas apenas processam palavras estatisticamente”, esclarece.

Priorize o apoio humano em questões emocionais

Evite buscar conselhos sentimentais ou terapêuticos na IA. Nessas situações, procure pessoas capacitadas e confiáveis.

Falhas

Segundo Elaine, embora muitas pessoas utilizem a inteligência artificial para previsões de vida, conselhos afetivos ou como gurus virtuais, as IAs não têm consciência. “Essas IAs (LLMs – Large Language Models) operam com base em dados de treinamento que podem ser enviesados e apenas concatenam palavras, sem compreender seu significado. A IA também tem, por exemplo, dificuldade em gerar imagens de pessoas escrevendo com a mão esquerda. Não são bugs de programação, mas sim reflexo de vieses nos dados de treinamento, nos quais a maioria das imagens não representa canhotos”, aponta.

Entenda os limites da IA

Lembre-se de que a inteligência artificial apenas calcula probabilidades e que ela não tem consciência, intenção ou compreensão moral e emocional.

Verificação

Em relação ao uso equivocado da IA, Elaine reconhece que ela pode facilitar a criação rápida e barata de conteúdo enganoso (deepfakes) para fins eleitorais e de desinformação, embora a IA também sirva para produzir conteúdos verdadeiros e confiáveis: “A culpada não é a IA, mas a intenção humana por trás de seu uso indevido. Por isso, é crucial que os usuários verifiquem a veracidade das informações através de sites de detecção de fake news e não apenas se o conteúdo foi gerado por IA”, destaca.

Uso positivo

Elaine ainda considera o uso positivo da inteligência artificial. “Existem IAs, diferentes dos LLMs populares, que oferecem benefícios significativos, como em diagnósticos médicos, na detecção precoce de câncer ou auxiliando profissionais com análise massiva de dados e ‘segundas opiniões’. Essas aplicações destacam o potencial da IA como uma ferramenta de apoio, desde que a validação e o pensamento crítico humanos estejam sempre presentes. Por isso, é fundamental educar toda a população – professores, crianças, adultos e idosos – sobre os limites e a natureza da IA”, conclui.

Não delegue suas decisões

Use a IA como ferramenta de apoio e não como substituta do seu julgamento, pois essa atitude o ajudará a não perder a prática de refletir por conta própria.

Fonte: Elaine Coimbra, fundadora e CEO da Foster, agência digital especializada em Inteligência Artificial do grupo WPP, e vice-presidente de Marketing da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria).

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Colaborador

Eduardo Prestes / Foto: Moor Studio/ getty images