Vivendo de fachada
A busca por aceitação e status leva muitas pessoas a gastarem mais do que ganham e a esconderem dívidas, ansiedade e frustração atrás de uma aparência de sucesso. Entenda o que motiva esse comportamento e aprenda a construir uma relação saudável com o dinheiro
Nas redes sociais, tudo parece traduzir conforto, estabilidade e sucesso. Contudo, por trás dessa vitrine cuidadosamente montada, a realidade de muitas pessoas é bem diferente: o cartão de crédito está no limite, as contas se acumulam e há uma sensação constante de sufoco quando o fim do mês está próximo.
Movidas pela comparação social, pela pressão do grupo e pela necessidade de aceitação, elas gastam mais do que ganham para sustentar um padrão de vida incompatível com a sua renda. O resultado não aparece nas fotos nem nos stories, mas no extrato bancário e na saúde emocional, com endividamento, ansiedade e frustração.
Medo de ficar de fora
Esse comportamento pode ser resultado de um fenômeno identificado e estudado pela primeira vez na década de 1990 e que se tornou recorrente na era das redes sociais e da disseminação instantânea e globalizada de informações: o Fomo, sigla em inglês para Fear of Missing Out (traduzido, em português, para medo de ficar de fora).
Trata-se de um sentimento desconfortável que afeta muitas pessoas, que se sentem ansiosas ao imaginar que oportunidades, eventos ou experiências importantes estão ocorrendo sem a sua participação. Em outras palavras, é o temor de estar perdendo algo que os outros estariam vivendo. As redes sociais, com a exposição constante de conquistas e idealizações, são responsáveis pela intensificação da comparação e alimentam esse medo de ficar de fora.
Patricia Lages, especialista em finanças pessoais, explica o impacto delas: “As redes sociais transformaram consumo em identidade e exibicionismo em ‘moeda social’. A comparação constante cria a sensação de atraso, insuficiência e fracasso, mesmo quando a pessoa está financeiramente estável. Isso gera o que chamo de consumo defensivo, que é gastar para provar algo, seja para os outros, seja para si mesmo. O endividamento, nesse caso, não nasce da falta de informação, mas da pressão emocional por pertencimento e validação”.
O preço de viver de aparência
Ela destaca que o desejo de pertencer ao grupo pode levar muitas pessoas a decisões financeiras prejudiciais: “A pessoa ajusta o consumo para não destoar do grupo, como ir a um restaurante que não cabe no seu orçamento, contratar uma viagem parcelada sem fazer um planejamento ou comprar roupas para não parecer fora do padrão. O problema é que o grupo não paga a fatura do cartão. A conta sempre chega quando a pessoa está sozinha”.
Patricia detalha os sinais de que o sucesso financeiro não passa de fachada: compromisso com parcelamentos longos, ausência de reserva para emergências, ansiedade constante, dependência de crédito até para gastos básicos e necessidade de manter as aparências.
Por outro lado, ela enfatiza que quem está de fato bem financeiramente não vive contando os dias que faltam para receber o próximo salário nem se desespera com os imprevistos e que para reconhecer que o padrão de vida não condiz com a renda é preciso ter maturidade e humildade. Ela diz que para muitos, como esse padrão se tornou parte da identidade, viver dentro do próprio limite parece fracasso quando, na verdade, é inteligência financeira.

Como lidar com o dinheiro
Gastar mais do que ganha pode acontecer a qualquer um e não é falta de informação, mas de controle emocional. Essa atitude, muitas vezes, é uma tentativa de compensar frustrações e inseguranças e o dinheiro é usado como anestésico emocional.
A solução, segundo ela, é reconstruir uma relação mais saudável e consciente com o dinheiro. O primeiro passo é colocá-lo de volta no lugar certo: como ferramenta e não como muleta emocional. “Isso exige autoconhecimento, objetivos claros e disposição para enfrentar desconfortos no curto prazo. Afinal, educação financeira sem educação emocional dificilmente funciona”, afirma.
Por fim, ela aconselha: “Nenhuma imagem vale a sua paz. A aparência não paga contas, não constrói futuro e não protege contra imprevistos. Quando as contas chegarem, os amigos não estarão lá para curtir ou ajudar. Ao contrário, talvez compartilhem nas redes os seus fracassos. Quanto antes você trocar validação externa por coerência interna, mais cedo o dinheiro deixará de ser um problema e passará a ser um aliado”.
7 dicas da especialista para alinhar seu estilo de vida à sua renda
Nas redes sociais, diferencie inspiração de comparação. A inspiração amplia horizontes e respeita processos, já a comparação gera ansiedade e pressa. Se um conteúdo provoca frustração ou inadequação, já é um sinal de alerta.
Em vez de se convencer a comprar algo que você sabe que não deve com frases como “Eu mereço”, “É só dessa vez” e “Todo mundo faz”, pergunte-se: “Eu preciso disso agora?”, “Faz sentido comprar a vista?”, “Estou comprando para usar ou para mostrar?” e “Isso me aproxima ou me afasta da vida que eu quero ter?”
Entenda que priorizar não é se privar. Privação é não poder fazer algo. Priorizar é escolher com consciência. Quando seus valores estão claros, dizer não deixa de ser sofrimento e vira uma estratégia.
Mapeie seus gastos e estabeleça limites. Observe em que você gasta seu dinheiro e defina um teto para despesas variáveis (restaurantes, passeios, compras do dia a dia, etc.)
Se sua renda aumentar, priorize fazer uma reserva financeira antes de elevar seu padrão de vida.
Não trate o cartão de crédito como se fosse um salário extra.
Separe necessidade, desejo e impulso. A necessidade resolve algo real e imediato, o desejo pode ser planejado e o impulso é uma urgência emocional. Se parece inadiável, mas não é essencial, provavelmente é um impulso.

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