Um ano da pandemia no Brasil e as fragilidades estruturais escancaradas

O que mudou e o que falta mudar desde a confirmação do primeiro caso da COVID-19

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Há exatamente um ano, o Brasil registrou o primeiro caso suspeito de coronavírus. Um homem de 61 anos, de São Paulo, que esteve a trabalho na Itália, na região da Lombardia, apresentou, no dia 23 daquele mês, sinais e sintomas compatíveis com a covid-19, como febre, tosse seca, dor de garganta e coriza.

No dia 25, o Hospital Israelita Albert Einstein registrou a notificação de caso suspeito e, no dia seguinte (26), o Ministério da Saúde confirmou que ele havia sido a primeira pessoa a testar positivo para a doença não apenas no país, mas em toda a América Latina.

Diversos especialistas já apontaram que é pouco provável que o empresário de 61 anos tenha sido o primeiro a contrair o vírus.

Mas, de qualquer forma, foi a partir dessa confirmação que o governo começou tomar as primeiras medidas de enfrentamento. Ao mesmo tempo, nesse momento, o Brasil mostrou o quanto está dividido.

Muitos políticos usaram da pandemia como palanque, já outros desviaram dinheiro público. Claro que alguns buscaram fazer o trabalho sério.

Só que, em meio a tudo isso, somado ao excesso de informações imprecisas, até mesmo tendenciosas, a população ficava cada vez mais desprotegida e com medo, sem saber qual direcionamento seguir. Dessa forma, muitos problemas estruturais ficaram ainda mais evidentes, como por exemplo:

1 – Lockdown x moradias precárias

Uma das medidas para evitar a disseminação do vírus foi buscar que a população se isolasse. Foi aí que começou a hipocrisia do “fique em casa”. Afinal, como você consegue proteger alguém do grupo de risco que mora com outras dez pessoas em uma casa que tem apenas um cômodo?

Em busca de resolver esse problema, no Rio de Janeiro, por exemplo, a prefeitura, sob o comando de Marcelo Crivella, chegou a ofertar vagas em hotéis para idosos moradores de favelas na tentativa de conter o avanço da doença nas comunidades.

Vivemos um isolamento para “inglês ver”, apenas para quem tinha espaço em casa e condição de trabalhar home office, ou seja, uma parcela pequena da população. A maioria não tinha condição de fazer isso, o trabalhador precisava ir para a rua.

E aí, claro, deixar a “economia para depois” fez com que o consumo das famílias diminuísse e o desemprego e a pobreza aumentassem.

Foi curioso porque muitos defensores do “fique em casa” não perderam a oportunidade de viajar, de participar de atos políticos etc. Eles também queriam continuar pedindo comida por delivery e contar com a presença de suas empregadas. O “fique em casa” virou uma grande hipocrisia que só serviu para alguns que puderam se dar a esse luxo.

2 – Ensinamento a distância x dificuldade de acesso

A pandemia gerou diversos impactos na educação, tanto para estudantes quanto para as instituições de ensino. Em março do ano passado, os estabelecimentos fecharam, foi quando o ensino remoto precisou ser realizado para dar continuidade ao ano letivo.

Nesse cenário, muitas barreiras foram enfrentadas, como a dificuldade de milhares de alunos no acesso à internet e, consequentemente, para acompanhar as aulas. Segundo a pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Tecnologia da Informação e Comunicação (Pnad Contínua TIC), 46 milhões de brasileiros não acessam a web, o que corresponde a mais de 25% da população.

O fechamento das escolas também expôs as deficiências de alguns pais que antes depositavam nos professores a tarefa de educar seus filhos, além das complicações para conseguirem trabalhar com os pequenos em casa, sem ter com quem deixá-los.

3 – Sistema de saúde deficitário x necessidades

O coronavírus também revelou que os sistemas de saúde, de forma geral, são mais frágeis do que pensávamos. Se uma pandemia era previsível, visivelmente não estávamos preparados para ela.

De lá para cá, presenciamos a insuficiência de leitos, de medicamentos essenciais, de testes diagnósticos, de profissionais de saúde preparados para atuar em unidades de tratamento intensivo e até mesmo de equipamentos para protegê-los.

Manaus foi a primeira cidade a enfrentar um colapso do sistema de saúde. Além do despreparo, a escassez revelou mais uma vez o problema da corrupção. Muitas autoridades superfaturaram contratos, desviaram recursos destinados para equipamentos etc.

De acordo com o Índice de Percepção de Corrupção de 2020 da Transparência Internacional, os países com menos corrupção foram os mais bem posicionados para enfrentar os desafios econômicos e de saúde desta pandemia.

Lições para o futuro

vacina covidA primeira lição que observei como cidadã é que o Brasil precisa se preparar para a possibilidade de novas ondas desta pandemia ou, até mesmo, de outras.

Nenhum sistema de saúde é perfeito nem se aperfeiçoará de um dia para o outro. Para se encontrar soluções é preciso que haja colaboração entre muitas partes. O que me faz reforçar, mais uma vez, a urgência de nós, enquanto povo, elegermos nossos governantes com sabedoria.

Além disso, é necessário esforço para manter, em paralelo, os cuidados de saúde às pessoas que sofrem de outras patologias físicas e emocionais. Muitas morreram, por exemplo, porque atrasaram seus tratamentos durante a pandemia. Isso sem falar nos casos de ansiedade, depressão e até suicídio que aumentaram consideravelmente.

A vacina agora é a esperança daqueles que acreditam que, com ela, a proteção contra o vírus e a recuperação econômica acontecerão.

No entanto, acredito que é necessário fazer bem mais que isso para recuperar os empregos, as empresas que faliram e o tempo de aprendizado perdido.

Sem falar no grande desafio de resgatar a saúde mental das pessoas que vivenciaram (e estão vivenciando) diversos conflitos emocionais. Para isso, além de rejeitar os pensamentos ruins e ficar atento ao que se ouve, lê e assiste, é preciso buscar ocupar a mente com o que é bom e edifica.

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Colaborador

Refletindo sobre a notícia | Ana Carolina Cury | R7 / Fotos: Getty Images