Século XXI: o uso excessivo da internet pode afetar as habilidades cognitivas dos jovens?

Pesquisa aponta que metade dos adolescentes brasileiros passa mais tempo na internet do que gostaria. Entenda o que os estudos dizem sobre o Efeito Flynn Reverso

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Uma pesquisa do Instituto Alana, realizada para o estudo “Adolescência Sem Filtro”, aponta que metade dos adolescentes brasileiros passa mais tempo na internet do que gostaria. Cerca de 30% afirmam permanecer de três a quatro horas por dia conectados, enquanto 15% relatam passar mais de oito horas diárias na internet. Além disso, 41% dos entrevistados dizem perceber uma relação de dependência com o celular há pelo menos dois anos.

Entre os principais usos da internet, 66% dos adolescentes dizem dedicar mais tempo às redes sociais, 57% às conversas com amigos e familiares e 56% aos jogos. Além disso, 71% afirmam utilizar a internet principalmente para se divertir, enquanto 22% relatam sentir ansiedade relacionada ao uso.

Jovens e o uso da internet: intervir ou deixar como está?

O especialista em Tecnologia e Inovação Arthur Igreja explicou, em entrevista ao Conexão Record News, que o tempo diante das telas não é, necessariamente, o principal problema. Segundo ele, também é preciso considerar o tipo de conteúdo consumido, que pode contribuir positiva ou negativamente para a saúde mental dos jovens.

“Nós não podemos também atribuir que automaticamente as redes sociais são ruins; depende do tipo de conteúdo que a pessoa está consumindo. Agora, quando nós olhamos na outra ponta, nessa incidência de ansiedade da pessoa dizendo que não se sente bem, não parece que ela esteja consumindo o conteúdo que está sendo nutritivo, que está sendo positivo, que está ajudando em alguma coisa”, pontua.

Segundo ele, embora alguns países, como a Austrália, tenham adotado restrições ao uso de redes sociais por menores de 16 anos, a medida não apresentou resultados significativos. Isso porque cerca de 85% das crianças e adolescentes teriam conseguido acessar essas plataformas por outros meios.

Por fim, o especialista finalizou a entrevista relatando que o caso para intervenção é complexo, e que demanda tempo de debate sobre o assunto.

“O assunto demanda profundidade, demanda debate. Eu acho que a autorregulação é sinônimo de ingenuidade, e, do outro lado, é claro, qualquer forma de intervenção precisa ser feita com muito debate, com muita maturidade, com muito conhecimento técnico também”, aponta o especialista.

Mas será que o excesso de exposição às telas pode também estar relacionado a mudanças nas habilidades cognitivas? Essa é uma das questões que surgem diante de pesquisas que identificaram uma redução no desempenho em determinados testes de inteligência. No entanto, é importante destacar que os estudos disponíveis não permitem afirmar que o uso da internet seja responsável por esse fenômeno.

Tecnologias estão tornando os jovens ”mais burros”?

Um estudo publicado na revista científica Intelligence, com dados coletados nos Estados Unidos entre 2006 e 2018 e envolvendo quase 400 mil adultos, identificou uma queda gradual em algumas habilidades cognitivas. O resultado reacendeu o debate sobre o chamado Efeito Flynn Reverso.

O que é o Efeito Flynn?

O Efeito Flynn é o nome dado ao aumento observado, ao longo de diferentes períodos e populações, nas pontuações de testes de inteligência. O fenômeno foi associado aos estudos do pesquisador James R. Flynn e despertou o interesse de pesquisadores sobre os fatores relacionados ao desenvolvimento das habilidades cognitivas.

Efeito contrário

Em contrapartida, o Efeito Flynn Reverso se refere à redução ou desaceleração das pontuações observadas em determinados testes de habilidades cognitivas. Na pesquisa citada, as quedas foram mais consistentes em avaliações de raciocínio por padrões e de sequenciamento de letras e números.

  • testes de raciocínio por padrões: capacidade de detectar regras;
  • teste de sequenciamento de letras e números: envolve a lógica e a capacidade de sequenciar letras e números (muito comum em avaliações de concursos públicos).

Resultado da pesquisa

Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que os dados não permitem concluir que a tendência observada se aplica a outros países ou à população mundial.

Portanto, os resultados não comprovam que as tecnologias digitais sejam a causa do Efeito Flynn Reverso. A relação entre o uso de tecnologias, mudanças no comportamento e desempenho cognitivo ainda exige novas pesquisas antes que seja possível estabelecer uma relação de causa e efeito.

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Redação / Imagem gerada por IA