Rejeição: suas experiências têm definido quem você é?

Quando o valor pessoal depende da aprovação dos outros, o sofrimento é inevitável. Mas quem conhece sua identidade em Deus encontra uma base inabalável

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“A rejeição é um sentimento esmagador. É como se você tentasse sair debaixo do pé de uma pessoa, enquanto ela pisa em você.”

Assim Ana Maria de Oliveira, de 65 anos, descreve a dor que carregou durante boa parte da vida. A experiência dela, que você vai acompanhar nas próximas páginas, representa a realidade de muitas pessoas que convivem com as marcas da rejeição desde a infância, na família, na escola, nos relacionamentos ou em outros ambientes.

Algumas cresceram com a sensação de não terem sido desejadas ainda durante a gestação. Outras passaram a infância tentando conquistar o amor e a atenção dos pais. Há também quem tenha sofrido exclusão social ou sucessivas decepções na vida amorosa, a ponto de se perguntar: “Será que um dia alguém vai me aceitar e me amar?”.

A origem da dor

A psicóloga Camila Galhego afirmou, em entrevista à Folha Universal, que a primeira necessidade emocional básica do ser humano é ser aceito. “Precisamos dessa aceitação logo no início da vida para nos sentirmos pertencentes. Por isso, toda experiência de rejeição gera uma ferida em nosso interior, principalmente nos primeiros anos de vida.”

Segundo a especialista, diferentes experiências da infância, da adolescência e da vida adulta podem estar relacionadas ao surgimento desse sentimento. Entre elas, destacam-se:

  • Abandono físico ou ausência dos pais
  • Comparações entre irmãos
  • Favoritismo dentro da família
  • Separação dos pais
  • Exclusão social
  • Abuso físico ou psicológico
  • Bullying na escola
  • Término de relacionamentos

Vale destacar que, se em alguns casos a rejeição é intencional, em outros ela pode resultar da forma como a pessoa interpreta determinada situação. O problema não está apenas na experiência vivida, mas no significado que ela lhe atribui. Quando essa dor não é compreendida e tratada, pode acompanhar a pessoa por muitos anos e influenciar a maneira como ela se enxerga, se relaciona e enfrenta as dificuldades da vida.

As marcas da rejeição

Diferentemente de uma ferida física, a rejeição não pode ser vista. Justamente por isso, muitas pessoas escondem essa dor e carregam, em silêncio, as marcas das experiências que viveram. Com o tempo, essas feridas emocionais se acumulam e podem afetar diferentes áreas da vida.

Segundo a psicóloga, a ferida da rejeição costuma se manifestar na vida adulta por meio do medo constante de ser rejeitado ou abandonado, além de sentimentos como ansiedade e tristeza.

“Essas pessoas geralmente apresentam dificuldades nos relacionamentos, desconfiam das intenções dos outros, demonstram ciúme excessivo, tendem ao isolamento social e podem desenvolver dependência emocional”, explica.

Além disso, a rejeição costuma vir acompanhada de sentimentos igualmente destrutivos, como mágoa, ressentimento e, em alguns casos, até ódio. Quando essa dor se torna profunda e permanece sem tratamento, algumas pessoas chegam a acreditar que seria melhor nunca terem existido ou que a morte seria a única saída para o sofrimento.

No entanto, esse não é o caminho. É possível romper esse ciclo e encontrar cura para as feridas emocionais.

Tratando a raiz

Quem convive com as marcas da rejeição costuma direcionar suas forças para o trabalho, os estudos, os relacionamentos, as conquistas ou a aparência, na tentativa de provar aos outros que conseguiu “dar a volta por cima”. No entanto, a verdadeira cura começa quando a pessoa deixa de fugir da dor e decide enfrentá-la.

A verdade é que o problema não está apenas na rejeição sofrida, mas em permitir que ela determine a própria identidade. Quem vive em busca da aprovação dos outros entrega a eles o poder de definir seu valor. Superar essa ferida significa romper esse ciclo e reconstruir a maneira de enxergar a si mesmo.

Como identificar uma ferida de rejeição

 

A rejeição pode se manifestar de diferentes formas. Confira alguns sinais que merecem atenção:

  • Sensibilidade excessiva às críticas
  • Necessidade constante de aprovação
  • Medo de ser abandonado
  • Dificuldade para aceitar um “não”
  • Dificuldade para confiar nas pessoas
  • Medo de se relacionar
  • Sentimento constante de inferioridade
  • Autossabotagem
  • Necessidade de agradar a todos
  • Dificuldade para reconhecer o próprio valor

o que diz a neurociência:

Pesquisas na área da neurociência mostram que a rejeição social não provoca apenas sofrimento emocional. Quando uma pessoa se sente excluída, o cérebro ativa regiões associadas à dor física, especialmente o córtex cingulado anterior. Essa descoberta ajuda a explicar por que situações como ser ignorado, deixado de lado ou rejeitado podem ser tão dolorosas.

Fonte: Artigo publicado na revista Science: Does Rejection Hurt? An fMRI Study of Social Exclusion

Sua verdadeira identidade

Se existe alguém que conhece a dor da rejeição, esse alguém é Deus. A Bíblia mostra que Ele foi rejeitado pelo próprio povo e, quando veio ao mundo na pessoa de Jesus, também foi desprezado pelos homens (Isaías 53:3). Ainda assim, a rejeição não mudou Sua natureza nem Seu propósito. Da mesma forma, as experiências que vivemos não precisam determinar quem somos.

Por isso, antes de nos enxergarmos pelos olhos das pessoas, precisamos aprender a nos ver como Deus nos vê. Independentemente do que a sociedade ou a cultura dos likes tentem nos fazer acreditar, o Criador nos valoriza e nos ama a tal ponto que entregou Seu Filho por nós. Existe prova de amor maior do que essa?

A Bíblia ensina que nossa identidade nasce do relacionamento com Deus. Somos:

Amados (Romanos 8:38-39)

Conhecidos pelo nome (Isaías 43:1)

Chamados para um propósito (Efésios 2:10)

Aceitos por Ele (Efésios 1:5-6)

Quando essa verdade se torna uma convicção, a necessidade constante de aprovação perde força, porque compreendemos que nosso valor não é definido pela opinião das pessoas, mas pelo amor do Criador.

As marcas invisíveis da rejeição

Ana Maria de Oliveira, servidora pública, de 65 anos, carregou por anos as consequências emocionais do abandono e do preconceito

A dor da rejeição

A rejeição sempre fez parte da minha vida. Nasci com raquitismo hipofosfatêmico, uma condição que comprometia o meu crescimento. Quando meu pai descobriu a minha deficiência, passou a me tratar como motivo de vergonha. Ele me escondia das pessoas e, durante muitos anos, nem sequer me deixou ir à escola. Além disso, usava palavras cruéis: chamava-me de “aleijadinha” e me tratava com muito preconceito.

Posso dizer que a rejeição é um sentimento esmagador. É como se o sol deixasse de brilhar para nós. O pior é que ela alimentou em mim uma amargura profunda. Mágoa, tristeza, raiva e ódio passaram a fazer parte da minha vida. Na tentativa de fugir daquela realidade, saí escondida da casa dos meus pais no carro de uma médica. Ela chegou a me levar de volta, mas meu pai disse que eu podia ir embora com ela.

Novo abandono

Essa médica conseguiu um tratamento para melhorar minha qualidade de vida. Passei dez meses internada, completamente abandonada. Uma assistente social chegou a ser acionada, mas informou que não poderia ficar comigo. Mais uma vez, senti a dor da rejeição. Depois, fui morar na casa da irmã dessa médica. Embora tivesse sido acolhida, era maltratada e, muitas vezes, ficava sem comer. Parecia que a rejeição era uma sujeira grudada em mim, impossível de remover.

Eu acreditava que a morte seria a solução. Tentei tirar a minha vida duas vezes e, como não consegui, cheguei a pensar que nem a morte me queria.

O início da mudança

Essa história começou a mudar no dia em que vi a placa da Igreja Universal e decidi entrar. Saí da primeira reunião mais leve. Passei a participar das correntes de fé e, ao longo de dois anos, Deus transformou muitas áreas da minha vida. Mesmo assim, a amargura ainda permanecia.

O poder do perdão

O divisor de águas aconteceu quando entendi que, para receber o perdão de Deus, eu precisava perdoar. Relutei, mas tomei essa decisão. Viajei, voltei à casa da minha família e disse ao meu pai: “Vim te pedir perdão”. Naquele momento, ele desabou em lágrimas e respondeu que era ele quem precisava me pedir perdão. Nós nos abraçamos, choramos muito e todo o peso da mágoa saiu da minha vida.

Livre da rejeição

Conheci a Deus e, pela primeira vez, me senti verdadeiramente amada. Houve uma transformação completa no meu interior e hoje tenho segurança de quem eu sou. Ainda enfrento preconceito e rejeição, mas isso já não me afeta. Minha identidade não depende da aceitação das pessoas. Jesus curou a minha alma, e hoje uso tudo o que vivi para mostrar o Caminho a quem também sofre com
a rejeição.

 

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Colaborador

Cinthia Cardoso / Imagens: Suriya Puhoy/ Getty Images / Imagem: Gerada por IA / Arte: Gean França / Mídia solo sagrado/ DF