Pela primeira vez, maioria dos brasileiros deixa de ser considerada leitora
A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil estabelece um marco preocupante: 53% dos brasileiros são, oficialmente, não leitores. Apenas nos últimos quatro anos, o País perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores.
Se os dados até aqui impressionam, a perplexidade aumenta diante da metodologia adotada na pesquisa: bastava ter lido apenas parte de um único livro, físico ou digital, para entrar na categoria de leitor.
Mas, mesmo com essa régua generosa, mais da metade da população ficou de fora. E quando o critério é a leitura completa de uma obra, o quadro piora: apenas 27% dos entrevistados haviam concluído a leitura de pelo menos um livro no período.
O que está em jogo não é apenas uma estatística, mas o desenvolvimento cognitivo de um país. A neurocientista Maryanne Wolf, autora de O Cérebro Leitor e O Cérebro no Mundo Digital, afirma que o cérebro humano não nasceu programado para ler e que, para desenvolver a habilidade, é preciso construir ao longo da vida um circuito da leitura, isto é, uma rede neural que integra visão, linguagem, memória e raciocínio.
E um ponto importantíssimo da pesquisa da autora é que esse circuito se fortalece com a prática e se atrofia com o abandono. Quanto mais uma pessoa lê, mais ela desenvolve o que Wolf chama de leitura profunda, que a torna capaz de analisar, tirar conclusões, comparar pontos de vista e sentir empatia pelo outro através da narrativa.
Por outro lado, a neurocientista alerta que o hábito de rolar telas, típico do ambiente digital, promove apenas uma leitura superficial, entrecortada e sem conexão entre o conteúdo anterior e o próximo. Isso compromete justamente a camada mais elaborada do pensamento.
Fica cada vez mais patente que tudo o que requer um pouco mais de concentração e análise não é compreendido por grande parte das pessoas.
Esse enfraquecimento da leitura profunda ajuda a formar leitores de manchete: pessoas mais suscetíveis a aceitar uma conclusão pronta, sem checá-la. Afinal, como vimos, é justamente a capacidade de analisar e comparar pontos de vista que se perde quando o cérebro deixa de praticar a leitura completa. E essa é a mesma capacidade que protege alguém de um título construído para induzir a uma interpretação enviesada.
Ao deixar de ler livros, as pessoas perdem o treino da atenção sustentada, empobrecem o vocabulário e o raciocínio crítico e deixam de compreender o que acontece ao seu redor.
E esse conjunto de perdas tem efeito coletivo, pois uma população que lê menos tende a debater com menos profundidade, a ser mais vulnerável à desinformação e a produzir menos inovação, já que a leitura é insumo direto para criatividade e resolução de problemas. Mas a boa notícia é que reverter essa realidade é possível e está ao alcance de todos.
- Por onde começar: com livros curtos e de temas do seu interesse. Não se prenda a “clássicos obrigatórios”, pois o prazer de ler está na liberdade de escolha.
- Crie a sua rotina: reserve um horário fixo ou aproveite intervalos ao longo do dia, como filas de espera, durante o transporte ou na hora do almoço.
- Tenha um livro sempre à mão: ainda que pareça que você não terá tempo de ler, a chance pode aparecer em diversos momentos do dia. Deixe um livro à vista na bolsa, na mesa, ou no carro.
- Leia gratuitamente livros físicos e digitais: Mapeie as bibliotecas públicas próximas à sua casa, trabalho ou que estejam dentro dos seus trajetos habituais. Basta fazer uma carteirinha com documento de identidade e comprovante de residência para pegar livros emprestados. Pesquise as “gelotecas”, disponíveis em algumas estações de metrô, parques e praças. Nesses locais é possível deixar um livro e pegar outro.
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