Obesidade infantil avança e acende alerta

Excesso de telas, sedentarismo e ultraprocessados formam a combinação que tem tirado a saúde e comprometido o futuro de nossas crianças

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Tem sido cada vez mais comum crianças e adolescentes apresentarem sintomas de doenças que, antes, eram associadas principalmente às pessoas mais velhas. Especialistas alertam que esse cenário não é por acaso e está diretamente relacionado ao estilo de vida adotado na atualidade, que favorece o sobrepeso e a obesidade.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em 2022, o percentual de brasileiros de 5 a 19 anos com sobrepeso chegou a 36%.

Esse índice corresponde ao dobro do verificado no ano 2000. Enquanto isso, o percentual de obesos nessa mesma faixa etária subiu ainda mais: pulou de 5% para 15%, no mesmo período, ou seja, triplicou.

Não é estética, é saúde

Muito além de uma questão estética, a obesidade é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal e que representa sérios riscos à saúde, por estar associada ao desenvolvimento de diversas outras enfermidades. Na prática, trata-se de uma condição multifatorial, influenciada por diferentes aspectos, como predisposição genética, alimentação inadequada, ambiente em que a criança está inserida e hábitos cotidianos.

“A obesidade infantil é considerada um dos grandes desafios da saúde pública e seu crescimento está relacionado à imobilidade, ao grande número de crianças sedentárias. Elas estão muito presas às telas e menos às atividades, como os esportes e as brincadeiras lúdicas. Isso contribui para que a funcionalidade e a formação motora fiquem comprometidas, além do excesso da gordura”, explica o médico endocrinologista João Marcello Branco.

Comida de verdade?

Na correria da vida contemporânea, os alimentos saudáveis têm perdido espaço nas refeições, abrindo precedentes para o aumento do peso. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2024, divulgada pelo IBGE no final de março, revelou que o consumo de salgadinhos, biscoitos e doces supera o de frutas entre os estudantes de 13 a 17 anos dentro e no entorno das escolas. Em muitos casos, o acesso aos ultraprocessados é mais fácil do que opções saudáveis. E em casa essas escolhas também tendem a se repetir.

Os alimentos ultraprocessados costumam ter alta densidade calórica e baixo valor nutricional, além de concentrarem grandes quantidades de açúcar, sódio e gorduras. Essa combinação favorece o consumo em excesso e interfere nos mecanismos naturais de saciedade, fazendo com que a criança sinta fome novamente em pouco tempo. Com isso, aumenta-se a ingestão calórica ao longo do dia, enquanto nutrientes essenciais para o crescimento e o desenvolvimento, como fibras, vitaminas e minerais, ficam em segundo plano.

Impactos no presente e no futuro

O que parece ainda ser desconhecido da população é que a facilidade de abrir um pacote não compensa os danos que esses alimentos podem provocar ao organismo. “Os principais transtornos relacionados à obesidade na infância incluem alterações na tireoide, dislipidemias e níveis elevados de colesterol, além do hipotireoidismo. No entanto, chamam ainda mais atenção a hiperinsulinemia e a predisposição ao diabetes tipo 2, que tem surgido de forma cada vez mais precoce entre crianças e adolescentes”.

Segundo o médico, o cérebro também pode ser afetado pelo consumo excessivo de gorduras e pela falta de nutrientes, o que compromete a memória, a concentração e o aprendizado. Além dos efeitos físicos, o excesso de peso costuma trazer repercussões emocionais. Crianças e adolescentes com obesidade ficam mais expostos à ansiedade, baixa autoestima e insegurança, fatores que podem levar ao isolamento social e dificultar a convivência. Quando não há intervenção, esses impactos se prolongam ao longo da vida.

Fazendo boas escolhas

A principal referência das crianças está dentro de casa, e os hábitos alimentares dos pais exercem influência direta sobre as escolhas dos filhos.

Quando a família inclui regularmente legumes, verduras e frutas nas refeições, esses alimentos passam a ser vistos com naturalidade e maior aceitação. Já a ausência desses itens e a presença frequente de produtos ultraprocessados tendem a moldar preferências menos saudáveis desde cedo.

Por isso, os adultos têm papel decisivo nesse processo, não apenas pelo exemplo à mesa, mas também pela responsabilidade na compra e na oferta dos alimentos, já que são eles que definem o que estará disponível para o consumo diário. Acompanhe no box ao lado outras orientações para combater a obesidade infantil.

Como combater a obesidade infantil

  • Exemplo em casa: os pais são responsáveis pelo que entra na alimentação da criança. Hábitos saudáveis da família influenciam diretamente o comportamento alimentar dos pequenos. Educação alimentar desde cedo: estimule o consumo de frutas, verduras e alimentos naturais, reduzindo ultraprocessados, refrigerantes e doces.
  • Mais atividade física: incentive brincadeiras ao ar livre, esportes e movimentos no dia a dia. A prática regular melhora a saúde motora, mental e física.
  • Menos tempo nas telas: limitar o uso de celulares, tablets e televisão ajuda a combater o sedentarismo.
  • Rotina equilibrada: horários regulares para refeições, sono adequado e acompanhamento dos responsáveis fazem diferença.
  • Suporte profissional: quando necessário, buscar orientação nutricional pode ajudar na adequação alimentar e no controle do peso.
Fonte: Ministério da Saúde e médico endocrinologista João Marcello Branco

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Colaborador

Cinthia Cardoso / Foto: Digital Vision/gettyimages, monkeybusinessimages/getty images e BraunS/getty images