O preço invisível do sucesso rápido: por que atalhos quase sempre custam caro

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Certo dia, minha irmã e eu fomos visitar uma amiga dela que eu conhecia apenas de vista. Chegando lá, seu filho de oito anos estava fazendo a lição de casa. Puxei conversa, interessada no que o menino estava estudando, e ele respondeu que estava aprendendo números romanos, que a tarefa era escrevê-los de um a cem e que ele já tinha terminado.

A mãe, do outro lado da sala, o parabenizou pela rapidez e fez questão de dizer que ele havia começado poucos minutos atrás. Olhando o caderno, ficou clara a razão da rapidez: ele havia escrito de dez em dez. Quando expliquei o que deveria ser feito, desolado, ele questionou: “Então, tá errado, tia?” Preferi responder que estava apenas incompleto, mas que ele podia refazer.

No meu sexto livro Economia Emocional – O segredo para uma vida saudável e equilibrada, conto o desenrolar da história: “Nesse momento, a mãe protestou indignada: ‘Ah, não! Essa professora é doida. Fazer o menino escrever 100 números com oito anos de idade! Negativo!’ Dirigindo-se à criança, ela disse: ‘Pode deixar assim, filho! Se ela reclamar, você responde que não entendeu. E, se ela insistir, você fala o que a tia disse, não tá errado, só tá incompleto. Agora vai jogar o seu videogame, tá, meu amor.’ Voltando-se para mim, ela encerrou o assunto: ‘Essas tarefas não valem ponto, então pra que fazer o menino se matar?‘”

É óbvio que a mãe não tinha a menor intenção de deseducar o filho, ela apenas queria poupá-lo do trabalho. Com a melhor das intenções, ela havia acabado de ensinar péssimas lições: trapacear, justificar um erro consciente com uma desculpa e se preocupar somente com as notas. Aos oito anos de idade, o menino estava sendo programado a agir pela lei do mínimo esforço.

Sucesso não é acontecimento, é processo

Desde cedo, as crianças têm aprendido que desconfortos são inaceitáveis, que para todo caminho existem atalhos e que felicidade é fazer o que se quer e não o que se deve. Mas uma formação em que tudo é conduzido da maneira mais fácil, evitando ao máximo qualquer sacrifício ou esforço, cobra um preço alto mais tarde.

Não é por acaso que grande parte das pessoas busca prosperidade sem disciplina, estabilidade sem renúncia e reconhecimento sem preparo. Diante de alguns resultados pontuais, às vezes até rápidos, a ilusão de que esse é o melhor caminho se fortalece, mesmo sem base sólida.

O sucesso real não é um acontecimento, mas um processo que exige estrutura emocional para enfrentar o silêncio e a ausência de glamour durante o período de construção. Quando o sucesso é meteórico, o fracasso é garantido.

A cultura do sucesso rápido é sedutora porque promete eliminar o custo invisível do progresso: dedicação, sacrifício e renúncia. Mas pular etapas é como construir algo sem alicerce, sem estrutura, sem fundamento.

Se existe uma fórmula para o sucesso, certamente ela inclui repetição, paciência, frustração e constância. Ignorar isso não torna o caminho mais curto, mas apenas mais instável.

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Colaborador

Patrícia Lages / Foto: bpawesome/gettyimages