Não era amor, era cilada
Criminosos se aproveitam da vulnerabilidade emocional e da carência de vítimas para aplicar golpes e até praticar sequestros
Recentemente, um ex-lutador britânico-americano e seu irmão foram presos sob acusação de exploração de mulheres. Segundo relatos, o ex-lutador atraía suas vítimas com a promessa de lealdade e casamento, mas, na verdade, elas eram aliciadas para uma suposta rede de tráfico de pessoas, pornografia e escravização sexual de mulheres.
Mas não é preciso ir tão longe para constatar a existência de golpes disfarçados de amor. Em São Paulo, por exemplo, várias pessoas já foram atraídas por criminosos que, munidos de aplicativos de relacionamento e falsos perfis em redes sociais, cometem diversos tipos de golpes. Eles estudam suas vítimas e alguns até investem em namoros virtuais que podem durar meses.Além da decepção amorosa, as vítimas acabam com um desfalque em suas contas bancárias.
Cheios de lábia, muitos desses criminosos se passam por estrangeiros bem-sucedidos, como militares norte-americanos, médicos, petroleiros e empresários, e prometem mundos e fundos. Eles contam histórias absurdas, sempre acompanhadas de pedidos urgentes de dinheiro.
Outro ponto em comum entre eles é que nunca estão disponíveis para ligações por videochamada, pois assim a mentira do falso perfil cairia por terra.
É habitual ainda o envio de vídeos ou fotos de caixas com presentes supostamente mandados para o Brasil. Depois, a vítima recebe ligações de falsos atendentes (que fazem parte da quadrilha do golpista), alegando que o “presente” estaria retido na alfândega e que a liberação só pode ser feita mediante o pagamento de taxas por meio de depósito ou transferência. Para dar mais credibilidade à iniciativa, os golpistas até criam sites falsos de empresas de remessas. Com o crescente número de golpes desse tipo, o site da Receita Federal advertiu que não exige nenhum pagamento, por meio de depósito ou transferência em conta-corrente, e que todos os tributos alfandegários administrados pelo órgão são recolhidos por meio de Documento de Arrecadação de Receitas Federais (Darf).
Outro tipo de golpe que tem vitimado principalmente homens é a extorsão mediante sequestro. Ele funciona da seguinte forma: depois de se relacionar com uma pessoa por meio de aplicativo de namoro e marcar o primeiro encontro presencial, a vítima é surpreendida por sequestradores, que a mantém refém por um período para roubar seus bens e esvaziar suas contas bancárias.
Dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo divulgadas em janeiro revelam um aumento de 143,5% dos crimes de extorsão mediante sequestro no Estado em 2022, em comparação ao ano anterior.

O psicanalista e treinador comportamental Júnior Marabá alerta quanto ao perfil de pessoas mais vulneráveis a esses golpes. “Os mais suscetíveis a cair em golpes do falso amor ou até em promessas falsas de utopias financeiras, como pirâmides de ganhos rápidos, são pessoas que têm déficits de amor, ou seja, que têm traumas de amores não correspondidos ou não preenchidos na primeira e na segunda infância ou na fase inicial da vida adulta, quando é formada de fato a psique.
São pessoas que viveram traumas e tiveram lacunas não preenchidas, seja o amor de pai ou mãe, seja de alguém próximo, então ela vai buscar isso em outras pessoas, o que é chamado, na psicanálise, de transferência”, explicou. Para o psicanalista, essas pessoas se deixam levar com mais facilidade quando identificam que uma pessoa está prometendo o que lhes falta.
Já o perfil predominante do golpista é descrito por Marabá como loucura lúcida, também conhecida como sociopatia, que é comum em pessoas que não têm nenhum tipo de empatia pelo outro e visam apenas satisfazer seus próprios interesses. “São pessoas de muita influência e que conseguem envolver outras com facilidade. Alguém com perfil sociopata é muito perigoso porque propõe um envolvimento emocional falso muito grande e consegue usar a pessoa para fazer o que quiser”, diz.

Segundo Marabá, as pessoas precisam entender que, com o envolvimento emocional, inicia-se um processo de paixão, que, na neurociência, é chamada de demência temporária. “É um processo de bestificação do ser. A pessoa fica meio boba, justamente pelo preenchimento do vazio de uma época da vida. É uma fantasia que ela cria, algo lúdico, mas, quando há maldade por trás disso, ela não percebe. Por isso é preciso buscar sempre coerência com a realidade e caminhar com o pé no chão. Mesmo com o desejo de estar perto do outro e até de se casar depois de um mês de conhecer a pessoa, a consciência tem que entrar e frear esses impulsos”, afirma.
Ele falou ainda das consequências dos golpes relacionados ao amor: “o maior prejuízo para o emocional de quem sofre uma desilusão amorosa é a descrença no verdadeiro amor e no relacionamento saudável. Essas pessoas carregam esses traumas e vão a cada dia se distanciando mais de um relacionamento saudável e de um amor verdadeiro”, disse.
Para ele, a principal atitude para não se tornar presa fácil de golpistas é curar as feridas do passado, tanto da infância como da vida adulta.
“Buscar acompanhamento profissional é um caminho para ajudar a pessoa se curar e não ficar mais procurando o amor faltante em relacionamentos, conquistas rápidas ou em algo relacionado a essa ilusão prometida”, conclui.
Reconstrução do eu
Pessoas que passaram por traumas na vida amorosa ou estão estagnadas por causa de um passado de traições e rejeições podem participar do curso Reconstrução do Eu 2.0, oferecido gratuitamente às quintas-feiras, durante as palestras da Terapia do Amor, na Universal.
Com ele, os participantes têm a oportunidade de recomeçar a vida amorosa de forma inteligente e buscar, antes de tudo, a cura interior.
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