Mulheres privadas de liberdade encontram oportunidades de recomeço por meio da UNP
No Brasil, 35 mil reeducandas participam de ações sociais do programa, que oferece cursos profissionalizantes, atendimentos e atividades voltadas à ressocialização
Para quem cumpre pena, ter acesso a conhecimento e qualificação profissional representa o primeiro passo para uma vida diferente depois da reclusão. Abraçar oportunidades como essa foi a escolha de 60 internas da Penitenciária Feminina de Votorantim, no interior de São Paulo, que concluíram recentemente os cursos de drenagem linfática e postura e imagem profissional, oferecidos pela Universal nos Presídios (UNP). E a iniciativa terá continuidade: outras quatro turmas, com 120 alunas, terão início ainda em setembro.
A UNP atua há quase 40 anos e vem ampliando o trabalho voltado às mulheres diante do crescimento expressivo da população feminina encarcerada no país. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), desde 2000, esse grupo cresceu 567,4%, mais que o dobro registrado entre os homens.
Atualmente, as ações do programa social alcançam 35 mil mulheres no Brasil. Desse total, 11 mil estão matriculadas nos cursos disponibilizados em 91 unidades prisionais, entre estabelecimentos exclusivamente femininos e unidades mistas. São 111 opções de formação, escolhidas de acordo com os interesses das participantes. Entre as mais procuradas estão maquiagem, confeitaria, estética, empreendedorismo, manicure e hotelaria.

Mas a atuação não se limita à capacitação profissional. As reclusas também frequentam palestras, sessões de filmes, atendimentos de saúde e atividades de escuta ativa. A UNP oferece ainda assistência jurídica e mantém ajuda semanal nas alas maternas, prestando apoio a mães, bebês e gestantes.
De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 57.222 mulheres estavam privadas de liberdade em 2025, número considerado recorde histórico. A população carcerária feminina vem crescendo a cada ano, com drogas e tráfico liderando o ranking de crimes praticados. “Nossa percepção é de que muitas delas, nos dias atuais, estão mais vulneráveis à criminalidade do que décadas atrás. Por meio da oportunidade de um futuro diferente, oferecemos cursos de capacitação para prepará-las para o mercado de trabalho e para um novo começo”, esclarece Clodoaldo Rocha, responsável pela UNP no Brasil.

Conhecimento para reconstruir a própria história
Na Penitenciária Feminina de Sant’Anna, na capital paulista, L.G.C. cumpre pena em regime fechado por homicídio há um ano e nove meses. Para ela, cada aprendizado representa uma possibilidade para o futuro. “Fiz os cursos de auxiliar de cabeleireiro, spa dos pés, marketing, empreendedorismo, maquiagem e fotografia. Pretendo levar o que aprendi aqui para fora do cárcere. Sou grata por esse trabalho realizado no presídio, porque salvou a minha vida.
“A transformação também é percebida por quem vê de perto as atividades. Voluntária da UNP há dois anos e meio, Flávia de Oliveira da Silva afirma observar mudanças no comportamento das participantes ao longo das aulas. “Já tive a oportunidade de acompanhar diferentes cursos e, em todos, notei a mesma transformação: elas começam tristes, desanimadas e sem perspectiva para, ao final, estarem mais confiantes, motivadas e com um novo olhar para o futuro. Até a fisionomia delas muda.”
Trabalho que ultrapassa fronteiras

A atuação da UNP não está restrita ao Brasil, chegando atualmente a mais de 40 nações. Na Argentina, por exemplo, 656 mulheres são beneficiadas pelas iniciativas do programa. Desse total, 76 estão matriculadas nos cursos ministrados em cinco unidades prisionais, com atividades que incluem formação em decoração, vendas e empreendedorismo.
“Temos visto muitos resultados. Realizamos ações sociais por meio de cursos, oficinas de artesanato, palestras, celebrações, entre outros, e também com acolhimento às famílias e aos trabalhadores do sistema penitenciário, a quem também são ofertados cursos, atendimentos e eventos”, explica José Alexandre Theodoro, responsável pela UNP na Argentina.
No México, o trabalho com essa população começou em 2015, no presídio de Chihuahua, capital do estado que leva o mesmo nome, e se expandiu para 57 unidades prisionais em 19 estados. Atualmente 370 mulheres presas são beneficiadas nas ações da UNP no país, onde segundo o responsável pelo programa social, Marcos Rios, “a Igreja tem buscado fazer um trabalho constante com essas mulheres especialmente porque apenas 10 % delas, aproximadamente, recebem visitas, o restante conta com a assistência do governo ou de grupos de apoio como a UNP. Por não receberem visitas, o índice de depressão é muito forte entre elas”.

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