Morte do cão Orelha expõe falhas que vão além da investigação
Caso chocou o país provocando comoção e reflexões sobre o comportamento humano
A morte do cão comunitário conhecido como Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis, uma das regiões mais luxuosas da capital catarinense, ganhou repercussão em todo o país, gerou protestos e chocou quem convivia com o animal de dez anos e considerado extremamente dócil.
Ele foi encontrado no último dia 15 com sinais de espancamento em várias partes do corpo e, por causa da gravidade, precisou ser sacrificado.
Segundo o delegado-geral da Polícia Civil, Ulisses Gabriel, quatro adolescentes estão sendo investigados pela autoria do crime.
Além de agredirem o animal, eles também teriam tentado afogar outro cachorro conhecido pelos moradores como Caramelo, que costumava andar com Orelha. Depois do episódio, Caramelo acabou sendo adotado.
Dois dos adolescentes investigados estão em Florianópolis. Os outros dois estão nos Estados Unidos, em uma viagem que, segundo a família, já estava programada.
Repercussão
A comoção em torno do caso levou a manifestações na região e aumentou a pressão por justiça. Como resposta, o governador Jorginho Mello sancionou uma lei estadual de proteção a cães comunitários.
Ao comentar o caso, ele afirmou que as provas reunidas na investigação são fortes e impactantes.
Por envolver menores de idade, o processo corre em segredo de justiça, como determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Adolescentes não são presos, mas podem ser internados em instituições específicas, caso essa seja a decisão da Justiça ao final do processo.
Essa internação pode durar até três anos. Os pais não respondem automaticamente pelos atos dos filhos.
Para que haja responsabilização, é preciso que fique comprovada omissão, negligência ou participação direta, o que também está sendo investigado.
Li centenas de comentários nas redes sociais pedindo a morte de jovens que sequer sabemos se são, de fato, os autores, já que não existe controle sobre as apurações realizadas no ambiente virtual.
É importante dizer que, apesar da indignação, totalmente compreensível, “pagar o mal com o mal” não é, e nunca será, o caminho. Afinal, transformar a barbárie em desejo de vingança apenas prolonga o ciclo da violência. A população pode, e deve, cobrar respostas das autoridades e da Justiça, com investigação, responsabilização e punição dentro da lei.
O que nos levou até aqui?
Vivemos uma época em que o acesso às denúncias de maus-tratos é muito mais comum do que anos atrás. Elas acontecem todos os dias: contra animais, crianças, mulheres, homens e idosos.
Neste caso, em especial, faltam palavras diante do sofrimento vivenciado por Orelha, que enfrentou agressões sem qualquer possibilidade de defesa.
Do outro lado, quando penso nos pais, que muitas vezes se dedicam a ensinar valores como respeito, caráter e honestidade, vejo pessoas que precisam lidar com outra dor difícil de nomear: a violência praticada pelos próprios filhos. Infelizmente, há também responsáveis que, diante do erro, escolhem relativizar, justificar ou defender atitudes indefensáveis, contribuindo para a normalização daquilo que jamais deveria ser aceito.
Mas me pergunto, sempre que vejo uma notícia desse tipo, o que leva as pessoas a agirem assim? A maltratarem, baterem, matarem? Esse episódio expõe a ausência de limites morais e a naturalização da maldade.
Porque quando a dor do outro vira diversão, desafio ou impulso, algo essencial foi perdido.
A violência não surge de repente. Ela se constrói no descuido, na ausência de princípios, no ódio banalizado, na tolerância ao errado. Casos assim não chocam apenas pelo desfecho, mas pelo alerta que deixam.
Proteger a vida, qualquer vida, deve ser um princípio básico. Por isso, é urgente pensar sobre nossa humanidade e sobre os caminhos que estamos escolhendo seguir como sociedade.
Então, toda vez que for criticar ações que incentivam a moral e o amor ao próximo, pense duas vezes. A falta de freios nunca esteve tão evidente. E eles só são construídos por meio de uma boa educação, do exemplo e da responsabilidade.
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