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Notícias | 1 de abril de 2018 - 03:05


Erotização infantil: um mal da sociedade precoce

A importância de criar uma rede de proteção nas crianças contra a cultura de hipervalorização da sexualidade

Maquiagem em excesso, preocupação com padrões de beleza, vestimentas que não condizem com sua idade. Tudo isso faz parte de um comportamento cada vez visto entre as meninas: a erotização infantil.

Segundo o psicólogo e psicoterapeuta sexual e de casais Felipe Gonçalves, a erotização precoce é a reprodução de comportamentos adultos por parte das crianças. Eles podem ser estimulados pela mídia, pela música e até por meio do relacionamento familiar. “A criança é exposta a esses estímulos mesmo sem ter a capacidade erótica para assimilá-los”, explica.

Para ele, o cenário atual é propício: crianças conectadas desde cedo aos smartphones e exposição à pornografia somada a uma cultura de hipervalorização da sexualidade feminina fazem das meninas as principais vítimas. Os meninos também são estimulados a imitar os papéis de virilidade. No entanto, a erotização infantil masculina não é tão forte quanto a feminina. Desde cedo, os meninos ouvem frases clichês como “mostra ao papai que você é homem”, enquanto para as meninas a mensagem é de que sigam o padrão “bonito é ser magra”.

A cultura e a mídia são fatores determinantes. “Uma criança está assistindo um desenho e, na sequência, vem o comercial publicitário. Dependendo da idade, ela não consegue separar o desenho do comercial e vai assimilando tudo como verdade”, explica Felipe. Quando a criança presencia a objetificação do corpo da mulher em revistas ou anúncios, por exemplo, está sendo mostrado a elas que aquilo é um corpo idealizado e deve ser reproduzido. Surgem os rótulos do que é belo, magro, feio, etc.

A influência dos pais

Felipe garante que o comportamento familiar também faz com que a criança fique exposta. “Uma família que tem cuidado com a conduta da criança vai criar uma rede de proteção, já uma família condescendente não”. É importante estabelecer limites quanto a que roupa usar, o que pode ser visto na TV e nas redes sociais, entre outros.

O psicoterapeuta diz ainda que, no caso de meninas, se a mãe vive preocupada com a estética corporal, a filha entende que aquilo é regra e pode adquirir padrões inadequados ainda na infância. “Antes, a anorexia se manifestava na adolescência, hoje crianças de cinco e seis anos têm essa doença”, alerta.

Qual seria a solução?

É dever dos pais e responsáveis, em especial da mãe, conversar sobre sexualidade com a menina, sem transferir seu papel para a escola. Ao ver que ela reproduziu algum comportamento diferente, ligado à erotização, seja no espaço público, seja nas redes sociais, é preciso, com amor e cuidado, orientá-la e sempre ficar atenta. Nunca é tarde para readequar essas condutas.

Segundo o psicoterapeuta, a solução está em ensinar a criança a diferença entre o público e o privado. Se a menina, por exemplo, ganhar maquiagem para brincar, o adulto deve deixar claro que ela pode brincar em casa, pois está sob o cuidado dos pais. Ele também lembra que a escola tem um papel importante: analisar de onde surgiu o comportamento da criança e não o de censurar. “É missão dos professores levar informações aos pais e ajudar as crianças a refletirem sobre os riscos da erotização.”


  • Por Katherine Rivas/ Imagem: Fotolia com arte de Ed Edson 



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