Do “jeitinho brasileiro” à corrupção
O compromisso com o erro que nossa sociedade assume a está destruindo
O brasileiro está cansado de vivenciar a corrupção. O uso de meios ilegais para obter vantagens pessoais deixou marcas profundas no País, já que quando há desvio de verbas públicas a sociedade sofre de várias maneiras e deixa de se desenvolver para retroceder. A corrupção afetou a visão das pessoas sobre a política e abalou a credibilidade da população nos representantes públicos.
Mas muitos brasileiros que reclamam do que veem no cenário político cometem ilegalidades semelhantes. É o caso daqueles que têm ligação clandestina de TV por assinatura, usam wi-fi do vizinho sem autorização, compram produtos falsificados, baixam filmes on-line, dirigem acima da velocidade permitida, aproveitam o bom relacionamento com alguém que tem influência para pedir favores, etc. Exemplos não faltam, mas será que as pessoas têm ideia do quanto suas atitudes afetam negativamente a sociedade?
A semente do furacão
Gabriel Amaral, professor de ciências políticas da Faculdade Republicana, explica que, a princípio, esses desvios de conduta que acontecem no cotidiano podem até ter pequeno potencial ofensivo, mas podem ganhar projeção a longo prazo. “Furar a fila de atendimento, por exemplo, não é corrupção até pelo sentido legal da nossa legislação, que considera corrupção apenas aquilo que envolve o agente público, mas esse ato fere um preceito de moralidade e, ferindo esse preceito de moralidade, nós iniciamos um processo que vai descambar em corrupção”.
Apesar de não ser crime, a irregularidade é contrária às regras da instituição que estabeleceu os critérios do serviço. “Quando alguém fere essa institucionalidade, começa a corrosão da credibilidade da instituição, o que gera um novo problema, pois é a credibilidade que a mantém legítima. E, se não há legitimidade, as pessoas começam a questionar a existência dessa instituição”, afirma.
Do “jeitinho brasileiro” ao crime
A criatividade dos brasileiros para driblar regras ganhou um apelido carinhoso, que inclusive é reconhecido no exterior: “jeitinho brasileiro”. Embora pareça inofensivo, muitas vezes o que começa com esperteza ou malandragem termina em crime. Um exemplo é o furto de energia, também conhecido como “gato”. Quem faz um arranjo ilícito para consumir eletricidade sem pagar pode pensar que não está fazendo mal a ninguém, afinal a companhia responsável pela distribuição é “rica”.
Contudo existem diversos impactos negativos, como riscos de curtos-circuitos e incêndios. Há ainda os efeitos financeiros, já que as empresas consideram o furto na taxa que cobram ao consumidor e ao governo e o chamam de perdas comerciais. “Isso impacta todo mundo, inclusive quem não faz o ‘gato’, que acaba pagando. E, quanto mais gente faz, mais atrativa se torna a ligação clandestina, porque a conta vai subindo e, consequentemente, as pessoas vão normalizando esse comportamento e achando natural fugir das elevadas tarifas”, explica Amaral.
Uma situação ainda mais grave é a relacionada ao pagamento de um agente público de trânsito para evitar receber uma multa. “Essa pessoa de forma individual está fazendo corrupção, mas parece que não está gerando prejuízo ao público. É preciso considerar, porém, que essa atitude pode ter escalada: se aquele agente de trânsito começar a aceitar diversas formas de propina gerará a ineficiência da política pública e, consequentemente, essa ação do cidadão gerará um descrédito da sociedade nas instituições públicas”, enfatiza Amaral.
Reflexos na política
Além das falhas na moralidade afetarem o bolso dos brasileiros e a credibilidade das instituições, há também impacto político: “esses pequenos atos fazem com que as pessoas se desinteressem pela escolha de representantes”, ressalta Amaral. Afinal, de que adianta pesquisar e escolher bem um político se o normal é que ele use o jeitinho brasileiro e tire vantagem? Se todos vão agir assim, qualquer candidato serve. De fato, o momento político que vivemos levanta a seguinte reflexão: a corrupção e a imoralidade compensam?
“Quando vemos a baixa credibilidade do Congresso percebemos que os políticos são reflexos da sociedade descrente que nasce desse processo de furar a moralidade que ela mesmo criou. O Congresso é um espelho da sociedade, já que são eleitos aqueles que se aproximam do modelo de sucesso na visão do povo”.
Comprometa-se com o correto
É inegável que muitos políticos estão suscetíveis a usarem seu poder para tirar algum tipo de vantagem – financeira ou não. Mas os eleitos são reflexos do povo e para que aconteça uma real mudança política é preciso que as pessoas ajam corretamente. É preciso deixar de normalizar o que é errado, mesmo quando ele é repetido consistentemente pela maioria.
Destruir essa raiz corrupta que foi plantada na sociedade só é possível a partir da decisão individual de agir com retidão, mesmo que isso gere um preço a pagar. É possível que os que agem certo sejam vistos como bobos, já que os que se acham espertos preferem atalhos, mas isso não é verdade.
Afinal, até a Bíblia orienta em Filipenses 2.3-4: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros”. Aquele que opta pelo jeitinho ou pela corrupção está não apenas ferindo aos homens, mas também às leis de Deus. Consequentemente, seu dano será também espiritual. Deus sabe que o homem é falível, mas dá a ele a oportunidade de reconhecer sua falha e se afastar dela, se arrepender e não manter compromisso com o erro. E é isso que ajudará a sociedade a avançar.
“O que mantém a coesão do tecido social é um preceito ético comum.
Como sociedade, temos que ter uma perspectiva comum sobre justiça, moral e ética. Afinal, o formato educacional, de saúde e nas demais áreas se torna reflexo dos modelos morais e éticos que adotamos como sociedade”, finaliza Amaral.
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