Do inferno à cura

Dois ex-usuários de drogas contam como superaram o vício e alertam: a dependência pode começar em festas de amigos. O mundo das drogas é lucrativo para traficantes, mas gera destruição para os dependentes e seus familiares

Imagem de capa - Do inferno à cura

Janaína Alves (foto abaixo) era uma adolescente cheia de sonhos e de amigos. Aos 15 anos, ela começou a beber cerveja e destilados quando ia a baladas. Também usava maconha. A jovem não imaginava que a “curtição” a levaria a morar nas ruas anos depois.

Primeiro vieram os episódios semanais de embriaguez, mas naquela época eles eram motivo para risadas. Depois, ao completar 18 anos, Janaína experimentou cocaína. “Eu precisava voltar para casa até meia-noite, mas estava muito bêbada e minha mãe ia perceber. Então uma pessoa me ofereceu cocaína para cortar a ‘brisa’ da bebida e funcionou.”

Para continuar se divertindo, ela usava doses cada vez maiores de bebida e de cocaína. Aos poucos, sua vida passou a girar em torno das festas com os amigos. Ela parou de estudar e abandonou o trabalho.

Janaína pensava que estava no controle da situação, até que usou crack aos 24 anos. “Como não tinha dinheiro, eu roubava e vendia drogas para sustentar o vício.” Sua situação piorou depois que foi presa. “Eu sentia muita falta da minha família e prometi que mudaria.”

Tentativa frustrada
Depois de oito meses, ela saiu da prisão e, incentivada pela mãe, aceitou ir para uma clínica de reabilitação. “Lá eles me davam muito remédio. Eu vivia dopada. Quando saí, passei a usar o dobro de drogas”, detalha ela, que foi viver nas ruas do centro de São Paulo, na conhecida região da Cracolândia. “Tinha medo de ser presa de novo, então comecei a me prostituir para usar drogas. Contraí sífilis, tinha feridas pelo corpo, perdi meus dentes e não tomava banho.”

Janaína diz que chegou a fumar mais de 60 pedras de crack em um único dia. Ela se recorda dos dias sombrios em que buscava comida nas latas de lixo. “Cheguei a perder a voz por um tempo porque fumava crack em palha de aço. Na Cracolândia é possível encontrar droga de todos os preços e isso amarra o viciado. É um inferno.” Durante o período em que viveu nas ruas, ela teve três filhos e eles foram deixados com a sua mãe.

Esperança
Parecia que seu “inferno” não tinha fim. Entretanto, certo dia, em um ato de desespero, Janaína pediu socorro aos carros que passavam pela avenida em que ela estava. “Estava sem dormir, não aguentava mais aquela vida. Eu me joguei na frente dos carros até que uma pessoa parou.” Ela recebeu ajuda de Tiago Queiroz, que a levou para a casa da mãe dele e lhe ofereceu banho e alimento. “Quando entrei no carro dele, eu queria roubar o som, mas ele começou a falar de Deus, disse que tinha jeito para a minha situação e aquilo me deu esperança.”

Tiago a levou para a reunião do Tratamento para a Cura dos Vícios na Catedral da Universal na Avenida João Dias, em São Paulo.

“Lembro que o Pastor disse para eu abrir meu coração para Deus. Eu não sabia o que era isso, mas pedi para ser curada. Então comecei a usar a minha fé. Aprendi que Deus nos deu autoridade para expulsar o mal do vício. Não foi fácil, cheguei a ter uma recaída no início, mas já faz quatro anos que estou curada e sem vontade de usar drogas”, comemora ela, que retomou o contato com os três filhos de 13, 9 e 5 anos.

Hoje, aos 31 anos, Janaína realiza um trabalho evangelístico com pessoas que desejam superar o vício em drogas. Além disso, ela concluiu o ensino médio e trabalha por conta própria. “Sou muito grata a Deus por tudo que aconteceu na minha vida e por ter colocado essas pessoas para me ajudar. Meu objetivo é mostrar que tem saída para quem é viciado.”

R$ 9,7 milhões
Só na Cracolândia da cidade de São Paulo, a estimativa é que o tráfico de drogas movimenta R$ 9,7 milhões por mês. Cerca de 1.680 pessoas consomem drogas no local diariamente e gastam em média R$ 192,50 com o crack, segundo estudo da Unidade de Pesquisas de Álcool e Drogas (Uniad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Para 46% dos frequentadores da Cracolândia, o dinheiro para comprar drogas vem de roubos e furtos.

No Brasil, o cenário das drogas também é complexo. Uma pesquisa feita nacionalmente pela Fiocruz mostrou que 46 milhões de brasileiros beberam álcool até 30 dias antes do levantamento e 4,9 milhões usaram drogas ilícitas 12 meses antes. Além disso, cerca de 2,3 milhões de pessoas apresentaram critérios para dependência de álcool nos 12 meses anteriores à pesquisa. O levantamento foi concluído em 2015, mas teve os resultados divulgados em agosto de 2019.

A Cura
Apesar do cenário negativo, a dependência de drogas tem cura. É isso que defende o Bispo Claudio Lana, responsável pelo Tratamento para a Cura dos Vícios na Universal da Avenida João Dias, na zona sul da cidade de São Paulo. Ele mesmo superou o uso de cocaína,
álcool e maconha.

“As clínicas e tratamentos convencionais dizem que o vício é uma doença incurável, progressiva e fatal e que o viciado deve se considerar impotente. Esse discurso é muito negativo. Para nós, o vício tem cura.”

O Bispo enumera as diferenças do Tratamento para a Cura dos Vícios em relação a outras alternativas: “o Tratamento oferecido na Universal trabalha para uma desintoxicação mental e espiritual do viciado, não apenas a química. Além disso, as famílias podem participar, mesmo que a pessoa viciada não aceite ajuda. Aqui não há medicamentos ou internações. E não tem custo.”

O Bispo Lana ainda destaca o trabalho feito com a família dos dependentes: “essa ação tem o objetivo de curar os familiares da codependência. Muitos chegam descrentes, sem saber o que fazer. Aqui, a pessoa descobre que a raiz do vício é espiritual. A partir do momento que ela sabe contra quem e contra o que está lutando, ela consegue vencer e salvar o familiar que tem vício.”

Em fevereiro, o Tratamento completou mais um ano de existência, celebrado na João Dias com o Domingo da Gratidão, no dia 23. O evento contou com a apresentação de milhares de pessoas que afirmam que foram curadas da dependência de drogas. Só em 2019, as reuniões do Tratamento, que ocorrem aos domingos nas catedrais da Universal, somaram mais de 1,4 milhão de beneficiados em todo o Brasil.

O grande vilão
O psiquiatra e palestrante Davi Vidigal aponta o álcool como a droga psicoativa mais problemática do mundo. “Os riscos do álcool ainda são subestimados e ele está relacionado a várias doenças e a problemas como violência e acidentes. O álcool é glamourizado em nossa sociedade por meio da mídia e das relações sociais. Nas propagandas, o álcool está associado a festa, alegria, carros e pessoas bonitas. As grandes marcas de bebidas patrocinam festas, eventos, shows e qual é o impacto disso na infância e na juventude?”, questiona ele.

Segundo o especialista, o álcool pode abrir caminho para situações perigosas, incluindo o uso de drogas ilícitas. “Quando a pessoa bebe, ela fica mais relaxada, vai perdendo o medo e vão acontecendo situações que não são positivas”, alerta. Happy hour?

E como escapar dos apelos do álcool e de outras drogas? Davi Vidigal diz que o primeiro passo é buscar o autoconhecimento e um novo sentido para o conceito de felicidade. “A hora feliz – happy hour – pode começar a partir do momento em que eu abro os olhos de manhã e em que eu vejo importância no que estou fazendo. De que forma você encara as dificuldades? Se você está só reclamando da vida, talvez esteja vivendo de forma distorcida. Por que o ‘happy hour’ só pode ser em uma mesa de bar?”

O psiquiatra elogia o Tratamento para a Cura dos Vícios: “em geral, os tratamentos para a dependência de drogas são baseados no conceito de vitimismo e de incapacidade do dependente. Já o Tratamento oferecido na Universal afirma que é possível vencer as drogas.

Assim, a pessoa sai do discurso de vítima e deixa as limitações. Por meio da fé, o Tratamento dá esperança a pessoas que estavam desacreditadas por familiares e pela sociedade.Isso não tem preço”, avalia ele, que acompanhou o trabalho feito na João Dias.

Descontrole
Antes de ajudar Janaína Alves, Tiago Queiroz, (foto abaixo) de 33 anos, enfrentou vários problemas por causa do álcool. Entre os 14 e os 29 anos, ele sofreu acidentes, teve perda total de três veículos e discutiu com a mãe. “Eu usava álcool diariamente e às vezes maconha e lança-perfume também, mas não me via como dependente.”

Apesar da dependência, Tiago se formou em logística e comércio exterior. Ele tinha um bom trabalho, o que lhe garantia renda e inclusão social. “Eu estudava, trabalhava, mas tinha problemas com o álcool. Passava a semana inteira pensando no fim de semana.” Após aumentar o consumo de bebida, ele teve uma mudança de comportamento. “No início, eu tentei esconder a bebida. Nos últimos anos do vício, eu me tornei mais agressivo. Mas minha mãe continuou lutando por mim. Ela fazia orações e correntes na Universal e me ungia. Ela dizia que tinha saída para mim.”

Segundo Tiago, o momento mais difícil foi quando ele bateu o carro pela terceira vez após uma bebedeira. “O carro teve perda total.

Quando voltei para casa, vi minha mãe de cama, doente. Olhei ao meu redor e percebi que eu não tinha mais o caráter de um homem. Aí entendi que precisava mudar.”

Uma luz
Tiago foi pela primeira vez ao Tratamento para a Cura dos Vícios acompanhado da mãe e da tia. “Na primeira vez não deu certo. Na semana seguinte, decidi obedecer aos ensinamentos. Desde janeiro de 2016, estou livre do álcool. Nunca mais usei nem tenho vontade”, relata ele, que há dois anos se casou com Queila Queiroz. “Deus mudou completamente minha vida. Hoje tenho minha família, a vida financeira é prospera, sou muito grato por tudo. Levar outras pessoas para o Tratamento é o combustível que mantém minha fé avivada.

Quero mostrar a elas que existe uma luz no fim do túnel.”

imagem do author
Autor

Rê Campbell / Fotos: Getty images e Demetrio Koch,