Crise de identidade e propósito: por que tantas pessoas se sentem perdidas?

A busca por um sentido virou o maior desafio da saúde mental moderna

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Se você sente que está correndo em uma esteira que não leva a lugar nenhum, saiba que não está sozinho, e a ciência tem os números para provar. A Deloitte, uma das maiores empresas de auditoria e consultoria empresarial do mundo, em sua pesquisa global de 2025 com mais de 23 mil jovens, revelou um dado que serve de bússola para o nosso tempo: 89% da Geração Z e 92% dos Millennials colocam o “senso de propósito” como o pilar central da vida. Para essas pessoas, não basta ter um boleto pago, é preciso que o esforço diário faça sentido. O problema é que quase metade dos que se sentem mentalmente exaustos não consegue enxergar utilidade no que faz. É o chamado “gap do propósito”: a vontade de mudar o mundo colidindo com a parede da realidade.

Essa desconexão gera o que os pesquisadores da Gallup (empresa americana de pesquisa de opinião) e a Universidade Harvard, no “Global Flourishing Study” de 2025, chamam de crise do “florescimento”. Antigamente, a felicidade humana seguia um desenho em “U”: éramos felizes na juventude, entrávamos em “crise na meia-idade” e voltávamos a sorrir na velhice. Mas o jogo mudou. Jovens de 18 a 29 anos estão iniciando a vida adulta com níveis de bem-estar e senso de direção muito mais baixos do que os de seus pais. O estudo aponta que a falta de um “norte” é o maior combustível para a ansiedade moderna. Em vez de florescer, muitos estão apenas tentando não murchar.

Essa sensação de estar perdido não é uma “frescura” da mente, mas um fenômeno complexo. Como bem define a página “Saúde Mental”, do Ministério da Saúde: “A saúde mental não é algo isolado, é também influenciada pelo ambiente ao nosso redor. Isso significa que deve-se considerar que a saúde mental resulta da interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Pode-se afirmar que a saúde mental tem características biopsicossociais. Entender a saúde mental como algo que envolve o corpo, as emoções e a forma como interagimos ajuda a ver que todos têm um papel importante em cuidar do bem-estar de todos, cuidando de nós mesmos e apoiando uns aos outros”.

A anatomia da crise

A crise de identidade explode quando o seu “eu” real luta com a versão que você tenta sustentar para o mundo (e que, talvez, ele esteja exigindo de você). Antigamente, a vida era mais simples e os papéis sociais eram bem definidos; não havia tanto espaço para grandes dilemas existenciais. Hoje, a internet despeja sobre nós um excesso de opções e vozes que ditam o que devemos ser, transformando a liberdade em uma pressão externa esmagadora.

Essa liberdade, ironicamente, paralisa. Quando você sente que pode ser “qualquer coisa”, o peso de escolher o caminho perfeito vira um fardo insuportável. O problema é que a vida real não é um feed infinito de possibilidades. Esse choque entre o que a sociedade vende como possível e a sua realidade (interna e externa) é o que gera o curto-circuito que chamamos de “crise”.

As redes sociais são o combustível dessa fogueira. Vivemos em um estado de comparação constante, no qual medimos nossa vida real, e imperfeita, pela régua dos momentos editados dos outros. Essa pressão social cria expectativas irreais: precisamos ser produtivos, esteticamente perfeitos e ter opiniões relevantes o tempo todo. O resultado? Uma sensação de vazio profundo, já que o propósito passa a ser a busca por algo irreal, em vez de algo verdadeiro e alinhado com quem realmente somos.

As consequências e a saída

O impacto emocional disso é direto: insegurança e uma paralisia que nos impede de definir valores básicos. Sem valores, não há direção. Sem direção, qualquer caminho parece errado (ou certo). A saída, no entanto, não está em uma fórmula mágica, mas no resgate do autoconhecimento e de valores inabaláveis que resistem ao tempo, como os princípios que encontramos na Bíblia.

Para entender como sair desse labirinto e alcançar o equilíbrio entre o que você ama e o que o mundo precisa, confira abaixo.

5 passos para lidar com a crise de identidade

Se a crise de identidade é um excesso de “ruído” externo, a solução é o isolamento acústico e a experimentação. Confira cinco passos para encontrar clareza:

1 – Saiba ouvir: se a sua rede social faz você se sentir um lixo, o problema não é você, mas o conteúdo que você consome. Dê unfollow (deixar de seguir) nos “ruídos”. Tente ouvir quem você é de verdade e acompanhe conteúdos alinhados aos seus princípios.

2 – Troque metas por valores: metas como “ganhar X reais” podem falhar e gerar frustração. Valores como “autonomia”, “criatividade” ou “ajudar o próximo” são bússolas que não se quebram, independentemente da profissão que você exerça.

3 – A regra dos microexperimentos: não mude de carreira ou de vida por impulso. Teste. Quer publicar um livro? Escreva um pouco por dia. Quer mudar de área? Faça um curso de fim de semana. O caminho é a prática com estratégia.

4 – Senso de serviço: pense em como você pode contribuir para a sociedade. O que você pode fazer para torná-la melhor, seja por meio do seu trabalho, de uma atividade voluntária ou no convívio familiar.

5 – Identifique seus talentos e interesses: procure entender qual é o seu caminho natural, aquilo que você faz bem e que lhe traz senso de realização.

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Colaborador

Redação / Foto: MarinaZg/GETTY IMAGES