Adoção: ato de amor e responsabilidade
Mais de 4 mil crianças aguardam por uma nova família no Brasil, enquanto a fila de interessados em adotar supera 30 mil pessoas. Entenda quais são os motivos para essa diferença
O ano de 2021 terminou com cerca de 29 mil crianças e adolescentes acolhidos em abrigos e orfanatos no Brasil, segundo informações do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), administrado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Destes, estima-se que apenas quatro mil sejam considerados aptos à adoção. Já a fila de espera formada por aqueles que têm o desejo de adotar é bem maior: ultrapassa 32 mil pessoas.
Se o número de famílias interessadas é maior do que o número de crianças, por que existe fila? Não é só a burocracia e as exigências legais que facilitam a formação da fila, mas também o perfil desejado pelos pais. Uma análise realizada pelo Observatório do 3º Setor com dados do CNJ revela que 26,1% dos interessados em adotar buscam crianças brancas, a maioria busca crianças com até quatro anos (58%), sem irmãos (61,5%) e saudáveis (57,7%).
O perfil desejado contrasta com o disponível: a maioria dos que aguardam pela adoção é formada por pardos (49,7%), mais da metade foi deixada com os irmãos e cerca de 25% apresentam algum problema de saúde. Contudo, a grande questão é a idade: aproximadamente 53% têm entre dez e 17 anos.
Impactos da pandemia
Durante 2020 e 2021 observou-se em todo o Brasil uma queda repentina no número de adoções.
Estima-se que essa redução tenha chegado aos 46% em comparação à quantidade de processos finalizados em 2019. Entre as razões apontadas para essa diminuição estão o fechamento de fóruns durante a pandemia e a dificuldade de realizar algumas etapas da adoção, como as visitas de assistentes sociais.
Decisão consciente
Adotar um filho é uma decisão que exige reflexão e responsabilidade, afinal, a família está tirando a criança de um abrigo para lhe oferecer um lar. Marcelo Xavier, advogado especialista em direito de família e sucessões, explica que, ao longo do processo de adoção, existe o estágio de convivência entre a criança ou adolescente e a nova família, período em que podem acontecer problemas de adaptação. E é aí que muitos decidem “devolver” o menor ao abrigo. Sem dúvida, essa situação deixa marcas nos que esperam uma nova família. “Nesse caso, os pais vão para o final da fila e há mais um detalhe: caso haja três ‘devoluções’, o interessado é automaticamente eliminado do cadastro de adoção e precisará recomeçar o processo do zero”, diz o especialista.
É importante enxergar a adoção não apenas como um processo legal, mas como sinônimo de amor e de responsabilidade, já que se trata da constituição de uma família.
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