Você foge da dor?

A busca desenfreada por prazer para “anestesiar” maus momentos pode gerar mais sofrimento e enfraquecer a resistência a males futuros

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Em um mundo com fácil acesso a prazeres de todos os tipos, ninguém mais quer passar por momentos de monotonia, tristeza e frustração. O problema é que a busca pelo prazer a qualquer custo pode levar muitas pessoas a um ciclo que gera mais frustração e pode desencadear diversos tipos de vício.

Nesse processo entra em cena a dopamina, um neurotransmissor que atua no sistema nervoso central e está relacionado a diferentes funções: cognição, coordenação motora, qualidade do sono, regulação de algumas emoções e alívio da dor (física ou psicológica), além de ativar a sensação de recompensa no cérebro.

Parece que a Humanidade está passando por um “vício em dopamina” global, pois, como a substância é liberada pelos neurônios quando se faz ou espera um ato prazeroso e alimenta o senso de recompensa e bem-estar no cérebro, o organismo pode querer mais dessa sensação, o que leva o indivíduo a exagerar na dose do prazer – ou usá-lo para mascarar dores físicas e psicológicas, segundo um estudo desenvolvido pela Universidade College London (UCL), na Inglaterra.

Isso é um explosivo combustível para vícios em geral, pois gera uma busca desenfreada pelo agente viciante que causa o aumento de dopamina – como compras, festas, redes sociais, sexo, esportes, drogas, jogatina, etc. – e, segundo a UCL, pode estimular uma pessoa a agir de maneira mais arriscada para conseguir mais prazer – daí os perigos de infecções sexualmente transmissíveis, acidentes, vícios, etc.

Porém, também de acordo com a UCL, esses “picos” de dopamina são bem parecidos com o que passam os viciados em drogas: no auge, a sensação parece boa, mas logo em seguida vem uma queda brutal no bem-estar. Ainda como no caso das drogas, o organismo se “acostuma” à quantidade de dopamina e passa a querer porções maiores nas vezes seguintes, gerando uma busca constante e frustrante,
pois ninguém aguenta esse ritmo eternamente.

Sem dor, sem ganho
Outra pesquisa, realizada pela Universidade Estadual de Nova York (Suny, na sigla original), indiretamente se liga à britânica e revelou que essa busca indiscriminada pela dopamina para fugir dos momentos difíceis tem gerado seres humanos incapazes de enfrentar e de suportar dores futuras – físicas e psicológicas –, e que preferem entrar em uma espiral de busca por mais prazer para sentir menos dor, “se anestesiando” (não por acaso, “dopar”, parte da etimologia de “dopamina”, tem seu significado bem claro a partir desse raciocínio).

A atual geração é famosa por não querer sentir dor, se dopando com um prazer que mascara a dor e a torna cada vez menos capaz de administrá-la – e de amadurecer.

O estudo da Suny não defende, claro, que alguém goste da dor, mas que se apoie em suas experiências anteriores, conte com a rede de apoio social de que dispuser (família, amigos, psicólogos, igreja, etc.) e enfrente situações como luto, derrotas ou tristeza em geral para aprender justamente a enfrentá-las no futuro, pois elas fazem parte da vida de qualquer ser humano. Assim, quando a dopamina em níveis saudáveis agir no organismo, o indivíduo saberá distinguir um prazer verdadeiro, que merece ser usufruído, daquele que somente disfarça a tristeza ou a dor em qualquer sentido e tende ao excesso.

Fé: força, não anestesia
A diferença entre um cristão verdadeiro e a pessoa que tem outras crenças não baseadas na Bíblia evidencia essa questão da dopamina como anestesia. As Sagradas Escrituras estão repletas de pessoas que não fugiram ao sofrimento – mas nem por isso gostaram dele, claro –, presente em algumas fases de suas vidas. Elas encararam a situação e se fortaleceram com isso, tomando posse de suas bênçãos com mais maturidade do que antes.

O apóstolo Paulo é um dos grandes exemplos disso. Em suas próprias palavras, afirmou que pediu a Deus que o livrasse do sofrimento, o “espinho na carne” que tanto lhe fustigava, mas recebeu uma resposta bem clara: “A Minha graça te basta, porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Coríntios 12.9). Paulo se resignou prontamente: “De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo” (2 Coríntios 12.9-10).

A história de Paulo fala por si mesma: ele foi preso, perseguido, humilhado e precisou fazer trabalhos braçais para se sustentar e se manter em suas viagens pregando a Palavra do Senhor Jesus, sem as regalias que tinha antes de sua conversão. Mesmo no cárcere, ele produziu suas cartas mais famosas a diversas igrejas, hoje parte importante do Novo Testamento. Ele não quis se “dopar” para não sentir a dor e, quando a fraqueza o atingiu, ele entendeu que Deus começava a agir onde ele não conseguia mais: “quando estou fraco então sou forte” (2 Coríntios 12.10).

Paulo ensinou uma lição que todos aqueles que seguem o Senhor Jesus de verdade seguem à risca até hoje: ele mostrou ao mundo que correr de uma luta é o mesmo que perdê-la. O cristão genuíno não quer “anestesias”, pois sabe que Deus está a seu lado para enfrentar qualquer tipo e tamanho de dor existente.

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Autor

Marcelo Rangel / Foto: Getty Images