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Histórias que edificam: acompanhe a 2ª parte de "A caixa sagrada"

No porão, Jane procurou a caixa sem sucesso. O lugar estava frio, úmido, empoeirado e cheio de teias. Ali o casal guardava objetos antigos, presentes recebidos, quadros quebrados, móveis em desuso. Havia também uma grande escuridão. As luzes das lâmpadas se foram ao longo do tempo, ainda assim, Jane esperava encontrar a sua caixa.

Por quantos anos ela estava ali, guardada e esquecida? Jane não sabia. Nunca precisou ir até ela, jamais imaginaria que teria tal necessidade. Mas a sua falsa sensação de bem-estar a iludiu, a ponto de fazer-se sentir suficientemente forte e cheia de si para envolver-se em qualquer problema. E pelo fim do casamento, ela não esperava.

Depois de tropeçar em alguns caixotes, Jane encontrou, à luz da lanterna, um baú embaixo de pilhas de revistas. Como um cachorro faminto, avançou para o objeto de madeira, lembrou-se que ali havia guardado a sua pequena caixa de sapatos enfeitada com papel colorido. E após ter tossido pelo leve nevoeiro de poeira que se formara à sua frente, pegou a caixa e correu.

Jane a abriu e começou a chorar como um pai que se reencontra com um filho que havia muito tempo não encontrava. Esqueceu-se de sua maquiagem, de seu penteado, de seus pensamentos e mágoas. Aquela Jane desapareceu por um momento, e a cada carta que lia, lembrava-se do início do namoro com Fran.

Mas uma delas a fez soluçar:

– Jane, querida – ele dizia em uma das antigas postagens – quero registrar neste pedaço de papel o que me faz amá-la. Considero-me feliz por lhe encontrar, por ter ao meu lado alguém que me traz paz e me deixa aliviado ante os meus problemas. Você é única; me entende e me faz sentir um homem especial, muito mais do que sou, ou do que poderia ser. Ao seu lado, sinto que é como se fôssemos apenas um, e por isso me sinto forte e agradecido sempre…

Foi aí que Jane se viu em total inércia. A perda de sua essência havia afastado o marido dela. Não foi a traição dele, mas a falta de atitude dela que os separou. Fran era o mesmo, mas foi, aos poucos, sendo lançado para fora da vida dela, e Jane sabia que era a responsável por isso. Havia esquecido a atenção, a compreensão, o carinho dispensado ao marido, e acabou nas entranhas das amizades interesseiras e do mundo de futilidades.

Imediatamente, Jane entrou em um profundo processo de análise interior. Ponderou acertos e erros, lembrou-se de como sempre foi, mas havia deixado escapar. “Foi bom”, ela pensou, “apesar de tudo, me reencontrei”.

Jane começou a mudar por si mesma. Não ligou para amigos, não incomodou parentes… Tomou um banho e tirou do rosto a impressão estampada de tristeza. Voltou ao tempo e resgatou do passado aquela mulher esquecida por ela mesma.

Jaqueline