Compras demais, felicidade de menos
O consumo exagerado no fim de ano pode esconder algo errado psicológica e espiritualmente, além de gerar dívidas que provocam estragos a longo prazo
A chegada de dezembro foi acompanhada por cenas de caos no comércio, com milhões de compradores acotovelando-se pelas ruas e shoppings de todo o Brasil, bilhões mundo afora. Nem mesmo a atual pandemia do coronavírus e a fragilidade econômica gerada por ela impediram a onda de consumo para as festas de fim de ano, com muita gente comprando também pela internet.
Segundo uma pesquisa da Teads, plataforma de mídia global, sobre a intenção de compras para este Natal, 82% dos brasileiros afirmaram que pretendiam comprar presentes para a data e 89% tinham a intenção de comemorá-la – o que também implica em gastos. As vendas no período devem girar em torno de R$ 39 bilhões no País, com R$ 109 como valor médio do presente, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Há quem gaste seu 13º salário todo em presentes e coisas nada úteis, além de viagens desnecessárias para cumprir rituais sem sentido na virada de ano. Para muitas pessoas, o consumo exagerado pode ser uma tentativa de aliviar mágoas, tristezas e frustrações. O problema é que isso não passa de uma ilusão e pode até ajudar a aumentar
o sofrimento.
Problemas acobertados
Muitos, inclusive, dão presentes a si mesmos e a entes queridos – e outros nem tão queridos – para camuflar a real situação de suas vidas, nem sempre favorável. Itens muitas vezes inúteis ou repetidos são adquiridos por impulso ou pelo intenso apelo da mídia, fisgando o consumidor pela emoção. Alguns, claro, perdem o controle, saem “felizes” das lojas com pacotes vistosos, mas depois amargam dívidas crescentes. “Independentemente do Natal, a compra em que a pessoa não consegue pensar racionalmente muitas vezes acoberta um fator psicológico”, revela o psicólogo paulistano Yuri Busin. “Muitas vezes, tem a ver com infelicidade. Compra-se algo para sentir-se feliz, mas o efeito é mínimo e muito rápido e, por isso, compra-se mais para que ele dure. Pode ser também uma substituição de um prazer real que a pessoa não conseguiu alcançar; ela acha que a compra vai compensá-lo, mas sem sucesso.”
Segundo Yuri, alguns tentam “comprar” a paz, “acobertando algo errado com um presente para si e para outros. “Desavenças são abafadas em troca de bens ou dinheiro. Mas isso é totalmente ineficaz, pois os problemas continuam lá.” A busca de status é outra armadilha: “muitos querem aquele tênis da moda, aquele celular caro para se sentirem integrados em grupos de quem já tem esses bens”, avalia.
O psicólogo lembra que também há a tentativa de dar presentes muito caros para passar uma imagem de riqueza que nem sempre é verdadeira, o que pode até levar ao endividamento. Além disso, algumas pessoas procuram presentear para conquistar a simpatia de outras. “Esse endividamento tem um efeito psicológico muito ruim e de longo prazo, pois dívidas não perdoam e causam angústia, ansiedade, depressão”, diz.
“A mídia reforça muito que presentear e ser presenteado faz bem, mas a pessoa deve analisar bem seus limites. As vendas apelam para a emoção, o prazer imediato, mas a razão deve falar mais alto”, afirma o psicólogo, que sugere que “um carinho, a atenção, uma experiência com o ente querido muitas vezes é bem melhor que qualquer presente caríssimo”.
Yuri complementa: “sei que é um clichê, mas é muito verdadeiro que, mais que dar presente, estar presente é o que faz a diferença. Estar junto e agir de fato como cônjuge, pai, filho, irmão, amigo ou qualquer outro tipo de relacionamento é mais importante. E, se houver um problema com a pessoa, tentar resolvê-lo de verdade, dialogar, isso vai ter um efeito muito mais real e definitivo do que tentar abafá-lo com mimos materiais”, conclui.
Falta de foco espiritual
O Bispo Paulo Calil concorda com Yuri e diz que “entre os sintomas de que algo não vai bem com a pessoa estão os gastos exagerados neste período”. Porém, ele alerta que o problema pode ir bem além do sentido psicológico: “isso revela algo muito sério do ponto de vista espiritual”.
“A ânsia por adquirir coisas novas, tais como roupas, eletrônicos, móveis, eletrodomésticos e até um carro, quase sempre é sinal de que a pessoa está em busca de uma transformação, procurando começar uma vida nova”, explica o Bispo. “É como se comprasse a própria felicidade. Sem falar de quem deu presentes no ano velho, mas ‘ganhou de presente’ dívidas para o ano novo. Sabemos que bens materiais no exterior jamais compensarão a ausência do Espírito Santo no seu interior. Então, neste fim de ano e no ano que já vai começar, priorize-O. Somente o Espírito Santo é capaz de fazer de você uma pessoa completa.”
English
Espanhol
Italiano
Haiti
Francês
Russo