Do cárcere ao trabalho: mais de 23 mil presos já se formaram nos cursos da UNP em 2026

Após o cumprimento da pena, detentos também recebem apoio para começar seus negócios com doação de matéria-prima em áreas como confeitaria e maquiagem

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A atuação da Universal nos Presídios (UNP) em favor daqueles que estão presos, cumprindo sentença judicial, oferece a essa população a oportunidade de construir um novo caminho com algo concreto em mãos. Por meio de cursos profissionalizantes — 371 até setembro de 2026 —, os internos podem desenvolver novas habilidades e ampliar as possibilidades de geração de renda e inserção no mercado de trabalho após a saída do sistema prisional. Entre os principais cursos estão confeitaria, empreendedorismo, elétrica, gestão financeira, hidráulica básica e informática básica. Ao todo, 23.951 internos já se formaram em 2026. Em 2025, foram 26 mil em 640 cursos.

E ajuda continua após a liberdade dos detentos, com acompanhamento daqueles que desejam e suporte a quem busca apoio para começar um negócio. Na área de confeitaria, por exemplo, a UNP oferece matéria-prima para o início da produção, e kits de maquiagem para quem vai atuar na área de beleza.

Em Rio Verde, no sudoeste de Goiás, 19 internas da Unidade Prisional Regional Feminina acabaram de se formar no curso de cabeleireira profissional. Na Bahia, outros 176 presos concluíram o módulo de primeiros socorros na Cadeia Pública de Salvador, após 60 horas de capacitação ao longo de três meses.

Para a professora e pró-reitora de extensão do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, Ana Cláudia Uchôa Araújo, “a oferta de cursos no cárcere é decisiva para quebrar o ciclo da reincidência, como abordado no estudo ‘A Educação profissional e tecnológica no sistema penitenciário brasileiro: terreno fértil à ressocialização dos encarcerados’; a atuação da UNP supre lacunas históricas ao entregar qualificação prática, garantindo ao egresso condições reais de inserção no mercado de trabalho ou geração de renda autônoma”.

O empreendedor Rodrigo Loiola, de 46 anos, fez o curso de pintura residencial quando cumpria pena. Hoje, é dono do próprio negócio e tem dois funcionários fixos, além de prestadores de serviços, que atuam nas frentes de trabalho da empresa, especializada em imobiliário de alto padrão. “Saí sem nada da prisão e agora tenho minha casa própria, carro, consegui pagar a faculdade de enfermagem da minha filha e estruturar minha família. Além disso, há quatro anos sou voluntário da UNP, atuando como professor de pintura em duas unidades prisionais em São Paulo”.

Oportunidade profissional e remição de pena

A participação e a conclusão dessas atividades podem possibilitar a remição de pena dos internos. A cada 12 horas de curso (com no mínimo três dias de aulas), eles são beneficiados com a remição de um dia na pena. A legislação brasileira, no artigo 126 da Lei de Execução Penal, e o
CNJ (Conselho Nacional de Justiça) preveem esse benefício por meio do estudo. Mas o impacto vai além. Uma pesquisa recente publicada pela Journal of Criminal Justice (Revista de Justiça Criminal) apontou diminuição da reincidência criminal e aumento do emprego para aqueles que participaram de cursos de formação profissional.

Além das iniciativas de capacitação, a UNP desenvolve ações como o curso de língua portuguesa, destinado a mulheres estrangeiras privadas de liberdade. Atualmente, 50 alunas participam das turmas na Penitenciária Feminina de Sant’ Ana, na Zona Norte de São Paulo (SP), com atividades voltadas ao aprendizado do idioma, à alfabetização e ao desenvolvimento das competências de leitura e escrita.

“O confinamento gera estresse e ociosidade crônica. Os cursos de educação profissional estruturam a rotina, devolvem a dignidade e resgatam a autoestima do apenado ao mostrá-lo capaz de aprender e produzir. Esse aprendizado reduz o adoecimento psíquico no cárcere e estimula o planejamento de um novo projeto de vida”, destacou Ana Uchôa, que também é pedagoga e pesquisadora.

Ações da UNP chegam a quase metade da população carcerária no Brasil

Até julho deste ano, 362.701 presos foram beneficiados pelas ações da UNP em 1.450 unidades prisionais do país, ante a 328.958 no primeiro semestre de 2025, ou seja, um crescimento de 10%. O contingente alcançado pelo programa social neste ano representa quase metade (49,88%) da população carcerária em regime fechado no Brasil, com de 727.301, segundo o SISDEPEN – Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional.

As iniciativas da UNP contam também com acolhimento aos familiares, especialmente nos dias de visita, escuta ativa junto aos internos e eventos que visam aproximar as famílias e gerar esperança para retomar a vida após o encarceramento.

“Entendemos que oferecer essas oportunidades é uma forma de contribuir para um novo começo. A capacitação profissional pode proporcionar mais autonomia, enquanto o acompanhamento e o apoio social ajudam a pessoa a enfrentar os desafios desse processo de retorno à sociedade. Nosso propósito é que cada pessoa atendida possa sair do sistema prisional com uma nova perspectiva de vida, levando consigo não apenas o aprendizado adquirido, mas também valores, responsabilidade e ferramentas que possam ajudá-la a construir um futuro diferente”, pontuou Clodoaldo Rocha, responsável nacional pela UNP.

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UNIcom