A dor por trás da farda

Expostos à violência, à pressão e a decisões extremas, agentes das forças de segurança carregam conflitos escondidos sob a aparência. A experiência do tenente da reserva Raul Garcez revela uma realidade compartilhada por muitos e reforça a importância de buscar apoio

Imagem de capa - A dor por trás da farda

A farda das forças de segurança costuma ser associada à autoridade, à coragem e à missão de proteger. Quem a veste é chamado justamente quando algo sai do controle: uma briga, um acidente, um crime, uma ameaça ou uma vida em risco.

Mas, por trás do profissional treinado para agir sob pressão, existe uma pessoa que também pode ser afetada pela exposição à violência, ao perigo, a situações de grande tensão e à morte. O impacto dessas ocorrências não desaparece com o fim do expediente. Ele pode alcançar a vida pessoal, contribuindo para o sofrimento emocional, os conflitos familiares e o esgotamento.

O tenente da reserva da Polícia Militar Raul Garcez, de 64 anos, conhece de perto essa realidade. Sua história, apresentada nesta matéria, poderia ter tido um desfecho trágico, mas começou a mudar quando, no momento mais crítico, ele encontrou na fé forças para buscar ajuda.

O sonho de ser policial

Desde criança, eu sonhava em ingressar na Polícia Militar e ajudar as pessoas. Aos 21 anos, fui aprovado no concurso no Rio Grande do Sul e entrei para a corporação em 6 de agosto de 1982.

Já havia servido ao Exército, mas a rotina era diferente: trabalhávamos no quartel. Eu ainda não conhecia a realidade das ruas, com o contato direto com as pessoas e a exposição a situações de risco.

Formando minha família

Eu já era noivo quando entrei para a Polícia Militar. Em 1983, casei-me e, no mesmo ano, nasceu nossa primeira filha. Treze anos depois, veio a segunda. Enquanto isso, segui avançando na carreira até alcançar o posto de primeiro-tenente.

O peso do que eu via nas ruas

O serviço policial nos coloca diante de situações que nem sempre são fáceis de esquecer quando o expediente termina. Eu atendia acidentes, ocorrências com mortes e via colegas baleados. Por isso, ao chegar em casa, bebia qualquer tipo de bebida alcoólica.

Acreditava que o álcool me ajudava a relaxar e, principalmente, a esquecer o que havia vivido durante o dia.

Quem pagava o preço

Quando alguém bebe em um bar e começa uma discussão, costuma brigar com quem está ao redor. Eu, porém, bebia dentro de casa. Então, quem recebia toda aquela irritação? Minha família.

Pequenas discussões se transformavam em grandes conflitos. Eu não sabia separar da vida familiar o que vivia no trabalho e carregava para casa o peso das ruas. No fim, quem pagava o preço eram as pessoas que estavam ao meu lado.

O dia em que tentei tirar minha vida

Em 2016, eu estava em um dos piores momentos da minha vida. Já não estava na ativa e, após o divórcio, vivia sozinho. Em um único dia, tentei tirar minha vida três vezes, usando uma arma.

Na última tentativa, o vento do ventilador movimentou as páginas de uma Bíblia que estava no sofá e abriu uma passagem sobre ser forte e corajoso e sobre Deus estar comigo (Josué 1:9). Aquilo me impactou, e nunca mais tentei tirar minha vida. Ainda assim, eu sabia que precisava de ajuda.

A vida foi saindo do controle

Às vezes, eu atendia ocorrências de brigas de casal provocadas por bebida, ciúme e agressões, enquanto vivia algo parecido dentro de casa. Eu tentava resolver os problemas dos outros, mas não conseguia lidar com os meus.

Tornei-me extremamente violento. Se jovens jogavam bola em frente à minha casa e isso me incomodava, eu era capaz de sair armado para ameaçá-los. Se alguém me fechava no trânsito, eu descia do carro e apontava a arma.

Dormia com uma pistola embaixo do travesseiro e mantinha outra em cima do sofá. Então veio a depressão: perdi 20 quilos, não conseguia dormir, via vultos e ouvia vozes. Acabei me divorciando.

“Eu tenho que ir à igreja”

Durante alguns meses, passei as noites assistindo às programações da Igreja Universal pela televisão. Eu já conhecia a igreja: anos antes, quando minha segunda filha sofreu muitas convulsões, buscamos ajuda médica, mas, como a situação permanecia difícil, fomos à Universal em busca de um milagre.

Nossa filha foi curada, porém, depois de alcançarmos aquilo que tanto desejávamos, cometemos o erro de nos afastar de Deus. Desta vez, no entanto, pensei: “Se o pastor diz que há solução, eu preciso ir lá”. No dia seguinte, fui.

Mal-intencionado

Cheguei à igreja com duas armas na cintura, ouvindo uma voz que mandava matar as pessoas e, depois, a mim mesmo. Sentei-me na primeira cadeira. O bispo, porém, chamou à frente quem sofria com depressão, insônia e pensamentos de morte. Parecia estar falando de mim.

Fui ao Altar e, quando coloquei as mãos sobre ele, senti vergonha por estar armado. Saí, deixei as armas no carro e voltei. O próprio Senhor Jesus me desarmou.

A decisão de mudar

Pouco tempo depois, em 2017, me batizei nas águas. Entreguei minha vida a Deus, passei a frequentar a igreja todos os dias, orava constantemente e comecei a evangelizar em um grupo. Também pedi perdão à minha então ex-esposa. Depois de alguns meses, recebi o Espírito Santo e passei a crer que, ao buscar primeiro o Reino de Deus, o restante seria reconstruído.

A família que eu achei que tinha perdido

Eu ainda estava separado e quase sem contato com minhas filhas. Minha esposa e eu tivemos outros relacionamentos, mas nenhum deles prosperou.

Eu orava pela salvação da minha família, e ela começou a perceber minha mudança. Voltamos a morar na mesma casa, sem retomar imediatamente a vida de casal. Aos poucos, reconstruímos a nossa relação: namoramos, noivamos e, em 2019, participamos da Celebração dos Casamentos, oficializando novamente a nossa união.

Uma nova história

Hoje, minha esposa, minhas filhas e eu estamos na presença de Deus e participamos do grupo Universal nas Forças Policiais (UFP). Depois de tudo o que vivi, consigo olhar para outros policiais e entender muitas de suas lutas.

Conheço colegas que enfrentaram depressão, problemas familiares e dívidas, mas não encontraram saída. Eu encontrei. Se houve um caminho para mim, também há para eles.

Ela viu que o marido estava diferente

Quando Raul voltou para a igreja, comecei a perceber nele um homem mais tranquilo e compreensivo. Observei essa mudança aos poucos, pois precisava ter certeza de que era verdadeira.
Mesmo separados, eu também frequentava a igreja, sentava-me ao fundo e buscava paz. Quando decidimos recomeçar, ainda havia muito a perdoar e reconstruir. Passamos a fazer a Terapia do Amor e entendemos que o relacionamento precisa de cuidado constante.

Nazaret Garcez, de 64 anos, Técnica de Enfermagem aposentada

Hoje, Raul Garcez serve a Deus na Igreja Universal de Tramandaí, localizada na Avenida Fernandes Bastos, 888, no Centro de Tramandaí, no Rio Grande do Sul

Oficiais na Bíblia

Histórias de homens acostumados à autoridade, à disciplina e ao confronto, mas que também precisaram reconhecer suas limitações e buscar ajuda:

Naamã: valoroso por fora, ferido por dentro

Comandante do exército da Síria, era respeitado, mas sofria de lepra. Para ser curado, precisou vencer o orgulho e reconhecer que precisava de ajuda (2 Reis 5:1-15).

O centurião: reconheceu a autoridade maior
Acostumado a comandar, o centurião reconheceu em Jesus uma autoridade superior à sua. A fé dele acabou surpreendendo o Senhor Jesus (Mateus 8:5-13).

O carcereiro: quase vencido pelo desespero
Ao pensar que os presos haviam fugido, o carcereiro de Paulo e Silas quase tirou a própria vida. Naquela noite, porém, ouviu a Palavra, creu e viu sua casa ser transformada (Atos 16:25-34).

Cornélio: ser bom não bastava
Piedoso, generoso e dedicado à oração, o centurião Cornélio precisava de algo além das boas obras: um verdadeiro encontro com Deus (Atos 10).

o auxílio dado pelo programa UFP

Criado em 2018, o programa Universal nas Forças Policiais (UFP) oferece assistência espiritual e social aos integrantes das forças de segurança e a seus familiares, além de promover ações de valorização, no Brasil e em outros países.

O programa também realiza palestras preventivas sobre saúde emocional, ética, combate aos vícios, estrutura familiar, educação financeira, casamento e criação dos filhos.

Em 2024, 126 policiais civis e militares tiraram a própria vida no Brasil

O impacto da fé

“Policiais enfrentam depressão, estresse e ansiedade, agravados por endividamento e conflitos familiares, com reflexos no trabalho e em casa. O apoio espiritual faz toda diferença ao fortalecer o domínio próprio, favorecer boas escolhas e contribuir para uma vida mais equilibrada”

Pastor Roni Negreiros, major-capelão da Polícia Militar do Estado do Maranhão e coordenador do UFP

Saiba mais

Leia as demais matérias dessa e de outras edições da Folha Universal, clicando aqui. Confira também os seus conteúdos no perfil @folhauniversal no Instagram.

Folha Universal, informações para a vida!

 

imagem do author
Autor

Núbia Onara / Fotos: Arte sobre fotos geradas por IA e Arquivo Pessoal