Manual de sobrevivência: como criar filhos no mundo de hoje
Entenda por que a falta de limites pode cobrar um preço alto amanhã, e como retomar o controle de maneira saudável
Sabe aquela sensação de que o mundo virou um grande buffet livre, onde as crianças querem sobremesa antes, durante e depois do almoço? Pois é. Antigamente, a educação parecia um trilho de trem: reto, rígido e com poucas paradas. Hoje, parece que os pais tentam pilotar um helicóptero em meio a um furacão, enquanto seguram um tablet e lutam para não se sentirem culpados por tudo.
A verdade é que o mundo mudou. E para entender como não “perder as rédeas” dessa carruagem moderna, conversamos com o psicólogo clínico Murillo Sabatier, que nos ajudou a decifrar por que dizer “não” virou um desafio familiar.
O sumiço do “não” e a moeda de troca da culpa
Se você sente que a dinâmica familiar mudou na atualidade, você acertou. Segundo Murillo, vivemos um momento em que os pais estão mais velhos, mais cansados e muito mais sobrecarregados. “A obrigação e o custo de vida levaram os pais a exercerem trabalhos desgastantes, que os obrigam a cumprir jornadas de oito, dez ou até doze horas diárias”, explica.
O resultado? Um distanciamento físico e emocional. E é aqui que mora o perigo: para compensar a ausência, o “sim” vira um presente. “O ‘sim’ dado por esses pais serve para tornar aquele pouco tempo em família, muitas vezes marcado por estresse e cansaço, em um momento mais prazeroso. Ele vem para preencher o espaço deixado pelo tempo que não conseguem oferecer”, pontua o psicólogo. É a famosa “paz a qualquer custo”, onde o limite é sacrificado no altar da harmonia momentânea.
Quando o youtuber vira o “tio” da família
Se antes o perigo era a “má companhia” na esquina, hoje o risco está no algoritmo. A tecnologia trouxe o que Murillo chama de “gap geracional acelerado”. As linguagens dos filhos mudam tão rapidamente que os pais passam a se sentir estrangeiros dentro da própria casa.
Pior ainda: a tela virou a babá eletrônica. “Muitos oferecem as telas como forma de manter a paz e o conforto. É muito mais fácil conversar e até fazer as refeições com o filho diante da tela”, diz o psicólogo.
O problema é que, ao entregar o dispositivo, os pais entregam também a autoridade. “Eles deixam de ser os ‘pais’ e são substituídos pelos youtubers. Entregam aos filhos aqueles que os substituirão e, depois, cobram deles por isso.” É o clássico “efeito bumerangue”.
O drama da geração “eu quero agora!”
Você já viu uma criança ter um colapso porque o vídeo do YouTube ficou três segundos “travado”? Isso tem nome: baixa tolerância à frustração. No mundo digital, a recompensa é instantânea e os problemas reais praticamente não existem. Já na vida real, o boleto não perdoa e a promoção no trabalho pode nunca chegar.
Murillo alerta que evitar a frustração do filho hoje é formar um adulto despreparado amanhã. “Os pais querem o bem, mas o ‘bem’ não é evitar que a criança se frustre. Isso trará prejuízos na escola e no trabalho. São crianças que não aprendem limites e, quando algo demora um pouco, já apresentam ansiedade”, explica. Afinal, a vida não tem botão de “pular anúncio”.
Retomando o leme (sem virar um ditador)
Se você sente que as regras da casa são mais sugestões do que normas, calma: ainda dá tempo de ajustar a rota. O segredo, segundo o especialista, não é o autoritarismo, mas a clareza. “O grande ponto em relação aos limites é deixar tudo bem claro desde o começo. O problema é quando a informação é apresentada como uma ameaça, o que não surte efeito”, afirma.
A ideia é estabelecer regras fundamentais (sono, alimentação, uso de telas) e ser firme nas consequências. Se nunca houve “regras formais” na sua casa, não tente implementar o código de leis de um país inteiro em um único dia. Comece pelo essencial e, principalmente, alinhe o discurso entre os cuidadores. Nada destrói mais a autoridade do que o pai dizer “não” e a mãe sussurrar: “tá bom, mas não conta para ele”.
5 dicas de ouro para manter o equilíbrio em casa
Precisa de um plano de ação para hoje? O psicólogo Murillo Sabatier ensina como criar limites e fortalecer vínculos:
- Cale as vozes da internet: busque conteúdos sólidos, leia livros e artigos de educadores de confiança e reduza um pouco o ruído das redes. Nem tudo o que brilha no Instagram funciona na sua realidade.
- Regras visuais e claras: estabeleça os combinados primeiro entre os adultos, evitando a divisão entre o “chato” e o “legal”. Para os menores, utilize cartazes ou lembretes visuais.
- Tempo de qualidade (de verdade): É buscar, na rotina, tempo em família de fato, e não tempo em telas. Saia da zona de conforto e descubra o que seu filho gosta, promovendo uma conexão real.
- Pai não é “parça”: É importante compreender o papel do pai. Ele não pode ser um “amigo” antes de ser “pai”. Nem sempre aquilo pelo que o filho chora é o que ele realmente precisa.
- Monitoramento ativo: acompanhe o que seu filho faz no WhatsApp e o que consome nas redes. Assistir junto e assistir antes para verificar se o
conteúdo é adequado é fundamental para garantir a segurança.
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