Álcool vira epidemia silenciosa entre os idosos

Por que o consumo é crescente e quais são os caminhos que podem reverter esse cenário alarmante?

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O consumo de bebidas alcoólicas entre idosos está crescendo assustadoramente. Dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) mostram que, em 2023, uma em cada três internações relacionadas ao álcool no Brasil envolveu pessoas com mais de 55 anos. Um alerta recente de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), publicado na seção Cartas ao Editor da World Journal of Psychiatry, revista acadêmica internacional de acesso aberto, aponta uma epidemia silenciosa marcada pela ingestão elevada de bebidas e também pelo uso de maconha, analgésicos, tranquilizantes e outros medicamentos por pessoas acima dos 60 anos.

Cenário preocupante

Para Olivia Pozzolo, psiquiatra e médica pesquisadora do Cisa, no âmbito familiar, o consumo de álcool entre idosos ocorre muitas vezes de forma solitária e silenciosa. “A ingestão também eleva drasticamente o risco de quedas e fraturas e agrava patologias preexistentes, como a hipertensão e o diabetes. Do ponto de vista social e econômico, o cenário é preocupante, pois as internações nessa faixa etária tendem a ser mais longas e complexas, onerando o sistema de saúde e privando a sociedade da contribuição ativa de cidadãos que poderiam estar usufruindo de um envelhecimento saudável”, opina.

Álcool e outras substâncias

Por outro lado, o uso de álcool na terceira idade frequentemente não vem sozinho. “O perfil desse público costuma ser o de alguém que utiliza a substância como uma forma de automedicação para lidar com perdas, como o luto e a aposentadoria, ou mesmo para aplacar a solidão e dores crônicas. Muitos idosos já fazem uso de vários medicamentos para dormir ou controlar a ansiedade e a interação entre o álcool e medicamentos como os tranquilizantes é perigosa, pois ela potencializa o efeito sedativo e aumenta o risco de paradas respiratórias ou episódios de confusão mental severa”, alerta.

Socialização ajuda a evitar problema

O Bispo Valter Pereira, coordenador-geral do Grupo Calebe Universal, projeto voltado para pessoas a partir dos 60 anos, diz que, embora muitos idosos estejam buscando cada vez mais refúgio no álcool e em outros tipos de drogas, há saída para o problema. “Temos muitos exemplos [no grupo] de pessoas que, infelizmente, estavam presas ao vício, mas hoje estão livres dessa escravidão”, diz.

Ele afirma que a socialização é muito importante. “O Calebe possui muitas opções para ajudar os que chegam até nós, com atividades como aulas de ginástica, alongamento, canto, informática, uso de smartphone e artesanato. Além disso, a grande roda de bate-papo tem sido fundamental para a integração e a troca de experiências entre todos, o que ajuda muito nesse processo”, enfatiza.

O Bispo ressalta ainda a importância de Deus para vencer esse mal: “Não foi à toa que o Senhor Jesus disse: ‘Sem mim nada podeis fazer’. Entender isso é difícil para alguns porque há um bloqueio no entendimento de muitos que ainda não compreenderam a fé inteligente”.

Saúde coletiva

Ela diz que precisamos evoluir para um cenário em que a percepção social do álcool deixe de ser de que ele é puramente recreativo para se tornar uma questão de saúde coletiva. “Isso envolve desmistificar a ideia de que o consumo é uma parte inofensiva e necessária da socialização. As ações devem começar no consultório médico e com profissionais de saúde treinados para questionar o hábito de beber, o que muitas vezes é negligenciado. É essencial fortalecer as redes de apoio social e oferecer opções de lazer que combatam a solidão, informando sempre o idoso de que o seu corpo já não processa o álcool da mesma maneira que na juventude”, sugere.

Fator de risco gerenciado

Olivia afirma que, para quem convive com idosos, o ideal é manter canais de diálogo abertos e estar atento a mudanças bruscas de comportamento ou quedas frequentes. “Eles podem ser sinais de que o consumo de álcool saiu do controle. Por outro lado, o envelhecimento saudável é um direito de todos e o álcool não deve ser um obstáculo para essa fase da vida. A saúde e a segurança de nossos idosos dependem diretamente de informação de qualidade e do compromisso de toda a sociedade em encarar o álcool não como um hábito inofensivo, mas como um fator de risco que pode e deve ser gerenciado”, esclarece.

Conheça o Grupo Calebe Universal

O projeto está presente em 119 países. No Brasil, 65.450 idosos participam dele; no exterior, são mais de 115 mil. Para participar, ligue para (11) 2178-1191, acompanhe o projeto nas redes sociais ou busque a sede do grupo na Universal mais perto da sua casa.

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Colaborador

Eduardo Prestes / Fotos: Rawpixel/getty images e Demetrio Koch